"Ninguém obriga Milton Hatoum a falar o que não quer"

Acadêmica Ana Maria Machado exaltou, em discurso de saudação ao novo imortal da ABL, a competência de Hatoum em trabalhar o tempo e a perenidade dentro de suas narrativas

Ana Maria Machado faz a saudação ao novo imortal, Milton Hatoum, em cerimônia na Academia Brasileira de Letras
Ana Maria Machado faz a saudação ao novo imortal, Milton Hatoum, em cerimônia na Academia Brasileira de Letras

Milton Hatoum entrou para a história como o primeiro amazonense na ABL. Em cerimônia realizada no Petit Trianon, no Rio de Janeiro, o escritor tomou posse da cadeira número 6, na Academia Brasileira de Letras (ABL). O evento foi marcado por um diálogo entre gerações e tradições literárias, evidenciado na saudação feita pela acadêmica Ana Maria Machado.

Em seu discurso de recepção, a imortal exaltou a competência de Hatoum em trabalhar o tempo e a perenidade dentro de suas narrativas, posicionando sua obra como um contraponto à pressa e à superficialidade do mundo atual. Reafirmou também a independência e a coerência do novo acadêmico. “Ninguém o força a dizer o que não quer”, disse Ana Maria.

A relação de amizade entre os dois foi ressaltada durante a saudação. Ana Maria Machado foi uma das principais incentivadoras da candidatura de Milton Hatoum, que somente aceitou o convite após uma década.

Durante seu discurso de posse, Hatoum celebrou a pluralidade da literatura nacional. Ele conectou as raízes ancestrais, citando A queda do céu, de Davi Kopenawa, à força das ruas, mencionando a poética urbana dos Racionais MC’s. O novo imortal também rendeu homenagens aos pilares de sua formação literária, como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha.

Um dos momentos mais sensíveis da solenidade foi a lembrança afetuosa de sua primeira professora. Ao refletir sobre a essência da condição humana, Hatoum concluiu: “Não vivemos apenas no real; habitamos também o imaginário, os sonhos, a literatura”. Com essas palavras, ele reafirmou a importância vital da arte e do sonho para tornar a vída viável e suportável.

Leia, a seguir, o discurso de saudação de Ana Maria Machado a Milton Hatoum:

O novo imortal da cadeira 6 da ABL, Milton Hatoum. Foto: Dani Paiva/ABL/Divulgação

Senhor presidente da Academia Brasileiro de Letras, Merval Pereira, demais membros da mesa, todas as autoridades presentes, meu querido Milton Hatoum.

Há alguns meses, quando um jornal paulista me pediu para elaborar uma lista com a indicação dos melhores romances brasileiros do século até agora. Eu não tive dúvida. Logo no início da minha seleção estava dois irmãos de Milton Hatoum, que na ocasião ainda não tinha se candidatado a uma vaga nesta casa de Machado de Assis. É bom lembrar.

E fui levada a essa escolha pela qualidade da obra, não por qualquer eventual parentesco desse romance, com a obra de nosso primeiro presidente ao desenvolver o tema dos conflitos fraternos, tão ricos desde Caim e Abel e Esaú e Jacó, e já explorado várias vezes em textos seminais da Bíblia a nosso Machado de Assis, passando pelo John Steinbeck de A leste do Éden. 

Ao indicar esse título, eu parti apenas da lembrança do forte impacto e do maravilhamento causado em mim pela leitura do livro de Milton Hatoum, quando o descobri. Imediatamente veio uma resposta do jornal, recusando minha escolha. Esclareciam que esse livro não poderia ser incluído na seleção porque havia sido publicado no século anterior, no ano 2000. Confesso que eu levei um susto. Eu não conseguia conceber que uma leitura tão marcante e atual em minha lembrança já estivesse oficialmente relegada ao milênio passado. Muito embora eu tivesse consciência de fixar ainda no século XX a memória do encontro com o romance anterior do autor, a inesquecível revelação e descoberta que foi o belíssimo Relato de um certo oriente. 

Mas logo me dei conta de que é assim mesmo. Eu não devia me surpreender. A força literária do autor e sua lembrança nos leitores permanece viva, atual, presente, mesmo quando os anos passam.

Milton Hatoum realmente tem uma relação muito pessoal com o tempo. Ele flerta com eternidades, invoca perenidades, submerge em águas de permanência.

Por isso, às vezes, chega a causar estranheza numa época como a nossa, que se caracteriza por uma certa preferência por fenômenos passageiros. Milton Hatoum destoa disso e é assim há muito tempo, desde bem antes deste momento agora, o instante em que tenho a alegria de saudá-lo com admiração e carinho, quando chega oficialmente à imortalidade literária ao se tornar membro da Academia Brasileira de Letras, passa a ocupar a cadeira de número seis, preenchendo a vaga deixada pelo saudoso acadêmico Cícero Sandroni. intelectual que foi uma presença vibrante, assídua e ativa entre nós, tendo participado de várias diretorias e exercido a presidência desta casa no biênio 2008-2009.

Evoco outra lembrança e outro exemplo dessa relação do novo acadêmico com o tempo. Em 2015, Milton e eu éramos os dois únicos passageiros em uma van que seguia por uma estrada no Recôncavo Baiano, a caminho do aeroporto de Salvador, vindo da belíssima cidade de Cachoeira. Voltávamos de uma dessas festas literárias que cada vez mais se multiplicam e ramificam pelo interior do Brasil. Inesperadamente, alguém telefonou pro motorista e tivemos de parar no acostamento à espera de algo que viriam entregar a ele.

Em seguida, o motorista saltou e eu me vi sozinha com Milton, sem testemunhas de qualquer conversa indiscreta. Aproveitei, tomei coragem e abordei o romancista com a sugestão de que considerasse a hipótese de se candidatar à Academia Brasileira de Letras.

Eventualmente, quando houvesse uma vaga sem pressa alguma, estávamos voltando de uma homenagem ao imenso escritor e acadêmico João Ubaldo Ribeiro, então recentemente desaparecido. E eu sentia que essa perda dolorosa do meu querido amigo Ubaldo deixava a academia um tanto descoberto na área da grande literatura contemporânea de ficção. Parecia-me que Milton Hatoum tinha todas as qualidades para contribuir para preencher essa lacuna e um dia estar entre nós.

Ouvindo minha sugestão, [limpando a garganta] o ar de espanto dele foi autêntico e inesquecível.

Evidentemente, a hipótese não lhe ocorrera jamais. Ficou sem ter o que dizer, balbuciando desculpas, algumas sem pé nem cabeça, aliás. Mas prometeu pensar no assunto. Pois não é que ele levou dez anos pensando. Só agora em final de 2025 resolveu se candidatar e por isso estamos todos aqui agora a festejá-lo hoje. Acadêmicos e não acadêmicos, os leitores exigentes e sensíveis de todo o Brasil que não nos contentamos com poucos.

Eu não disse que ele tem com o tempo uma relação pessoal e talvez estranha. Ele é um sujeito que não tem pressa, faz com calma o que lhe importa, sabe apreciar a fecunda riqueza dos vagares. Eleito para Academia Brasileira de Letras em agosto, toma posse agora, quase 9 meses depois, toda uma gestação de uma cerimônia sem correrias ou atropelos e percebemos que suas variadas manifestações sobre essas questões temporais, confirma o que eu estou dizendo.

Em recente entrevista, ele revelou que escreve por espasmos, montando fragmentos e anotações no lugar adequado e preciso, naquilo que mentalmente já estruturou. sabe ler com calma, dando aos bons textos o vagar que eles podem e pedem para que eles podem merecer e pedem para poderem ficar a vida toda ao nosso lado. Não é dado a cliques rápidos em redes sociais, numa época em que dedinhos ligeiros parecem ser autônomos em relação aos cérebros e seu eventual sabor e saborear prazeroso ou a fugir de lentas construções de conceitos sólidos e elaborados ou ainda de cuidadosa sedimentação de emoções.

Milton não é daqueles que madrugam para ser os primeiros a conferir o que o grupo de Zap postou e para se antecipar aos outros em respostas apressadas. também não grava mensagens em velocidade acelerada no ímpeto imediato de responder logo e desrespeitar a reflexão exigida pela palavra escrita, por mínimo que seja o período.

E ainda escreve à mão. Essa afirmativa aqui no meu texto está acompanhada de cinco pontos de exclamação, mas eu não sei como dar o tom para isso. Nesse texto que agora eu vos leio. No entanto, e sem nenhuma pressa, ele se dispõe a enfrentar desafios que costumam assustar escritores pelo tempo que exigem. Esse tempo que não desperdiça em bobagem. Ele não tem medo de empreitadas colossais numa escrita, sejam as que exigem a decantação e depuração de uma posterior síntese construída, sejam as que pedem um lento espraiamento antes ou no decorrer do processo, cheio de meandros e vagares.

Aventurou-se, por exemplo, a conceber e executar uma densa trilogia ficcional publicada ao longo de oito anos, mas pensada e escrita em muito mais tempo, intitulada O lugar mais sombrio, sem pressa. Talvez até mesmo o título do primeiro tomo, Noite de espera, lançado em 2017, já fosse premonitório e deixasse transparecer essa disposição. Da mesma forma que o segundo volume, Ponto de fuga, lançado em 2019, fazia recordar ao leitor que a memória registra e assimila a lição da geometria, ou seja, é indispensável garantir uma distância para se poder ter perspectiva e uma visão mais global nesse tranquilo processo, com toda a ambiguidade e polissemia que essas observações minhas aqui sugerem. 

Milton foi deslizando calmamente em meio a seu oceano de acumulações até chegar ao terceiro romance da trilogia Dança de enganos, de 2025. Nos três volumes que compõe, que o que a compõe, vem trazendo esse registro cuidadoso de uma realidade que teima em se mover, reverberar mutante e fazer balancê ao ser lembrada. Milton enfrenta o desafio sem sofreguidão, respeita seus vagares e meandros. No processo, mergulha fundo na memória de uma geração brasileira, tolhida e sacrificada pela ditadura militar entre prisões, desaparecimentos, perseguições, clandestinidade, dilaceramentos de exílio, todo tipo de brutalidade e repressão, evocando dores e perdas. sempre em choque com o melhor do humano, e, com o melhor do humano, os impulsos de liberdade e os sonhos de expressão artística.

Sem correria, os leitores são levados a acompanhá-lo ao longo do tempo histórico evocado nos diferentes cenários geográficos da terra natal, aos variados desterros e desenraizamentos dentro e fora do país. Seja ou não essa mãe pátria identificada a sua personagem sofrida, mãe dolorosa, em permanente luto amoroso pelo filho a que não pode acudir.

E mais uma vez, em outro contexto, constatamos que, de certo modo, os habitantes desta terra encarnamos a sina e a maldição anunciada na potente metáfora que dá título à outra de suas obras-primas. Neste Brasil, em todas as regiões, ao longo de toda a nossa história, todos nós temos sido órfãos do Eldorado.

Seguir os personagens de Milton Hatoum nessa revivência de esperanças e desilusões e uma oportunidade de crescimento para o leitor cúmplice. Simultaneamente, somos levados a uma jornada interior e uma viagem histórica. Um amadurecer no tempo e no espaço, sem mensagens panfletárias óbvias, mas num convite ao preenchimento ativo de lacunas na busca de compreensão. Os leitores somos instigados a recompor sentidos por meio de um fundo mergulho em uma memória coletiva que convoca a reflexão.

O desafio exige fôlego. Acompanhamos uma narração, evocação feita de cartas, notas, fragmentos e aos poucos profundamente envolvidos, vamos criando o sentido em estado de cumplicidade e compomos um universo ficcional feito de questões existenciais levantadas pelas palavras, cujo poder em sua precisão, desce recordações e alimenta a imaginação. 

Se eu convidei os presentes para fazermos uma ligeira incursão pela vivência do tempo por parte de Milton Hatoum, não resisto a registrar também a relação do romancista com o espaço. E nesse campo também começo com a evocação de um testemunho pessoal.

Além do que todos nós podemos constatar na leitura de sua obra e em eventuais entrevistas do autor, eu ocasionalmente tive a oportunidade privilegiada de fazer algumas observações a esse respeito em outro contexto. Moramos em geografias distintas. Não convivo com ele, não vivo a intimidade do convívio amigo na mesma cidade. No entanto, a seu lado, participei de algumas mesas-redondas e entrevistas à imprensa em festas literárias no Brasil e no exterior. E foi lá fora, especialmente na França, observando seu comportamento, que eu aprendi a admirar outro aspecto do nosso novo confrade, algo que configura uma característica também cada vez mais rara e admirável em nossos tempos.

Milton não apenas é um sujeito não deslumbrado, um homem que não se entrega a cliques rápidos em busca de seguidores nas redes sociais, ele também é um intelectual que não se deixa aprisionar pelos estereótipos de imagem que os tempos atuais tentam perspegar aos artistas criadores. Vale destacar e grifar outra raridade. Está grifada aqui no meu texto. Ninguém o força a dizer o que não quer. Só para ficar bem na foto ou no vídeo e poder ocupar o lugar que lhe destinaram previamente a confirmar expectativas superficiais usando a linguagem que deles se esperam. Ter a clareza e a firmeza para conseguir manter essa postura com elegância. É em nossos dias uma qualidade raríssima de que poucos podem se gabar, porque é mesmo muito difícil e desafiador.

Bem podem imaginar como algumas vezes a mídia fica de água na boca nesses casos, sobretudo no exterior, diante da possibilidade de poder amplificar uma citação bombástica, entre aspas, trazendo às manchetes chamadas ou aos holofotes, uma frase em primeira pessoa de um autor vindo diretamente do Amazonas, fluente em idioma estrangeiro ficam à espera de saborear esse pitéu. prontos para aplaudir um discurso reivindicativo e previsível, cheio de chavões, em nome do que se imagina a ser um bando de pobres coitados de Labá no cenário do já pronto, de um todo pretensamente conhecido, repleto dos slogans e das palavras de ordem do momento. Mais de uma vez eu assisti a esse miniespectáculo. Jornalistas bem-intencionados ou coordenadores de mesas paternalistas esperam dar voz a uma espécie de bicho exótico, com a chance de passar a palavra a um autêntico representante oficial amazônico diretamente egresso da exuberante e sufocante mata equatorial, com autoridade biográfica para pontificar em nome do inferno verde, da natureza tropical e dos povos da floresta. Insistem e se enganam. 

Eu pude então apreciar como Milton se esgueira, surpreende, dribla o convite ao show de slogans e a mesmice enfática e causa um certo espanto, levando inesperadamente à reflexão. Simpaticamente, ele responde com calma e paciência e surpreende o interlocutor. não deixa de responder tratando do problema levantado, mas leva a plateia a sair da superfície do já visto e esperado. convida a mergulhar em águas mais profundas, com elegância, firmeza e uma pontaria que acerta no alvo, mas surpreende ao chegar lá vindo por outro lado e revelar causas e relações insuspeitadas e desconfortáveis, desvelando problemas que vão muito além de uma denúncia superficial e comodamente instalada, meramente repetidora.

Invariavelmente nesses casos, Milton Hatoum oferece uma análise sutil, cheia de camadas inteligentes, sofisticadas e corajosas, relacionando pontos distintos numa argumentação bem-informada que ilumina nuances até então impensadas pelo entrevistador. Ele não foge do tema, mas ele se recusa a ser porta-voz não nomeado de estereótipos alheios. É admirável. 

Mais de uma vez me deliciei com esse espetáculo inesperado, dos quais pode brotar para os ouvintes mais sensíveis o germe de uma compreensão bem mais aguda e inteligente, mais aproximada de nossas ricas complexidades, nossas porosidades socioculturais. Uma voz numa voz que nasce diretamente desse nosso surpreendente amálgama gerado por uma história complexa e fértil, irredutível a rótulos, irredutível a modelos simplificados ou diagnósticos prévios.

Da mesma forma, a partir de sua vivência pessoal e familiar, da riqueza e variedade da cultura árabe e da e da imigração, é capaz de falar da Palestina e do Oriente Médio, com profunda compreensão e empatia, com a indignação amorosa e necessária, mas sem chavões redutores, com a indignação e densidade de abordagem que caracterizavam, por exemplo, Edward Said, intelectual que nos faz tanta falta e com quem Milton Hatoum tem mais pontos de contato do que pode fazer supor a simples e vã aparência. Até mesmo traduziu representações do intelectual de Said. 

Não é de espantar. Trata-se de uma demonstração exata da coerência e sobriedade que Milton Hatoum mantém em sua obra narrativa, sem manipulação do leitor, sem qualquer recurso a fórmulas simplificadoras ou oportunismo seletivo em busca de aplausos ligeiros. Uma raridade. Repito, essa é uma das marcas que destaca Milton Hatoum na narrativa contemporânea, como um exemplo de quem sabe e leva nas veias uma verdade tantas vezes esquecida, a de que romance é uma arte da paciência, como ele gosta de dizer, tanto para quem escreve como para quem lê. 

Em outras palavras, Milton Hatoum não usa a literatura para fazer denúncia ou exigir reparação. Sabe que ela tem o dom de manter o real eternamente vivo e que a memória é a mãe das musas, inclusive de Calíope, a musa da palavra literária, a mais sábia dessa linhagem de Zeus. 

Estamos recebendo hoje aqui um ficcionista que se instala num território híbrido da história e morredora e imaginação fecunda, em que floresce a linguagem narrativa, descendente dos relatos orais e, ao mesmo tempo, da melhor tradição literária, para compor um fluxo de linguagem ambíguo e enigmático. Por vezes pode ser ricamente contraditório, por vezes reiterativo num texto generoso em que arquétipos são revisitados e corrigidos, refratados, decompostos em todos os matizes de sua coloração. E por isso, sua escrita configura uma aposta na cumplicidade inteligente entre quem cria com palavras e quem recebe essa criação com generosidade, assim se capacitando a recriar e imaginar um mundo e seus submundos.

Visto nesse amplo contexto, não consigo deixar de fazer uma observação mais no âmbito biográfico sobre nosso novo acadêmico. Muito embora eu tenha me proposto não enveredar muito pelo lado de sua história de vida, é o lado mais conhecido dele. Sua origem, uma família de libaneses fixada no Amazonas, convivendo com outras colônias de migrantes, vindas de regiões originárias vizinhas lá longe, entre África e Ásia, o tal certo Oriente, capaz de englobar cristãos maronitas, muçulmanos e judeus, e de trazer suas crianças para brincar no porto fluvial ou tomar banho de rio ao lado das meninas e meninos oriundos de populações autóctones e mestiças. de povos originários ou de povos trazidos de longe à força para serem escravizados.

Todos sabemos, e não vou repetir, que tudo isso está presente e vivo nele. Basta observar as nítidas raízes de sua obra, nas vivências de sua infância, numa Manaus ainda bucólica, diante da Zona Franca e do progresso enganador e espertalhão que acentuou a miséria, as desigualdades e as injustiças da cidade. Também não vou me deter na sua relevante formação acadêmica, na sofisticação de suas leituras, nem mesmo em suas eventuais influências formadoras.

Tudo isso tem sido recentemente explorado da exaustão nas inúmeras matérias da mídia sobre Milton Hatoum, a propósito de sua recente eleição para a ABL e do lançamento do último volume da trilogia. Está vivo em nossa memória imediata. Mas há um aspecto da formação de Milton Hatoum que eu quero destacar por me parecer muito relevante e nem sempre devidamente valorizado. Fala-se muito na poesia de João Cabral ou de Joaquim Cardozo como obra literária de engenheiro, engenheiro, mas nem sempre se destaca com a mesma atenção o papel da arquitetura na gênese da obra de Milton Hatoum. Em minha opinião, ela exerce um papel fundamental na construção de seus romances, ainda que discreto e sem exibicionismo, com tudo o que o caracteriza. Salta à vista sua formação de arquiteto para um leitor atento. 

Ao leitor mais atento de sua ficção, fica evidente que não se está diante de um criador de escrita automática espontânea que se deixa levar pelo improviso na composição do texto. Romance de Milton Hatoum tem estrutura sólida e bem arquitetada que o mantém de pé sobre fundações firmes e me arrisco a dizer que deve ter uma espécie de planta baixa, cortes transversais e minucioso estudo da distribuição elétrica e hidráulica que permitirão que o edifício todo funcione contento, que a ventilação e a circulação se façam naturalmente e que as escadas permitam que os moradores circulem por elas sem esforço e insegurança, com degraus generosos na extensão e próximos uns dos outros na altura, como das grandes escalinatas renascentistas italianas. Tudo se sustenta, nada fica ao acaso. 

Em outras palavras, a leitura da obra de Milton Hatoum não é um divertido consumo de conteúdo. Interessante e atraente, mas uma experiência mais interessante e atraente, mas é uma experiência artística no domínio da criação. Sim, ela se quer e exige ser uma criação conjunta, exige parceria do leitor. Estamos diante de um autor fecundo, cuja excelência literária vai se completar e frutificar no processo criador de uma leitura inteligente, graças ao potencial que oferece em seu valor estético.

Nele, o que importa é como se dispõe nessa sólida estrutura uma linguagem capaz de acionar memória e imaginação sobre o tecido da observação do real. Esse mecanismo, memória, imaginação e observação, esse mecanismo convida o leitor a sentir e pensar e refletir e dar sentido a questões históricas e problemas existenciais, a fazer o rico percurso que a literatura é capaz de oferecer, não por transportar mensagens diretas. Afinal, como lembrava Antônio Cândido, o que caracteriza a literatura é justamente não usar a linguagem como um meio de transporte, mas ela se define por fazer pensar e viver experiências não vividas, que são apenas fictícias, isto é, fins vidas, mas que se impõe com força de realidade, graças ao poder da palavra literária.

No entanto, nada nessa forma bem cuidada e instigante leva a obra de Milton Hatoum a desvalorizar o conteúdo ou a deixar a emoção em segundo plano. Vestido pela linguagem em seu melhor uso literário, o enredo avança, surpreende, sugere e rompe em mistérios e surpresas. Arrebata. Enquanto isso, vai ao mesmo tempo retratando paisagens físicas e humanas que nos transportam por cenários vivos, com exatidão cuidadosa, até de nomes de ruas e distâncias plausíveis dentro da ação, seja em Manaus ou Paris, em Brasília, Ouro Preto ou São Paulo, e compõe personagens instigantes e inesquecíveis em relações complexas e surpreendentes, em termos da velha e sempre útil de extensão básica que a crítica anglo-saxônica ensinou a fazer ao analisar a arte narrativa.

Poderíamos dizer que Milton Hatoum vai muito além de se limitar ao mero ato de contar. Ele mostra com tal verdade e tão bem iluminado que revela ao leitor aquilo que às vezes teimava em ficar escondido. Daí que vai além do próprio ato de mostrar, mas consegue recriar e completa a observação do mestre Antônio Cândido quando dizia que não usa, ele não usa linguagem, no caso ele não usa linguagem para transportar mensagens, mas acaba transportando o leitor.

Por tudo isso e muito mais, esse romancista amazonense é unanimemente reconhecido pela crítica exigente como um dos grandes ficcionistas em atividade em nossa literatura hoje. Não poderia deixar de estar entre nós na Academia Brasileira de Letras, ocupando um lugar que conquistou por direito. E é com alegria que esta cerimônia o consagra e com orgulho por tê-lo aqui, que nós o recebemos de braços abertos. Seja muito bem-vindo, Milton Hatoum, e faça muito bom uso da cadeira número se essa responsabilidade agora é sua. Com nosso carinho.