As formas de pensar o mundo

“Acredito que tanto a arte quanto a teoria são formas de pensar o mundo, não sendo uma melhor nem pior do que a outra. Hoje em dia se acredita que se pensa o mundo principalmente através da teoria e até mesmo em cursos de pós-graduação nos atentamos mais a ler teóricos do que escritores ou ter contato com outras obras, como se o modo de pensar o mundo delas estivesse aquém da teoria. Eu gosto de uma frase da Gayatri Spivak que fala que as ciências sociais ensinam as regras e a literatura ensina a jogar. Então, parafraseando Spivak, acho que a teoria ensina as regras e a arte ensina como jogar.” Para Pedro Kalil, em entrevista à Pernambuco, essas são algumas das provocações que estão pautadas pela sua coleção Arte & Teoria, publicada pela Relicário Edições.
O conjunto de seis livros reúne entrevistas com artistas e teóricos, explorando a interação entre arte e teoria, além de examinar obras e questões decorrentes da produção de cada um dos entrevistados. São eles: a encenadora e pianista Ione de Medeiros; a poeta, ensaísta e Rainha de Nossa Senhora das Mercês na Irmandade do Jatobá Leda Maria Martins; a professora, tradutora e diretora de teatro Sara Rojo; o escritor, roteirista e cineasta Leo Pyrata; a artista e professora Marta Neves; e o músico, compositor, instrumentista, escritor e ator Sérgio Pererê. Esta compilação, de forma concisa e um pouco mais informal, destaca criações e reflexões fundamentais, possibilitando um aprofundamento em diversas temáticas.
Nesta resenha, o foco está nos volumes que se debruçam sobre Ione, Leda e Sara. Segundo Kalil, por não estarem no eixo Rio-São Paulo, essas três artistas não tiveram a repercussão que deveriam. “Importante lembrar que a história do teatro brasileiro, como é contada nos livros, parece uma história do teatro de São Paulo, capital, com algumas experiências pontuais fora de lá, como Hermilo Borba Filho ou o Grupo Galpão, para ficar em só dois exemplos. Entretanto, não acredito que exista experiência teatral e teórica no Brasil que possa se relacionar com essas artistas”, analisa o autor.
Na história recente do teatro brasileiro, deparamo-nos frequentemente com nomes como Augusto Boal, Zé Celso e Antunes Filho, mas onde se destacam figuras como Ione de Medeiros? Em 2024, ela celebra 41 anos ininterruptos como diretora do Grupo Oficcina Multimédia (GOM), além de integrar o grupo desde sua fundação, em 1978, inicialmente como atriz. Essas efemérides a consolidam como uma das diretoras teatrais mais longevas não apenas do Brasil, mas de toda a América Latina. A diretora celebrou essas datas lançando o livro Oficcina Multimédia – 45 anos (Selo Lucias), obra que orquestra diferentes mídias artísticas em seu design editorial. O grupo é responsável pela organização do Bloomsday, o Dia Internacional do escritor James Joyce, em Minas Gerais, a Bienal dos Piores Poemas, o Kafé K, homenageando Kafka, e outros.
“As duas áreas as quais eu sou mais ligada são música e literatura, porque são as duas mais próximas. Eu cheguei a Joyce porque aquele texto Finnegans Wake é música pura, você não precisa entender, porque é musicalidade. Ele era músico, ele cantava, era tenor. Meu encontro com James Joyce foi através da música. Eu acho que a literatura tem muito componente musical. A palavra tem que ser muito precisa, é verdade, mas cada um vai ouvi-la de uma forma, a literatura é muito aberta, ninguém leu o mesmo livro”, pontua Ione, vencedora do Prêmio APCA de melhor direção em 2023 com uma montagem de Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues. Além de Joyce e Nelson, Ione montou nomes como García Lorca, Anton Tchekhov e Ferreira Gullar.
Leda Maria Martins, por sua vez, expressa a ideia de que o artista é alguém que, frequentemente, enfrenta o fracasso. Apesar de ser apontada pela crítica como a principal pensadora do teatro negro brasileiro e ter servido como a força motriz teórica por trás da última Bienal de São Paulo, a autora compartilha sua aversão a reler seus próprios textos devido ao confronto com esse fracasso, seja nas elaborações teóricas, seja na ficção ou poesia, identificando sempre algo que demanda atenção. Talvez seja por isso que tenha uma afinidade tão grande com a teoria, pois acredita que esta não fornece respostas prontas. Segundo sua interpretação, a teoria mais instigante é aquela que não oferece soluções definitivas, mas, sim, possibilita diversas elaborações, alinhando-se à concepção de Roland Barthes sobre o texto ficcional. Ou seja, um texto legível e escriptível – conceito barthesiano – é aquele que instiga continuamente a leitura, sem nunca chegar a um fim.
Martins destaca que, ao considerar as competências africanas, elas abrangem diversos campos do conhecimento, embora sejam frequentemente denegadas, não apenas no Brasil, mas de forma geral. Às vezes, enfatizamos mais a música e a dança, sendo mais fácil tolerar nesses contextos, mas essa negação está presente em todos os âmbitos, como na medicina, engenharia, arquitetura, pensamento, e em outras áreas. De acordo com sua análise, essas aptidões não recebem visibilidade, mesmo quando a cosmovisão africana pauta esses campos.
“Como é que pode socialmente aquilo ser tão belo e aquele mesmo sujeito que está performando ali, seja no âmbito das religiões, das artes etc., ele é malpago, ele habita mal, ele não tem escola, não tem água tratada, não tem esgoto em casa, não tem condições mínimas de uma sobrevivência digna”, reflete Martins, a partir das contradições entre a riqueza cultural dos povos negros e sua pobreza social.
A obra de Kalil não apenas contempla, mas também aprofunda os principais conceitos propostos por Leda Maria Martins. Dentre essas noções, destacam-se a “encruzilhada”, as “afrografias”, a “oralitura”, o “tempo espiralar” e, mais recentemente, o conceito de “corpo-tela”.
Sara Rojo, outro destaque da coleção, foi uma das responsáveis pela criação do curso de graduação em Teatro da UFMG. Além disso, atualmente, ela celebra 44 anos como diretora teatral. Nascida no Chile, Rojo engajou-se na resistência contra o governo ditatorial de Augusto Pinochet em sua juventude. Durante esse período, tornou-se aluna de Augusto Boal em oficinas clandestinas de direção, enquanto dirigia grupos de teatro camponeses. “Minha produção teórica nasce como diálogo. Chego ao Brasil em 1993 e, nessa época, queria pensar a América Latina como um todo, em diálogo com o Brasil. Eu não sabia muito sobre o Brasil, então eu não tinha a mínima possibilidade de fazer isso sem escutar”, relembra a professora.
Rojo é uma das principais estudiosas do teatro latino-americano, e seus livros são presença constante em listas de leituras em vestibulares e programas de pós-graduação. Recentemente, ela introduziu no Brasil obras inéditas de alguns dos dramaturgos mais galardoados do teatro contemporâneo, como Guillermo Calderón, Santiago Loza e Isidora Stevenson. Sua atuação abrange responsabilidades que vão desde a tradução até a direção e publicação desses trabalhos. Ademais, seus mais recentes livros teóricos exploram a obra de dois proeminentes nomes da literatura chilena: Pablo Neruda e Roberto Bolaño, dedicando-se à análise das imagens teatrais e cinematográficas que envolvem esses cânones. “É muito estranha essa sensação de ser estrangeira no Brasil. Para os brasileiros, eu não sou daqui, mas, para os chilenos, hoje em dia, eu não sou de lá. É como se estivesse no meio de uma ponte. Eu faço minhas obras a partir dessa ponte. A relação que estabeleço com as coisas é a partir desse lugar em que não sou completamente nem uma nem outra coisa”, relata Rojo.
Ao longo da entrevista, Kalil provoca Rojo ao mencionar o ensaio As pequenas balconistas vão ao cinema, de Siegfried Kracauer, no qual ele diz que a classe trabalhadora vai ao cinema ver os filmes que confirmam a ideologia dominante, enquanto os intelectuais burgueses vão ver os filmes experimentais que questionam a ideologia dominante. Rojo, refletindo sobre sua história, que se distingue justamente pelo teatro de caráter político, expressou que ocupa na sociedade a posição de uma intelectual, educadora e artista. “Existe um relacionamento entre arte e teoria e isso tem a ver com isso que falei: é impossível, pelo menos dentro da minha perspectiva, olhar somente para um lado”, destaca a pesquisadora.
Segundo suas palavras, essa interconexão é crucial, e ela percebe que não se trata apenas do teatro, mas de toda a arte.
“A arte comunica ou, pelo menos, o sentido da arte deveria ser comunicar. A literatura, o teatro, a fotografia, o cinema comunicam. Por isso, eu acho que o artista tem que refletir sobre o que ele quer comunicar. Não pode ser ‘eu vou fazer isso lindo!’; isso é muito pouco. Eu tenho que saber o quero comunicar com esse lindo, com esse feio. A leitura do fato é uma leitura que surge a partir de uma ideologia, de um pensamento, de uma perspectiva, de um lugar de enunciação. Quando você tem a possibilidade de cruzar esses dois elementos – e na arte você tem essa mágica –, você atinge o espectador a partir de uma questão afetiva e de uma questão macro”, conclui.
Em suma, a coleção Arte & Teoria destaca nas obras de Medeiros, Martins e Rojo a constante disposição para investigação e a rejeição da ideia de que o pensamento está definitivamente “resolvido”. Cada uma dessas personalidades, de maneira única, dedicou-se por longos períodos à criação, sempre em busca de sendas originais. “Abrir espaço no próprio pensamento abre espaço no pensamento de modo geral. Eu gosto de artistas e teóricos que não têm medo de tentar e investigar novos modos de pensar e ser no mundo”, reflete Kalil.