Um gol de placa de Ariel Palacios

"O Futebol lado B" vai além de um manual ou compêndio de curiosidades: é um leve e didático tratado de sociologia do desporto para não sociólogo

A Copa do Mundo está aí, época quando até mesmo quem não gosta de futebol é convocado a entrar no relvado para torcer pelo Brasil. Um gol contra aos que não veem a menor graça em “onze marmanjos correndo atrás de uma bola”, mas também sempre uma oportunidade de tentar perceber o que está por trás do fascínio do esporte mais popular do planeta.

O jornalista - e torcedor do Londrina - Ariel Palacios talvez não tivesse essa pretensão, mas o seu livro Futebol lado B acaba por ir além de um manual ou compêndio de curiosidades sobre o desporto bretão. Lido com a devida atenção, é um leve e didático tratado de sociologia do desporto para não sociólogos. O lançamento ocorreu nesta quinta-feira (21), em São Paulo, numa livraria em um shopping center.

Dividido em oito capítulos, o pontapé inicial obedece ao esquema tático de costume, ao lembrar as origens históricas e culturais do futebol, desde os tempos em que o caos e a barbárie faziam parte de um jogo onde a regra era não haver regras, até a virada para a modalidade conhecida por nós hoje, ocorrida na Inglaterra de meados do século XIX.

O local e a data na certidão de nascimento não são por acaso. Oriundo do rugby após os ingleses decidirem trocar as mãos pelos pés, em 1863, o futebol é herdeiro da Revolução Industrial, levando para o campo, por exemplo, a divisão de tarefas das linhas de montagem das fábricas, ao estabelecer funções específicas aos jogadores, do goleiro ao atacante. 

Mais do que um jogo, o futebol também foi uma ferramenta civilizatória a serviço do império britânico, reproduzindo dentro de campo as regras da corte para os súditos da rainha mundo afora. Esse papel colonizador do futebol explica o porquê de ele ter demorado a pegar nas antigas colônias britânicas, da Austrália aos Estados Unidos.

O pênalti é um bom exemplo. Introduzido na regra em 1891, repete em campo o ritual de um fuzilamento, adotado como pena máxima na Índia em 1857. Até as distâncias entre o jogador e goleiro, e pelotão e condenado, são as mesmas. Já a regra do impedimento, adotada desde o início, pune quem tenta tirar vantagem - ou atacar - o outro pelas costas.

Esse lado B do futebol para além das quatro linhas é percorrido por Ariel Palacios, por exemplo, nas rivalidades históricas entre Israel e Irã ou Grécia e Turquia. Ou ainda, como as efêmeras seleções da Rodésia e Biafra marcaram posições políticas durante crises e o desaparecimento da União Soviética e Tchecoslováquia redesenharam um novo mapa geopolítico mundial.

Visto por muitos como uma religião, o futebol também faz tabelinha com a fé. A começar pela Igreja Maradoniana na Argentina, dedicada ao d10s Diego Maradona que, empurrando a bola com a “mão de Deus” para as redes, infligiu o gol da derrota frente a Inglaterra na Copa de 1986, quando os dois países se digladiavam na Guerra das Malvinas.

Ariel Palacios também não esquece da influência da cabala, da feitiçaria e da superstição no desempenho de jogadores e treinadores. Aquela promessa não paga a um bruxo ou a praga de um antigo treinador que podem definir a sina de um clube, seja nas longas sequências sem títulos ou em quedas de divisão.

O caso mais curioso trazido pelo livro é o do antigo técnico da seleção Argentina, Carlos Bilardo, que na Copa de 1990, na Itália, obrigou todos os jogadores a cumprimentarem uma noiva na saída de um casamento, por acreditar que daria sorte. Loucura ou não, no dia seguinte os argentinos eliminaram o Brasil do Mundial, com um gol de Caniggia.

Se a metafísica joga, a física também tem seu papel tático no futebol. É o caso do Efeito Magnus, que produz uma desconcertante curva na trajetória da bola, aos moldes da mítica cobrança de falta do lateral brasileiro Roberto Carlos contra a França, em 1999. Ou na famosa folha seca de Didi, a queda sutil da bola provocada pela crise do arrasto no atrito com o vento.

A riqueza sociológica do futebol rende também homenagem aos mascotes dos clubes, a começar pelo Tubarão, o inusitado símbolo do Londrina de Ariel Palacios, mesmo a cidade estando a 480 quilômetros da praia mais próxima. Como também são curiosos alguns apelidos de times, como o Bolívia Querida do Sampaio Correia ou o Papão do Paysandu.

Os mascotes dos pernambucanos Santa Cruz, Sport, Central e até do Retrô são mencionados no livro, que inexplicavelmente passou em branco no exótico Timbu do Náutico, talvez o único mascote marsupial do futebol brasileiro. Nada, porém, que não possa ser corrigido numa futura edição de um livro que transforma o futebol numa caixinha sem surpresas. 

Futebol lado B
Autor: Ariel Palacios
Prefácio: Marcelo Barreto. Posfácio André Rizek
Editora: Globo
Páginas: 312
Preço: 74,90