“Profecias” do Clube da Luta se confirmam na era do like

Lançado há três décadas, livro de Chuck Palahniuk reflete sobre questões de uma sociedade doente, alienada e consumista, agravadas, agora, com o bombardeio da mídia

Se o narrador de Clube da Luta fosse criado hoje, seria bem provável que seu distúrbio do sono fosse causado pelo vício em redes sociais. Trinta anos depois de Chuck Palahniuk assombrar leitores mostrando como os anos 1990 adoeceram a sociedade ao pisar no acelerador do consumo, vivemos um momento muito parecido — e ainda pior, para muitos. Afinal, o consumo exagerado, de lá pra cá, nunca arrefeceu e agora é turbinado pela famigerada cultura do like, que criou estratégias ainda mais eficazes para alienar gente de todas as idades quase que instantaneamente a partir do primeiro contato com uma tela — as recentes condenações da Meta e do Google nos Estados Unidos por “vício em redes sociais” confirmaram algo que era bastante óbvio. Por isso, a reedição do livro no Brasil — fato comemorado pelo próprio autor em sua conta no Substack — é uma oportunidade para refletir sobre nossos “novos velhos” vícios.

Olhando em retrospecto, as questões retratadas no livro de Palahniuk — consumo incentivado pela mídia; descontrole do uso de medicação anti-depressão (foi a década do Prozac); crise da masculinidade; violência; alienação fomentada pela indústria do entretenimento — estavam também no centro de obras de diferentes criadores da época: é só lembrar do monólogo de Trainspotting (“Escolha uma vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família.”), romance de Irvine Welsh, eternizado pela interpretação de Ewan McGregor no filme de Danny Boyle. Na música, Kurt Cobain fez uma obra-prima (Nevermind) baseada em letras sobre a alienação social e o conflito entre integridade artística e fama — assunto que o atormentava e foi determinante para seu fim trágico.

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