Vera Íris lança "Aristóteles no Mundo Digital"

Jornalista propõe um encontro improvável, mas fecundo: a reflexão clássica de Aristóteles aplicada ao universo veloz e fragmentado da comunicação digital da comunicação digital.

 Em vez de tratar Aristóteles como figura distante da Antiguidade, Paternostro o apresenta como um pensador surpreendentemente atual, capaz de iluminar problemas da cultura digital
Em vez de tratar Aristóteles como figura distante da Antiguidade, Paternostro o apresenta como um pensador surpreendentemente atual, capaz de iluminar problemas da cultura digital

Quando perguntam à jornalista e escritora Vera Íris Paternostro sobre o que o filme “O Agente Secreto” e as teorias do filósofo Aristóteles têm em comum, ela não titubeia: “Prólogo, episódio e êxodo, peripécias e catarse!”. Essa relação fica clara durante a leitura do mais novo livro da autora, chamado Aristóteles no Mundo Digital, que será lançado no Recife, horas antes da cerimônia de premiação do Oscar 2026, neste domingo, 15, na Livraria Jaqueira do Cais da Alfândega, no Bairro do Recife.

A cidade estará na expectativa para comemorar as estatuetas que o filme do pernambucano Kléber Mendonça Filho poderá receber, mas antes, às 15h30,  participar de um bate-papo com a autora. Paternostro vai conversar com a jornalista recifense, Wanessa Andrade, e apontar caminhos para que as histórias contemporâneas, contadas em narrativas digitais, sejam atraentes, consistentes e memoráveis – se tornem necessárias e relevantes. 

 Para a autora, o que faz uma história como a de “O Agente Secreto” prender a atenção, mobilizar e envolver o público não é somente o formato, mas principalmente o fato de a narrativa estar estruturada a partir dos fundamentos descritos por Aristóteles. Portanto, nada é mais determinante para o sucesso de uma obra, independentemente da tecnologia, do que possuir elementos essenciais e milenares, como enredo, unidade de ação, começo, meio e fim, pontos de virada, clímax e emoção, entre outros.

 “Por terem essa relevância, certamente se encontram no premiadíssimo filme do Kleber, mesmo que a linguagem cinematográfica seja moderna, fragmentada, misture suspense, espionagem, crítica social, subverta expectativas na abordagem de como um país lida com a própria memória e que, por isso e muito mais, torna a história sobre o protagonista Marcelo, ambientada no Recife, em 1977, digna de distinção, tendo recebido, até agora, mais de 60 prêmios.”, destacou Vera Íris.

Retorno há dois mil anos

Entre algoritmos, redes sociais e fluxos incessantes de informação, a comunicação contemporânea parece ter rompido definitivamente com o passado. No entanto, é justamente para trás — há mais de dois mil anos — que Vera Íris Paternostro  propõe um encontro improvável, mas fecundo: a reflexão clássica do filósofo grego Aristóteles aplicada ao universo veloz e fragmentado da comunicação digital.

O ponto de partida do livro é simples e ao mesmo tempo provocador: apesar das transformações tecnológicas que alteraram radicalmente os meios de circulação da informação, da imprensa ao smartphone, as estruturas fundamentais da narrativa permanecem surpreendentemente estáveis. Aquilo que Aristóteles analisou ao estudar o funcionamento da tragédia grega ainda opera, de formas renovadas, nas histórias que hoje circulam nas redes sociais, no jornalismo online, nos podcasts ou nos vídeos curtos que dominam as plataformas digitais.

A autora revisita, sobretudo, as ideias presentes na Poética, obra em que Aristóteles investigou os mecanismos da narrativa dramática. Ali aparecem conceitos fundamentais como a necessidade de uma história organizada em começo, meio e fim; a importância do conflito para mover a ação; e o papel das reviravoltas e do reconhecimento na construção de uma trama capaz de produzir efeito no público. Para Paternostro, esses princípios — muitas vezes considerados apenas matéria de estudos literários — continuam vivos no coração da comunicação contemporânea.

A tese central do livro é que a tecnologia muda o suporte da narrativa, mas não elimina suas bases estruturais. A forma de contar histórias pode variar — tweets, posts, vídeos, reportagens multimídia —, mas a lógica que sustenta o interesse do público continua ligada à construção de sentido, à progressão dramática e à capacidade de despertar emoção ou identificação. Nesse sentido, o pensamento aristotélico funciona quase como uma gramática profunda da narrativa.

Essa reflexão ganha densidade quando a autora aproxima teoria e prática. Com longa trajetória no jornalismo televisivo e no ensino de comunicação, Paternostro observa como a produção de conteúdo digital muitas vezes privilegia a velocidade em detrimento da construção narrativa. Em um ambiente marcado pela disputa feroz por atenção, o risco é que a informação se fragmente em uma sucessão de estímulos sem encadeamento ou contexto.

O resgate de Aristóteles, portanto, não aparece no livro como nostalgia acadêmica, mas como ferramenta crítica. A autora sugere que compreender os princípios narrativos clássicos pode ajudar profissionais da comunicação a produzir conteúdos mais claros e mais eficazes. Uma reportagem, por exemplo, continua dependendo de elementos dramáticos: personagens, conflitos, tensões e desdobramentos. Mesmo no universo digital, em que a informação é consumida em pequenas doses, o público tende a se envolver mais profundamente com narrativas estruturadas.

Nesse aspecto, o livro dialoga com um fenômeno cultural mais amplo: o renascimento do storytelling como estratégia central de comunicação. Empresas, jornalistas, produtores culturais e criadores de conteúdo recorrem cada vez mais à narrativa para organizar dados, experiências e informações. O que Paternostro demonstra é que essa redescoberta contemporânea, na verdade, reencontra uma tradição muito antiga.

Há também um aspecto pedagógico na obra. A autora escreve pensando sobretudo em estudantes de comunicação e profissionais que lidam com narrativas digitais. O livro funciona, assim, como um guia conceitual que aproxima filosofia clássica e prática jornalística. Em vez de tratar Aristóteles como figura distante da Antiguidade, Paternostro o apresenta como um pensador surpreendentemente atual, capaz de iluminar problemas da cultura digital.

O resultado é um ensaio que atravessa dois tempos históricos: o mundo das tragédias gregas e o ambiente hiperconectado das redes. Entre esses dois extremos, o livro sugere uma continuidade fundamental. A tecnologia transforma as formas de circulação das histórias, mas não substitui a necessidade humana de narrar e compreender o mundo por meio de narrativas.

Nesse sentido, "Aristóteles no Mundo Digital" propõe uma ideia quase paradoxal: quanto mais avançada se torna a tecnologia da comunicação, mais evidente se revela a permanência de princípios narrativos ancestrais. No turbilhão informativo do século XXI, o filósofo grego continua oferecendo uma chave de leitura para compreender por que algumas histórias sobrevivem ao ruído das redes,  e outras simplesmente desaparecem no fluxo interminável de dados.

Aristóles no Mundo Digital - A Comunicação no Século XXI

Vera Íris Paternostro

304 páginas

Editora Actual

Lançamento neste domingo, 15 de março

Livraria Jaqueira

Rua Madre de Deus 110, Auditório

Recife Antigo