O incrível caso Maria do Carmo Ferreira

Inédita em livro até os 86 anos de idade, a poeta enfim se revela como uma das vozes mais vigorosas da poesia brasileira

Diante dos três volumes da Poesia reunida (1966-2009), da mineira Maria do Carmo Ferreira, recém-publicados pela pequena editora Martelo, de Goiânia, não é de estranhar que muita gente esteja se perguntando: como é possível uma poeta desse nível ter permanecido inédita em livro até os 86 anos de idade?

Ainda que se atribua a um temperamento arredio aos holofotes, o que tem provocado comparações a Maria do Carmo Ferreira com a reclusa norte-americana Emily Dickinson (1830-1886), ou com a goiana Cora Coralina (1889-1985) - que saiu do ineditismo aos 76 anos, pelo incentivo do poeta Carlos Drummond de Andrade - não seria o caso de se questionar também: que doença tomou conta do sistema literário brasileiro que põe em circulação e legitima discursos altamente duvidosos, enquanto deixa na sombra uma autora tão complexa, densa e surpreendente?

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