Em um panorama da ficção científica contemporânea cada vez mais saturado por narrativas de super-heróis reciclados e distopias genéricas, a série Pluribus (2025) surge como um artefato cultural provocador e denso, uma obra que transcende o mero entretenimento para se posicionar como um sismógrafo das angústias profundas da modernidade tardia. Criada por Vince Gilligan, consagrado por Breaking Bad e Better Call Saul, essa nova série de ficção científica da Apple TV+ é protagonizada pela atriz Rhea Seehorn e imagina um mundo em que a humanidade se funde em termos intelectuais e emocionais, gerando uma mente coletiva no estilo colmeia ou formigueiro.
Como costuma acontecer em ficções científicas, nossa heroína encarna a consciência desperta e, armada com sua astúcia pra lá de afiada, tenta consertar (ou endireitar) o mundo. Essa mulher é a romancista Carol, uma figura enigmática e controversa – mulher lésbica que afirma radicalmente a sua individualidade através da escrita.
A série não é apenas uma epopeia com uma ação futurista, mas antes de mais nada ela desenha uma mitologia em certo sentido conservadora e reacionária (vou nuançar isso) que cartografa o colapso do projeto humanista moderno de sociedade, que vai ser apresentado sob a forma de uma entidade que funde o ideológico, o tecnológico, o biológico e o cósmico. Vou explicar isso.
Na primeira temporada, a que veio a público e que foco aqui, Pluribus constrói uma narrativa que, à primeira vista, parece um panfleto conservador, mas revela camadas de paradoxo, ironia e desconstrução que a elevam a um status de tragédia prometeica moderna. Ela encena com ironia e humor negro as ambiguidades da política e da técnica. É fundamental ver como a série articula um conjunto de medos coletivos, insere-se em tradições literárias e filosóficas, e funciona como um espelho psicológico para nossas ansiedades e angústias contemporâneas, culminando em uma estética e ética da recepção que transforma o naufrágio existencial em espetáculo tragicômico.
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