Neige Sinno tinha seis anos de idade quando a mãe se casou pela segunda vez. O padrasto, um homem viril de perfil aventureiro, montanhista, tinha 24. A família se mudou para uma cidadezinha nos Altos Alpes franceses, onde comprou uma casa em ruínas na zona rural, com a intenção de reformá-la, plano nunca plenamente executado. Viviam na base do improviso, num eterno canteiro de obras, com poucos recursos. A mãe trabalhava como faxineira; o padrasto como guia turístico nas montanhas. Neige viveu por 10 anos nessa situação precária, a maior parte deles sendo estuprada sistematicamente pelo padrasto. Saiu para fazer faculdade. Durante esse período, compartilhou a história dos abusos com amigos, que a encorajaram a denunciar o padrasto. Motivada pelo medo de que os estupros pudessem ser perpetrados contra os irmãos, Neige apresentou a denúncia. O padrasto confessou o crime, foi julgado e condenado à prisão.
Mais de 20 anos depois, aos 44 anos, a autora narra a história em Triste tigre (Amarcord, 2025, tradução de Mariana Delfini), um relato duro e direto, que mistura elementos da autobiografia, do ensaio pessoal, da crítica literária e da literatura. Trata-se de uma narrativa, ao mesmo tempo, difícil de ler e fascinante. Difícil não apenas pelo conteúdo infame – o estupro de uma criança –, mas pela forma explícita com que a autora narra os episódios. Mas é desse confronto franco, do gesto de “pegar o touro à unha e fazê-lo perder a cabeça”, como escreve a autora, e da tentativa radical de alteridade de tentar mergulhar na cabeça de um estuprador, que emerge a força de sua reflexão.
Narrar o trauma implica encontrar a linguagem capaz de exprimir o indizível, a forma que represente a experiência dilaceradora do estupro infantil. Isso passa, para a autora, por tentar entender o próprio fascínio com a figura do abusador. No fundo, escreve Sinno, logo na abertura do livro, “o mais interessante parece ser aquilo que se passa na cabeça do carrasco”. Colocar-se no lugar das vítimas estaria mais ao alcance da maioria das pessoas. No caso do carrasco, seria diferente. Não é mesmo fácil entender o que se passa na cabeça de um homem adulto que se tranca num quarto com uma criança de sete anos, tem uma ereção, consuma o ato, e depois veste a roupa e volta ao teatro da normalidade da vida em família.
A primeira parte do livro, de modo quase exclusivo, é dedicada a tentar desvendar o ponto de vista do abusador. Mas não com o propósito de humanizá-lo, pelo contrário. A análise complexa de Sinno sobre o estuprador infantil parece ter como finalidade justamente reivindicar o que existe de monstruoso em sua conduta. Sinno tenta se aproximar o máximo possível de seu padrasto. Ensaia três retratos possíveis dele. Descreve-o como seu estuprador. Depois, tenta enxergá-lo pelos olhos da mãe. Afasta-se e se aproxima de seu carrasco ora com objetividade, ora literariamente. Se atém ao ideal de uma “determinada verdade objetiva” para então concluir a impossibilidade óbvia de seu retrato, “porque é ele”.
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