Poucos autores contemporâneos construíram uma obra tão marcada pela memória, pelas raízes e pela força silenciosa das famílias quanto Milton Hatoum. Nascido em Manaus, em 1952, filho de imigrantes libaneses, o escritor transformou a pluralidade cultural amazônica e as tensões políticas brasileiras em matéria literária de rara densidade.
Sua prosa tornou-se uma espécie de cartografia sentimental da Amazônia urbana. Centrada especialmente em Manaus, sua escrita deu visibilidade e voz própria aos amazonenses, assim como Érico Veríssimo fez com os gaúchos; Jorge Amado com os baianos; Guimarães Rosa com os mineiros; José Lins do Rêgo com os paraibanos; Graciliano Ramos com os alagoanos e Gilberto Freyre com os pernambucanos.
Graças à Hatoum, às suas sagas familiares, ao entrelaçamento de culturas, ao registro da miséria e da vida que pulsa nas ruas e becos de Manaus, e dos que chegam à cidade para habitá-la, a Amazônia hoje tem voz e rosto – suas contradições, a vivacidade e decadência locais, as personagens, a homogênea mistura de um Brasil mais mestiço do que qualquer outro, antes somente entrevisto, agora deram aos amanuenses, imigrantes ou nativos, uma silhueta definida.
A força e riqueza desse trabalho fizeram com que Milton Hatoum fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em agosto de 2025. Uma escolha comemorada pelo mundo literário. Sua posse está prevista para este semestre. A data sugerida por ele à Academia – 24 de abril –, ainda não foi confirmada. Mas o discurso já está esboçado: será dedicado a Machado de Assis, e ao romance Esaú e Jacó, que serviu como fonte de inspiração para o livro Dois Irmãos, um dos mais celebrados de Hatoum.
Com três décadas e meia de trabalho literário, Hatoum sentiu-se honrado com a indicação. Mas o posto naturalmente lhe cabia. Desde o livro de estreia Relato de um certo Oriente (1989), que ganhou o Prêmio Jabuti na categoria romance, o autor mostra sua habilidade em entrelaçar memórias individuais e coletivas. A primeira obra já anunciava as linhas mestras de sua escrita: memória fragmentada, laços familiares dilacerados e a Amazônia como território simbólico.
Em Dois irmãos (2000), talvez seu livro mais celebrado, o ambiente familiar se torna metáfora de um país fraturado. A rivalidade entre Omar e Yaqub, conduzida pela matriarca Zana, opera como microcosmo para compreender os afetos e violências que atravessam a história recente do Brasil.
A diáspora árabe, o cosmopolitismo amazônico e a sensação de deslocamento são pontos constantemente abordados em seus romances. São o cerne de Cinzas do Norte (2005), prêmio Livro do Ano do Jabuti e que consolidou Hatoum entre os grandes autores de sua geração. O personagem Mundo (Raimundo), artista rebelde em constante ebulição, encarna um Brasil que tenta resistir às amarras autoritárias e, ao mesmo tempo, cria novas formas de arte, política e afeto.
“Saí muito jovem de Manaus: aos 15 anos fui morar sozinho em Brasília, e essa separação foi decisiva para mim. Talvez por isso as narradoras e os narradores dos romances sejam personagens deslocados, fora de seu lugar de origem, à margem da família. Esses narradores sentem algum tipo de orfandade, ou são, de fato, órfãos. O único poder que eles e elas têm é contar suas histórias. Narram não apenas para sobreviver, mas também para trazer a memória ao tempo presente.”, explicou Hatoum à Pernambuco.
Em sua trilogia O lugar mais sombrio, iniciada com A noite da espera (2017) e seguida por Pontos de Fuga (2019) e Dança de Enganos (2025), Hatoum abandona a Manaus de sua juventude e mergulha na atmosfera opressiva da ditadura militar. A trajetória de Martim, que atravessa Brasília, São Paulo e Paris, funciona como um amplo painel sobre a violência política e sobre a formação de uma geração marcada pelo exílio.
“O maior desafio (da trilogia) foi dar forma à relação entre a vida das personagens e o contexto político e histórico. Me refiro à relação entre o particular e o geral, com suas contradições e impasses. Foi um projeto ambicioso, mas nada pretensioso”, comentou o autor.
Longe de experimentalismos radicais, Hatoum se destaca por uma escrita de artesão: frases sólidas, atmosferas densas, personagens que carregam os fantasmas da memória. Sua literatura é mais sensorial do que espetacular; mais íntima do que ruidosa. Ao mesmo tempo, sua obra toca em questões universais – identidade, deslocamento, violência, pertencimento – sem renunciar ao seu território afetivo.
Num momento em que o debate público se torna raso e confuso, sua obra oferece o contrário: profundidade e nuance. Seus romances lembram que a memória é sempre disputa, que o pertencimento é frágil e que a história brasileira precisa ser narrada a partir de múltiplas vozes. Inclusive as que costumamos ignorar. Na entrevista que o autor concedeu à Pernambuco, ele fala sobre suas inspirações, motivações, influências e amor pela literatura.
O senhor está prestes a tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Como encara essa indicação? Pretende desenvolver algum projeto a partir da sua cadeira na ABL?
Fiquei contente e me senti honrado por ocupar uma cadeira na ABL. Não deixa de ser uma forma de reconhecimento à minha atividade de escritor, mas é principalmente uma homenagem aos meus leitores e aos professores e às professoras de literatura. Vou fazer o que tenho feito há mais de 30 anos: dar palestras em escolas, universidades e, a partir de maio de 2026, na Academia. Pretendo também publicar artigos e ensaios na Revista Brasileira, editada pela ABL.
Já tem data prevista para a posse?
A data que sugeri ao presidente da ABL é 24 de abril de 2026.
Sua literatura nasce de Manaus, mas alcança o mundo. Como enxerga a relação entre o local e o universal em sua obra?
Essa relação resulta da forma da narrativa: como a linguagem constrói as personagens, os conflitos entre elas, o arco temporal, os espaços simbólicos, quadro histórico, a subjetividade, a posição e dicção dos narradores também são muito importantes. O desafio é transformar a experiência de vida e de leitura em linguagem ficcional.
Muitos dos seus personagens vivem entre dois mundos – o da origem e o da partida. Que papel o exílio, literal ou simbólico, tem na sua escrita?
A literatura é uma forma de exílio: sair de si mesmo e encontrar na vida de personagens possibilidades de uma nova existência. Qualquer pessoa pode se sentir no exílio em sua própria pátria. Mas o exílio real é um deslocamento compulsório, amargo, com frequência sem volta. No belíssimo ensaio Reflexões sobre o exílio, o pensador palestino-americano Edward Said ressalta a “fratura incurável entre um ser humano e seu lugar de nascimento, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada”. Os imigrantes não sentem o desespero e a angústia dos refugiados e dos banidos de sua terra. Nos meus romances, não há a “tristeza essencial” do exilado; talvez haja um laivo de melancolia dos imigrantes libaneses... Os mais velhos não puderam voltar para rever parentes, amigos e a cidade à beira do Mediterrâneo, onde nasceram e passaram a infância. Saí muito jovem de Manaus: aos 15 anos fui morar sozinho em Brasília, e essa separação foi decisiva para mim. Talvez por isso as narradoras e os narradores dos romances sejam personagens deslocados, fora de seu lugar de origem, à margem da família. Esses narradores sentem algum tipo de orfandade, ou são, de fato, órfãos. O único poder que eles e elas têm é contar suas histórias. Narram não apenas para sobreviver, mas também para trazer a memória ao tempo presente.
Em Relato de um certo Oriente, a cidade de Manaus é quase uma personagem. Como foi reconstruir a Amazônia pela memória e não apenas pela paisagem física?
A maioria dos escritores recorre à memória, musa tutelar da literatura. “Memória é o que sentimos que estamos lembrando”, diz o narrador do romance Meu nome é Adam, do notável escritor libanês Elias Khoury. A memória e a imaginação são irmãs siamesas, elas criam um espaço-tempo interior, subjetivo. As referências do mundo urbano, da geografia e da natureza são inseparáveis dessa subjetividade. Nos meus romances tentei buscar um equilíbrio entre os fatores internos e externos, os sentimentos e as ações das personagens e o quadro histórico, político, geográfico.
Sua descendência libanesa e a experiência amazônica se entrelaçam em seus livros. Como essas duas raízes, a árabe e a manauara, dialogam em sua visão de identidade?
Nem sempre nossas raízes e a nossa identidade são cristalizadas. Usei como epígrafe do Cinzas do Norte duas frases breves do Grande sertão: veredas: “Eu sou donde nasci. Sou de outros lugares”. A ironia é que quase toda a obra ficcional de Guimarães Rosa está ambientada no centro-norte de Minas. Mas o Sertão é o mundo, e esse mundo sertanejo é habitado por mineiros, baianos, goianos, europeus e sírio-libaneses, como a família de Assis Wababa, naquela cena do Curralinho, em que Riobaldo se farta com as “supimpas iguarias” árabes e namora Rosawarda. Nos contos de Rosa há personagens indígenas, negros, caboclos, europeus, chineses... Ser outro e de outros lugares e, ao mesmo tempo, ser do lugar do nascimento e da infância são temas literários, porque são partes constitutivas da condição humana. Nosso pertencimento pode ser difuso, múltiplo, diverso. Nos romances Relato de um certo Oriente e Dois irmãos as personagens imigrantes e amazonenses estão integradas à sociedade manauara. Elas se relacionam entre si, e dessa convivência surgem novas identidades.
A Amazônia que aparece em seus livros não é a do exotismo, mas a da complexidade humana. O senhor busca corrigir um olhar externo e estereotipado sobre a região?
Antes de escrever meu primeiro romance, me vacinei contra o regionalismo raso, em que a paisagem, o pitoresco e a cor local prevalecem sobre os dramas humanos. Cresci numa casa manauara, ao mesmo tempo libanesa e cabocla: uma casa “manauárabe”. A Amazônia e Um certo Oriente podiam formar um perfeito par exótico, e eu quis evitar isso. Olhar externo corre o risco de ser estereotipado; às vezes é superior, para não dizer imperial.
CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA
Venda avulsa na Livraria da Cepe