Em setembro de 1937, João Baptista Tezza tinha 26 anos e era estafeta (carteiro) dos Correios e Telégrafos. Lotado em Lages, região central de Santa Catarina. Gostava de “envernizar” a função dizendo que era “funcionário público federal”.
Não era mentira, mas também não colocava nenhum mirréis a mais em seus parcos vencimentos. O que não o impediu de se hospedar orgulhoso, ambicioso, em um quarto do Hotel Ideal, um dos melhores da cidade, quando se mudou para lá no final do ano anterior.
“Quem me vê me dirá um príncipe”, escreveu em missiva destinada a um primo com quem divide seus feitos e aspirações imediatas e que só sobreviveu (a carta), pois uma cópia dela foi guardada pelo autor em um caderno de capa dura com a data e outros detalhes de envio.
Desde que era ainda um semiletrado soldado do Exército, em Florianópolis, em 1931, J.B. Tezza arquivava toda a sua burocracia particular em fascículos, hábito que manteria até a sua última semana de vida.
Ao primo missivista, fala sobre a agitação política que chega pelo rádio: em menos de dois meses o então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) assumiria poderes autoritários com o golpe do Estado Novo e descreve a paisagem de “praça e igreja” do centro da cidadezinha, que via da janela.
22 anos depois, já professor e advogado, no dia em que comprou e saiu para testar uma lambretta, a motoneta de pneus pequenos e motor escondido, que se pilotava sentado, foi atingido por uma Kombi e morreu aos 48 anos, após bater a cabeça no meio-fio justamente na mesma esquina que descrevera.
Deixou alguns bens, esposa, 26 cadernos escritos e quatro filhos.
O caçula Cristóvão, então com seis anos, foi entre todos quem menos conheceu o pai. Dois anos depois, a família se mudou para Curitiba, onde ele se tornaria um dos mais premiados escritores brasileiros, a partir da década de 1980.
Um livro
Cristóvão Tezza sempre soube da existência dos cadernos do pai no acervo familiar. Chegou a folheá-los, mas se lembrava da experiência de uma leitura aborrecida sobre dívidas ou coisas da caserna.
Os manuscritos e colagens dos cadernos não são um diário de reflexões pessoais com arroubos poéticos, mas, um compilado de certidões, documentos, estudos escolares, fotografias, recortes de jornal e muitas cartas, dedicatórias, telegramas, bilhetes e cartões postais, que o pai recebeu ou enviou.
Anos depois, o filho os definiu como “anotações de um tabelião de si mesmo, mantendo uma compulsão infantil de arquivista”.
Porém, depois de lançar, em 2022, seu romance Beatriz e o Poeta (Todavia) e do arrefecimento dos rigores da pandemia, ele resolveu visitar novamente os cadernos, e percebeu pontos de contato entre a sua vida e a do pai.
Nas primeiras páginas, há o frenesi da mudança, o começo de uma aventura pela qual ambos passaram: o jovem sem futuro chega a uma cidade desconhecida, com um endereço do qual dependerá sua sobrevivência.
Havia um livro por fazer
Depois de cogitar brevemente em ficcionalizar a história, Cristóvão deixou que tomasse forma uma narrativa muito original, quase como uma performance “ao vivo”, a partir da leitura cronológica dos volumes.
Três anos depois, em outubro passado, veio à luz Visita ao pai, primeiro lançamento de Cristóvão pela Companhia das Letras. Aquele que, o próprio autor admite, é seu livro “mais difícil e imprevisível”.
De certa forma, a estrutura é equivalente de alta voltagem literária aos reacts — aqueles vídeos muito populares em plataformas digitais, nos quais as pessoas se gravam reagindo a outros conteúdos.
“Eu fui simplesmente lendo as cartas e escrevendo sobre elas, mantendo um fio biográfico narrativo; a cada momento, senti que as palavras do meu pai puxavam minha cabeça para circunstâncias históricas, ideológicas, sociais, raciais e culturais. Escrevendo, não fugi de nada: desdobrei tudo que ele tocava, com o meu olhar de hoje”, disse.
O pai e o filho
Em Visita ao pai, Cristóvão Tezza calça os sapatos de um investigador do passado — não só o de seu pai, mas do próprio e, principalmente, o do país que se transformava enquanto o pai tentava ganhar dinheiro e cultura para escapar de um destino pobre e ágrafo que sentia lhe ter sido destinado.
Se em O filho eterno (2007) Tezza criou um híbrido entre autobiografia e romance para contar a história de um homem, pai de um menino com síndrome de Down, quando se sentou para escrever sobre o “pai efêmero”, lançou mão de uma forma literária que é mais fácil definir por exclusão.
Não é uma biografia do pai. Não é um estudo ensaístico sobre o Brasil e nem um romance histórico. Não parece com nenhum gênero convencional fechado — embora a sombra da estrutura romanesca esteja sempre presente.
É um daqueles livros em que a travessia definiu a forma, e em que o mais importante é perceber que o “realismo reflexivo”, estilo natural de livros de Cristóvão, foi levado às últimas consequências.
“Não perdi de vista a intenção de manter viva a percepção literária do mundo, que é a matéria de que sou feito desde sempre”, disse.
Com suas 440 páginas, Visita ao pai é uma reflexão corajosa, crítica, terna e audaciosa sobre um pai e um filho que se viram apenas no tempo de uma manhã na história do país. Uma viagem literária, de alma ficcional, no mundo concreto da não ficção.
De perto e de longe
O livro tem dois eixos. Um é o que acontece muito perto, na vida do pai. O outro é o que acontece ao fundo, no convoluto cenário social e histórico do Brasil a partir dos anos 1930.
Nesse pano de fundo se dá a construção de uma classe média urbana emergente, processo que mudaria a face do país nos anos 1960 e 1970, justamente os anos da formação pessoal do filho e autor.
Ao comparar a memória de sua própria geração à do pai, mediada por seus escritos, Tezza se torna um “Santo Agostinho improvisado”, investigando “um pouco mais minha descrença de origem”.
Na primeira metade do livro, Tezza confronta essa historicidade e suas circunstâncias como um observador e crítico do mundo contemporâneo, chegando a conclusões bastante originais sobre grandes questões da formação do país.
Quem leu seus últimos três romances com atenção, percebe que ele reelabora muita coisa dita pela boca de seus personagens, mas agora com todas as letras, sobre o Brasil do passado e do presente.
Segundo Cristóvão, nestes temas o que conduziu a narrativa foi o seu próprio repertório de “uma vida inteira de referências culturais caóticas que vão tomando forma pela escrita”.
“Objetivamente, minha pesquisa foi mínima: breves consultas factuais de datas e eventos, as âncoras da realidade”. Como não se trata de uma ‘biografia’ no sentido estrito, ele não foi atrás de fontes alternativas, não fez entrevistas, não pesquisou documentos, nada. As únicas fontes são as cartas e a memória pessoal e familiar.
Ele reconhece, contudo, que sua formação acadêmica — professor universitário por duas décadas — “inesperadamente” o ajudou. “Primeiro, pela disciplina de respeitar a citação e a palavra alheia: o livro inteiro se fez sobre as cartas do meu pai. A minha imaginação vem apenas a reboque”, afirmou.
Mas, principalmente, pelo “toque racionalizante” ao olhar para a própria vida. “Eu estava sempre atrás das pequenas e grandes ramificações históricas e sociais implícitas em cada gesto. A vida do meu pai é uma micro-história do Brasil da primeira metade do século 20. Essa ramificação é parte essencial de toda literatura romanesca. Nesse sentido, o recorte que eu fiz ao recriar a vida do meu pai diz também muito sobre mim mesmo, o narrador.”
O filho e o pai
Quase duas décadas separam O filho eterno e Visita ao pai e muita coisa mudou na trajetória literária e pessoal do autor desde então. Até lançar seu livro mais vendido e premiado, Cristóvão Tezza era um professor acadêmico que escrevia ficção.
Um professor, diga-se, muito querido e lembrado pelos alunos que influenciou com o hábito de começar os anos letivos apresentando listas com dezenas de títulos de uma “biblioteca básica”, que marcaram época na Universidade Federal do Paraná.
Em 2009, ele se demitiu e passou a se dedicar totalmente à literatura e à linguagem, livre da relação esquizofrênica entre o discurso da ciência e o da arte — uma tensão que, segundo ele, teve efeitos deletérios sobre a prosa brasileira.
De lá para cá, já lançou 13 livros: sete romances e cinco títulos de não-icção, entre crônicas e ensaios. Todos alcançaram leitores e repercussão crítica, mas nenhum é tão ambicioso (no melhor sentido) e invulgar quanto Visita ao Pai.
Aos 73 anos, o escritor vive com a esposa, Beth, e o filho, Felipe, em um apartamento no centro de Curitiba. Nos últimos três anos, a rotina da casa foi invadida pelos cadernos ancestrais.
Curiosamente, o tema de alguém que investiga escritos póstumos já havia aparecido em sua literatura — como em um de seus livros subestimados, Uma noite em Curitiba (Rocco, 1995), um thriller sobre um professor universitário que desaparece, não sem antes deixar cartas escritas como pistas à atriz.
De certa forma, também é tema em seu livro de estreia, Trapo (Record, 1988), que conta a história de um jovem poeta suicida que deixa o esboço de um livro na pensão onde morava — papéis que são entregues a um antigo professor.
Cadernos x timelines
Ao folhear os cadernos do soldado Tezza, é curioso pensar como, quase cem anos depois, jovens como ele também arquivam e organizam todas as relações pessoais e atividades cotidianas não em cadernos, mas nas timelines das redes sociais.
Quando perguntei se percebia alguma semelhança entre as lógicas e práticas, Cristóvão pensou bastante antes de concluir que não.
Para ele, usuário muito comedido das redes sociais contemporâneas, o traço central delas é a “explosão pública da própria vida, a exposição permanente da intimidade, o apagamento da vida privada”.
“Nesse sentido, hoje vivemos uma volta ao espírito da Idade Média, um neo-medievalismo: tudo é obrigatoriamente público sob o olhar da Internet, que tudo vê (como o velho olhar do Deus de antanho). Já os cadernos do meu pai se inserem mais na tradição do diário, da anotação pessoal da vida privada, ainda que com linguagem peculiar. E ele era uma pessoa tímida; por exemplo, numa carta à noiva, a reação do meu pai a uma notícia de jornal sobre ele demonstra o temor da exposição.”
São outros tempos, é claro, mas há coisas que quase não mudaram no Brasil. Ou pior, parecem se repetir em ciclos assustadoramente ritmados. Visita ao Pai é a história de um homem que sai da miséria ágrafa para o mundo dos bacharéis de classe média — uma espécie de sonho brasileiro do século XX.
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