“Não nascemos leitores, nem tampouco não leitores. Tornamo-nos leitores ou não, em função das experiências motivadoras ou das experiências desmotivadoras que vivemos, ao longo da nossa vida”. Este é o trecho de abertura do artigo “Formar leitores no Ensino Básico: a mais-valia da implementação de um Clube de Leitura”, de Fernando Azevedo e Jorge Marins, da Universidade do Minho, em Portugal.
Através de uma pesquisa na qual os alunos de diferentes salas de aula do Agrupamento de Escolas de Vila Verde (distrito de Braga) passaram a frequentar clubes de leitura, os pesquisadores buscavam entender se a atividade coletiva faria os jovens se interessarem pelo hábito de ler. A conclusão não tardou em mostrar que, através da participação, os estudantes se engajaram de maneira mais profunda com obras literárias, conversaram sobre livros e outros alunos passaram a ter vontade de criarem seus próprios coletivos.
A experimentação de Azevedo e Marins foi realizada entre os anos de 2007 e 2008. Hoje, 17 anos depois, o estudo provavelmente está desatualizado, mas ainda serve como bússola para entender mais sobre o atual fenômeno dos clubes do livro.
Também chamado de “clube de leitura”, o clube do livro como se conhece hoje é basicamente um grupo de pessoas que combina ler determinada obra e, após a leitura, dialogam sobre suas opiniões, pensamentos e sensações. Cada coletivo estabelece seus próprios prazos, regras e critérios de escolha das obras, mas segue o mesmo modelo.
O passado
Pode-se explicar o boom dos clubes de leitura a partir do período de isolamento causado pela pandemia de Covid-19, quando, justamente por estarem sozinhas, as pessoas buscaram novas formas de se conectarem pela internet e aproveitarem para compartilhar hobbies e experiências. Sessões de cinema virtuais, jogos online e as redes sociais como um todo foram muito frequentadas. Mesmo quando o isolamento acabou, grupos virtuais passaram a se estabelecer presencialmente e algumas práticas adquiridas naquele período seguiram entre as pessoas.
Uma coisa é certa: os clubes de livro não surgiram tão recentemente. É possível identificar rastros do que hoje constituem os clubes. Na Grécia Antiga, por exemplo, era hábito comum que os cidadãos se reunissem em praça pública para conversar sobre política, filosofia e cultura. Em Roma, ainda na Antiguidade, reuniões chamadas de recitatios consistiam na leitura de livros para o público.
A criação da prensa de tipos móveis para impressão pelo inventor alemão Johannes Gutenberg, em meados do século XV, revolucionou a relação do ser humano com os livros. Anteriormente reproduzidos um a um por copistas, os volumes passaram a ser feitos em larga escala, disseminando o conhecimento de forma mais rápida.
Nó século XVIII, os ideais iluministas transformavam a Europa e o conhecimento se tornava peça central da sociedade como nunca visto antes. Pouco a pouco, com a chegada da Idade Moderna, o surgimento de livrarias e editores e a disseminação de gráficas, os livros se tornam bens de consumo comuns às pessoas letradas, assim como a leitura passa a fazer parte da vida privada.
Ao longo do tempo, a atividade de leitura em conjunto se transformou, ganhou novos caminhos e formas, sendo uma prática comum, por exemplo, em lançamentos de livros na Europa, Estados Unidos e Canadá, com a presença do autor, que lê a sua obra e participa de sessões de autógrafos. Já mais perto da realidade atual de clubes de leitura, a apresentadora norte-americana Oprah Winfrey lançou, em 1996, o Oprah’s Book Club em seu programa televisivo. A cada mês Winfrey recomendava um novo livro e tornava-o assunto central de debate, muitas vezes até recebendo os próprios escritores.
Sucesso absoluto, as obras escolhidas pela apresentadora escalavam as listas de mais vendidos e algumas chegaram a se tornar tão populares, que foram adaptadas para filmes. Obras como Nas profundezas do mar sem fim, O leitor e O amor em tempos de cólera foram parar nas telonas após serem lidos e discutidos no Clube do Livro da Oprah. E também, é claro, comprados.
Hoje o Clube do Livro da Oprah funciona através das redes sociais e não possui a mesma influência de antes, mas foi essencial para popularizar a forma de ler em conjunto. A cantora Dua Lipa e as atrizes Reese Witherspoon, Emma Watson e Emma Roberts são apenas alguns exemplos de celebridades hollywoodianas que possuem clubes de leitura.
Para Clarice Freire, escritora e doutoranda em Ciências da Linguagem, a pandemia foi um período de grande destaque para os grupos. “Em um momento em que as pessoas estavam muito isoladas, os clubes estimularam o hábito da leitura, então muitas pessoas que estavam com dificuldade de concentração, de ter de volta o hábito da leitura, quando entram no clube, começam a recuperar esse hábito”, afirmou à revista Pernambuco.
O presente
No Brasil, figuras públicas também possuem os próprios clubes do livro. A atriz Sophia Abrahão lançou o “Clube do livro SA”, Gabriela Prioli e Leandro Karnal também criaram um clube, no qual discutem as obras em parceria, e, até mesmo, o influenciador Felipe Neto – que ironicamente ficou conhecido na Internet através de um vídeo falando mal da adaptação cinematográfica do livro juvenil Crepúsculo – entrou na onda.
O clube de Felipe foi lançado em julho de 2024 e o primeiro livro escolhido para a leitura foi o clássico Fahrenheit 451, que subiu para a lista de mais vendidos da Amazon. O Clube do Livro FN funcionava de maneira pagante e além da leitura coletiva, os assinantes tinham acesso a conteúdos extras de professores e especialistas. Em setembro de 2025, porém, os participantes foram surpreendidos com o fechamento do clube. O influenciador não se alongou no assunto, mas os jornais que anunciaram a notícia explicam que a falta de rentabilidade foi uma das razões para a dissolução do clube.
Lucas Barros também é influenciador, mas diferente de Felipe, construiu sua plataforma nas redes sociais falando sobre literatura. No mesmo mês em que o clube FN acabou, Lucas lançou o “Tô lendo Brasil”, clube de leitura dedicado a obras contemporâneas de todos os estados brasileiros. Para participar, o leitor precisa apoiar o projeto na plataforma de financiamento coletivo Catarse com assinaturas que começam em R$ 20. Além dos encontros online para discussões sobre o livro do mês, o influenciador também oferece reuniões presenciais no Recife, newsletters e participação em um canal de discussão, via Whatsapp.
“É uma responsabilidade, principalmente porque a galera tá tendo um investimento, então existe a questão da cobrança e eu preciso estar atento. O que mais pesa para mim é a responsabilidade na curadoria dos livros escolhidos. Os dois primeiros foram obras que eu já havia lido, mas a partir do terceiro, eu vou ler junto com eles (assinantes), estamos desbravando juntos”, contou Lucas sobre a responsabilidade de criar e administrar o seu clube.
O “Tô lendo Brasil” tem como intenção ler, a cada mês, uma obra escrita por um autor de um estado do país e foi justamente o livro de Clarice Freire, Para não acabar tão cedo, que representou Pernambuco, o primeiro estado da lista. A escritora fez parte do encontro do clube e pôde ouvir de perto as impressões e sensações dos leitores.
“Acho que cada vez que eu vou a um clube do livro, é como se eu lesse meu livro diferente do que escrevi. É como se eu conhecesse um livro novo, por mais que seja o meu próprio livro. Porque o leitor, quando lê, escreve outro livro”, conta Freire.
Para além da possibilidade de receber feedbacks da forma mais direta possível, ter o seu livro escolhido para a leitura também significa uma divulgação do seu trabalho como escritor. Isso porque é claro que cada clube tem sua curadoria própria de livros, que podem ser de autores do mundo todo e que até já faleceram, mas também existem aqueles clubes que priorizam autores nacionais e contemporâneos. O “Tô lendo Brasil” é um exemplo disso.
Pode parecer pouca coisa um clube com 10, 15 ou 20 pessoas, que decidem ler um livro ao mesmo tempo, mas, na realidade atual do mundo literário brasileiro, isso faz a diferença. Especialmente, para autores que estão iniciando a carreira. Ao ser selecionado, o livro sai das livrarias ou do online e vão parar nas mãos dos leitores. Ainda que nem todos os participantes comprem, talvez um poste uma foto no Instagram, outro comente com um amigo, outro decida presentear a obra… Tudo isso faz o livro circular.
De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, realizada pelo Instituto Pró-livro, 53% dos brasileiros são “não leitores” – o que significa que essa parcela da população não leu nenhum livro ou parte de um livro nos três meses anteriores a responderem à pesquisa. Foi a primeira vez que os “não leitores” superaram o número de leitores e, justamente, diante dessa realidade, a divulgação através dos clubes do livro se torna um grande aliada.
Clarice Freire explicou que os clubes “arejam o caminho do livro, fazendo com que ele esteja sempre voltando ao lugar de vida, de discussão. Um livro sempre vai encontrar novos leitores e isso amplia muito a circulação e consequentemente, as vendas. É uma movimentação intensa. Os participantes dos clubes de leitura são apaixonados e comprometidos”.
A paixão é justamente o combustível que faz Gleyce, Rhuana e Ecilda mediarem o clube Leia Mulheres Recife. Fundado em São Paulo há 10 anos e com a ideia central de divulgar a literatura escrita por mulheres, o projeto Leia Mulheres se espalhou por diversas cidades brasileiras e chegou ao Recife ainda em 2015.
“Em outros grupos de leitura existe uma amplitude, mas no caso do Leia a gente realmente tem essa coisa do fomento à leitura de mulheres, então tentamos fazer uma curadoria bem cuidadosa, pensando em furar a bolha literária, não ficar só nos clichês, oferecer uma diversidade de gêneros e de região das autoras”, explica Gleyce. No caso da versão recifense do clube, ao menos um livro lido durante o ano é escrito por uma pernambucana.
De acordo com Rhuana, o clube Leia Mulheres atua como uma forma de defesa da escrita pela mulher e de que as mulheres podem escrever sobre o que bem entenderem. “Durante muito tempo, a gente teve acesso à literatura escrita por homens. Principalmente, homens dentro daquele padrão de dominação: brancos, héteros e com dinheiro. É claro que existem exceções, mas a gente ouvia falar sobre as mulheres a partir do ponto de vista desses homens e é importante termos acesso a mulheres falando sobre elas mesmas e sobre o que elas quiserem. A mulher pode escrever sobre aborto, sobre estupro, sobre assédio, coisas que fazem parte das dores da mulher na sociedade e que são extremamente válidas, porque já ouvimos falar sobre tudo isso a partir do ponto de vista masculino. Mas as mulheres precisam poder falar sobre o que elas quiserem falar. Isso faz o nosso leque de percepções do mundo ser maior”.
O futuro
Assim como o livro se transformou durante os anos, é mais do que esperado que as formas de consumir histórias também se alterem com o passar do tempo. Se hoje os clubes de leitura são opções para quem deseja ler e debater sobre as obras, não é possível prever se isso vai seguir no futuro.
“É algo que só cresce, como se estivesse se firmando como parte da cultura de um tempo. Eu não sei por quanto tempo, não tenho como fazer previsões, mas existe uma tal ‘sociedade do cansaço’ e o livro traz justamente esse lugar de contemplação, que está sendo roubado de nós”, relata Clarice Freire. Para ela, o ato de ir a um clube de leitura em busca de transformar uma atividade solitária em algo coletivo, é uma característica positiva entre os leitores.
Em dezembro de 2025 o clube “Tô lendo Brasil”, criado e administrado por Lucas Barros, contava com 60 participantes inscritos e, apesar de nem todos estarem presentes em todos os encontros, representam 60 brasileiros que escolheram pagar ao menos R$ 20 para realizar uma leitura e discutir uma obra em conjunto. Trabalhando como um incentivador da literatura a anos, Lucas se orgulha da comunidade de pessoas interessadas em ler, mas adverte: “Se formos ver os clubes como algo que vai movimentar o mercado, eu não acho que está se encaminhando para isso, mas acredito que vai ser algo que vai permanecer para a galera que faz por paixão”, diz Lucas.
No clube Leia Mulheres Recife, o cenário é relativamente similar: um número entre 20 e 40 pessoas costumam frequentar as reuniões presenciais, enquanto uma média de 7 mil pessoas seguem a página no Instagram. Em 2025, o Leia Mulheres completou 10 anos e continua crescendo.
“Com tantos estímulos rasos, que não se aprofundam, o livro traz o oposto: o silêncio, a solidão, o recolhimento. E depois disso eu discuto a leitura, não deixo isso passar. Eu retenho o máximo possível daquela experiência, que é de solidão, mas que se torna compartilhada. Eu acredito que o clube de leitura vem como uma força para que as pessoas consigam sair desse afogamento. Você segura na mão de outras pessoas”, afirma Clarice.