Era uma vez….Houve um tempo…..Certa vez…..
Após o advento da Internet e suas especificidades, como o grande fluxo de informações e a obsessão pelo compartilhamento, as expressões acima, para muitos, podem soar obsoletas, principalmente para certos jovens – salvo raríssimas e honrosas exceções – que, não raro, menosprezam o passado, como se o mundo tivesse começado a partir deles.
A fórmula antiga pode parecer sem sentido, mas é bem mais poderosa do que se imagina. É o que revela o livro Aristóteles no mundo digital – A comunicação no século XXI (Editora Alta Books), da jornalista Vera Iris Paternostro. Aristóteles foi um dos mais famosos filósofos da Grécia Antiga. Escreveu uma série de livros a respeito da ética, da moral, entre outros temas.
Com mais de 45 anos de experiência em redações, em salas de aula de faculdades de comunicação e chefiando equipes na Rede Globo, a autora analisa o que permanece imutável, ou seja: a essência da comunicação, contar histórias que prendam a atenção do leitor e emocionam. “Contar histórias é uma arte. Em qualquer mídia, em qualquer formato, em qualquer modelo”, afirma Vera Iris Parternostro.
De forma didática e objetiva, a obra explica como os tratados escritos por Aristóteles podem ser adaptados ao mundo virtual. “O que mais me encanta em Aristóteles são suas teorias sobre gêneros literários, nas quais, há mais de dois mil anos, define os elementos da construção de uma história. Em todos os formatos e em todas as redes que se entrelaçam no grande espaço virtual da comunicação digital, entre milhões de dispositivos conectados, unindo hemisférios do planeta, histórias são contadas como Aristóteles definiu. O legado de Aristóteles é o alicerce para quem, como nós, comunicadores, jornalistas, produtores de conteúdo, conta histórias” – explica a autora do livro, que participou da criação da GloboNews, projeto pioneiro de canal de notícias no Brasil.
Ressalta que, naqueles tempos, Aristóteles já se preocupava em demonstrar que somente uma narrativa clara, objetiva e consistente prende a atenção e conquista o reconhecimento do público. “A mesma preocupação que temos atualmente na estratégia de mídias sociais. Não é interessante perceber como essa preocupação se relaciona entre os distantes séculos”? – argumenta.
A obra é repleta de exemplos sobre o perfil, o desenvolvimento do trabalho e a criatividade de grandes mestres, como Albert Einstein, Pablo Picasso, Gabriel García Márquez, Paul Auster, entre outros. Há também lições de stortelling e de roteiro de alguns filmes que marcaram a história do cinema.
A despeito das várias ferramentas do mundo digital, contar uma história continua sendo e será sempre premissa básica para jornalistas, escritores e cineastas. “Lidamos com a realidade do dia a dia. A busca constante do jornalista é a história além da história, o que está por trás da obviedade do contexto que, quanto mais investigativo e apurado, melhor será”, assegura Vera Iris Paternostro.
Talento e criatividade para contar histórias não mudam com o passar do tempo, nem com o progresso tecnológico das redes digitais (incluindo, obviamente, a IA, gerando textos sem alma, anódinos) que usam conteúdos jornalísticos em suas atividades e não remuneram os veículos.
Considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira, Machado de Assis afirma que as palavras têm sexo, amam-se umas às outras, casam-se. O casamento delas é o estilo.