Em julho de 2008, Paulo Faria, tradutor de Cormac McCarthy para o português de Portugal, visitou a cidade de Knoxville, no Tennessee. Sua intenção, de acordo com suas próprias palavras, era “respirar a atmosfera de Suttree”. Ele e o amigo Peter Josyph saem perambulando pela linha férrea que corta Gay Street, a rua principal da cidade. Avistam com curiosidade um longo comboio de sucata sobre os trilhos. Escalam os vagões-plataforma decrépitos e enferrujados. “No meio dos detritos metálicos que os juncavam, Peter viu caído um rebite carcomido de ferrugem, sujo de óleo, um daqueles pregos grossos que se usam para prender os carris (trilhos) aos dormentes de madeira. Pegou-lhe, entregou-me e disse: ‘Tens de levar isto para Lisboa. Porque é ferro-velho, e Suttree é um romance sobre ferro-velho, lixo, os detritos, sobre todos os que vivem mergulhados nas escórias e na porcaria.” Toda vez que lhe faltava energia no trabalho de tradução, ele recorria ao pequeno objeto material, ao rastro sensorial de Knoxville, para se aproximar da prosa barroca e afiada de Cormac McCarthy.
Materialidade, estética da ruína, do resto e da sobra, talvez sejam elementos realmente marcantes do romance. Um artífice da palavra que, como um andarilho trapeiro, recolhe os cacos da realidade. Voltaremos a isso mais adiante.
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