O primeiro escritor da Amazônia eleito para a Academia Brasileira de Letras, o manaura Milton Hatoum, 73 anos, tomou posse na cadeira 6, substituindo a Cícero Sandroni, morto no ano passado. A cerimônia, bastante concorrida, foi realizada na sexta-feira (24). Coube à escritora Ana Maria Machado, uma das maiores incentivadoras da candidatura do novo imortal a fazer a saudação, destacando os laços de amizade entre os dois e os principais aspectos da obra do amazonense, principalmente, relativos ao tempo e ao espaço, sobretudo da memória.
Leia a íntegra do discurso do novo imortal Milton Hatoum, que está disponível em vídeo no YouTube da ABL.
Bom, boa noite. Excelentíssimo senhor Merval Pereira, presidente da ABL, excelentíssimo senhor ministro e vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça, Mauro Campbell Marques, demais autoridades.
Eu quero registrar e agradecer a presença dos filhos do saudoso acadêmico Cícero Sandroni, a Paula, Luciana e Eduardo.
Bom, é uma honra e uma alegria estar com vocês nesta noite. Meus sinceros agradecimentos a todos e a todas presentes, acadêmicos, acadêmicas, amigas e amigos, escritores, livreiros, leitores, jornalistas, meus editores e amigos, Emílio Fraia e Luiz Schwarcz Soares, a equipe da Companha das Letras e cineastas, roteiristas, atrizes, atores, produtores, artistas, quadrinistas que divulgaram inventivamente com meus romances e contos.
Agradeço às professoras e aos professores do Rio e aqueles que vieram de outros estados e até de longe da Itália. Os amigos, Amina di Munno, minha tradutora, professora da Universidade de Gênova, Vincenzo Arsillo, ensaísta e professor da Universidade de Nápoles. Eu devo uma porção da minha duvidosa imortalidade aos meus queridos familiares manauaras, a minha enteada carioca, a Lola, a Rute, minha querida Rute, cadê ela? Ah, ah, não foi embora. A Rute e aos nossos filhos João e Gabriel que sempre me perguntam, viu, Ana, porque eu demoro tanto para terminar o livro. Quando é que vai terminar esse bagulho aí?
Olha, eu mesmo não entendo essa lentidão que, no entanto, não me exaspera. Talvez ela guarde uma relação atávica com o tempo e com o ritmo da Amazônia de onde eu vim. Sobre esse ritmo, o médico escritor Drauzio Varella, não sei se ele está aí, Drauzio, ele é apaixonado pelo Rio Negro e por suas comunidades indígenas e ribeirinhas. E uma vez ele contou o seguinte episódio:
"Numa tarde, enquanto ele descia o maior afluente do Amazonas, ele viu um homem, caboclo indígena, sentado à beira da água. Horas depois, quando Drausio subia ao rio, ele encontrou o mesmo homem na exata mesma posição, um ar contemplativo, e perguntou: "O que o Senhor está fazendo?" O homem respondeu: "Estou sentado."

O novo imortal Milton Hatoum é conduzido pelos acadêmicos à mesa. Foto: Dani Paiva/ABL/Divulgação
Eu conheci o inesquecível acadêmico Cícero Sandroni há exatos 11 anos, quando proferi uma palestra na ABL a convite da minha querida amiga, acadêmica escritora e ensaísta Ana Maria Machado, a quem agradeço o belíssimo, belíssimo e generoso discurso e excepção. Muito obrigado.
Eleito por unanimidade membro da ABL, em 2003, Sandroni foi considerado pelo saudoso eminente historiador Alberto da Costa Silva o herdeiro natural de Barbosa Lima Sobrinho. Cícero Sandroni, como salientou a Ana Maria, ele presidiu essa academia no biênio de 2008 e 2009. Embora ele próprio, se definisse como ficcionista bissexto, autor do livro de contos O diabo só chega ao meio-dia e do romance Peixe de Amarna, sua atuação como jornalista foi exemplar. Ele exerceu essa longa profissão, bem como as de cronista e pesquisador, com muita obstinação, honestidade e competência. Publicou o livro De Dom Pedro I a Lula, História do Jornal do Comércio, em parceria com sua esposa Laura Sandroni; uma biografia de Austregésilo de Ataíde, que presidiu a ABL por quase 34 anos. Ele editou com os grandes historiadores Leslie Bethell e o saudoso José Murilo de Carvalho, dois valiosos volumes da vasta com a correspondência internacional de Joaquim Nabuco, de 1882 a 1891, publicada na imprensa do Rio e no jornal uruguaio Lara.
Na apresentação de sua coletânea de crônicas, A arte de mentir, Sandroni adverte que seus textos não ensinam essa arte e que tampouco se trata de um manual de autoajuda para quem deseja vencer na vida, contando em verdades. Nesse livro, ele traça o perfil de escritores brasileiros e estrangeiros, evoca viagens, fala de política, literatura, cinema e música. E como bom cronista, fez galantes do cotidiano carioca, um deles grave, o assalto a sua casa no Cosme Velho, ocasião em que o cronista foi baleado.
Não por acaso, o jovem narrador do romance Peixe de Amarna, mora no Cosme Velho, título de outro de seus livros, no qual Sandroni conta a história desse bairro antigo e de alguns de seus moradores. Em 2006, o discurso de posse de Sandroni resumiu de maneira notável a vida e a obra dos acadêmicos que antecederam. O poeta Teixeira de Melo, primeiro ocupante desta cadeira número seis e um dos 30 fundadores desta casa, responsável pela indicação de Casimiro de Abreu como patrono dessa mesma cadeira.
Os demais, em ordem cronológica, são Artur Jaceguai, Goulart de Andrade, Barbosa Lima Sobrinho e Raimundo Faoro. Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABL em 53 e 54, autor de mais de 100 livros, participou ativamente da campanha das diretas já de 83/84 e tornou-se, de acordo com Sandroni a consciência moral da nação.
Em 1959, quando o relator da comissão da ABL, que indicaria o prêmio José Veríssimo, Babosa Lima Sobrinho, argumentou pela premiação do livro Os Donos do Poder de Raimundo Faoro. Sandroni lembrou que esta casa foi a primeira instituição a reconhecer o valor desse livro, uma obra erudita e um marco fundamental da historiografia brasileira e analisa em profundidade a formação do patronato no país.
Não menos erudito, generosamente erudito, é o livro A pirâmide e o trapézio, em que Faoro faz uma análise minuciosa da obra de Machado à luz da transição da velha sociedade de estamentos para a sociedade de classe. Nesse estudo, ele identifica questões históricas, sociais e políticas, nem sempre explícitas nos contos, romances e crônicas machadianos, contrariando a visão de uma parte da crítica que se limitou a enaltecer a psicologia universalista das personagens de Machado.
Em A arte de mentir, Sandroni cita logo na primeira página esta frase de Machado: "A mentira é muita vez tão involuntária quanto a respiração". Sim, há mentiras e mentiras. Em que consiste então a mentira dos ficcionistas? No conto A hora e vez de Augusto Matraga, de Rosa, o narrador diz: "E assim se passaram pelo menos seis ou se anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar nem pôr, sem mentira nenhuma, porque está aqui é uma história inventada e não um caso acontecido. Não, senhor.” O leitor acredita nas histórias inventadas, que não são casos acontecidos, mas que poderiam ter acontecido. Então, é melhor acreditar nas histórias inventadas. São mais verdadeiras e menos constrangedoras.
Na minha infância e primeira juventude manauara, quando ainda não havia televisão, eu acreditava nas histórias fantasiosas que ouvia do meu avô libanês. Igualmente fascinantes eram as histórias narradas por caboclas indígenas que trabalhavam na minha casa e nas casas vizinhas. Eu não desconfiava que meu avô inventava façanhas, nem que aquelas mulheres recorriam a lendas e mitos que estão na origem da literatura, mas muito pouco tem a ver com o romance gênero moderno.

Ouvi relatos de viagens e deslocamentos, levantinos que partiram do Mediterrâneo rumo à Amazônia e amazonenses que saíram ou tiveram que sair e suas comunidades indígenas e ribeirinhas para se instalar em Manaus. A infância e a juventude são períodos decisivos para qualquer pessoa. A passagem da adolescência vida adulta é uma espécie de “linha de sombra”, para usar o título e o tema de a novela de Joseph Conrad. E depois da juventude, a realidade torna-se mais palpável, às vezes áspera e intratável, como o cacto do poema de Manuel Bandeira.
Mas sabemos que para muitos brasileiros essa linha de sombra surge antes. A necessidade de trabalhar para ajudar os pais, principalmente a mãe, os usurpam os anos de juventude e a própria formação educacional. Eu convivi com alguns desses jovens numa escola pública de Manaus, no ginásio amazonense Dom Pedro II. Décadas depois, as lembranças desse convívio com estudantes de origem humilde e as histórias que ouvi foram importantes para o meu projeto literário. Naquela época, Manaus era uma cidade pequena, isolada, uma província com ar cosmopolita, resquício do falso da borracha ou d’A ilusão do fausto, título do livro da professora historiadora minha amiga Ednea. Mascarenhas Dias. Como observou Otávio Paes, a província é a invenção romanesca por excelência, porque a contemplamos como um espaço fechado e suficiente, um lugar privilegiado, onde as coisas secretas acontecem aos olhos de todos.
De fato, na província, nós sabemos de muitas coisas secretas, mesmo a nossa revelia. É como se a cidade fosse um palco de diuturno, em que todos são atores e espectadores. Esse grande teatro gratuito é um prato cheio para quem quer escrever ficção. E eu era um solitário à espreita, pequeno ator secundário meio na moita, que ouvia muito e falava pouco.
Ouvir para depois inventar. E muita coisa inventada nos romances Relatos de um certo oriente, Dois irmãos, Cinzas do Norte e Órfãos do Eldorado, veio das reminiscências da infância e juventude manauara. Já os volumes da trilogia O lugar mais sombrio tem uma relação mais forte com a experiência da vida adulta. Mas todos oram alimentados por outro tipo de experiência, também vital e inerente a qualquer escritor ou escritora: a leitura. No romance Os demônio, de Dostoiévski, uma personagem diz o seguinte: "A segunda metade de nossa vida é constituída dos hábitos e da experiência acumulados na primeira”. Isso acontece com muitos ficcionistas.

Livros lidos na juventude abriram meus olhos e minha consciência para dramas humanos ambientados em regiões muito diferentes, distantes do Amazonas e até do Brasil. Livros já considerados clássicos. E o que é um clássico? Eu cito a definição de Jorge Luiz Borges, por ser breve e, a meu ver, exata. Clássico não é um livro que necessariamente possui estes ou aqueles méritos. É um livro que as gerações humanas, premidas por razões diversas, leem com prévio fervor e misteriosa lealdade. Os sertões e Vidas secas foram dois desses clássicos que me impressionaram em 1967, quando eu concluía o curso ginasial e já me preparava para morar em Brasília, na companhia dos amigos Aurélio Michiles, cineasta, e Eneas Vale, professor e artista visual.
Devo a um professor de geografia e a uma professora de português a descoberta de uma região do Nordeste com seus dramas e tragédias. A professora, uma jovem que sabia escutar e cultivava uma saudável autoironia, orientou a leitura de livros de Graciliano e de outros autores e autoras importantes. Já o professor de geografia era impermeável ao sorriso, pouco propenso ao diálogo e sempre disposto a castigar os imprudentes e os distraídos. Ele impôs a leitura de Os sertões como punição coletiva por um ato de vandalismo. Aconteceu isso. Não é mentira.
Por um ato de vandalismo não delatado, ocorrido na escola nesse exercício de crueldade - Os sertões, com 14 anos de idade, um exercício de crueldade - eu fui obrigado a fichar a última parte do grande livro sem entender direito as razões daquela batalha fratricida, que foi, a bem dizer, um massacre do povo pobre de Canudos. Esses livros me surpreenderam pelas questões abordadas e pelo estilo contrastante em seus modos de narrar. Como se sabe, Os sertões é uma obra narrada com uma linguagem sofisticada, de tom muito elevado e que se entrelaçam várias modalidades de discurso e não poucas figurações literárias. Para Antônio Cândido, Euclides da Cunha foi mais que um sociólogo, um iluminado.
O que antes era apenas uma intuição ou um tateio tornou-se uma busca incessante para compreender a relação entre a linguagem e as questões abordadas nessas e em outras obras ficcionais e poéticas. Talvez essa fase de leitura passional seja a região luminosa no outro lado da linha de sombra. E só depois, a partir dos 28 anos, é comecei a escrever meu primeiro romance.
No poema Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto alude a essência do estilo do grande autor alagoano. Poema diz o seguinte: "Falo somente com o que falo,/ com as mesmas vinte palavras/ girando ao redor do sol,/ que as limpa do que não é a faca". A linguagem precisa, ou como diz o poema cabralino, em que só cabe cultivar o que é sinônimo da míngua, traduz um esforço de estilo, o que o poeta pernambucano chamou de trabalho de arte. Não por acaso, há uma frase emblemática no Caetés, primeiro romance de Graciliano, e a frase é a seguinte: “O difícil é escrever”. Essa dificuldade que opera por subtração e evita qualquer adorno foi apontado nesses versos nada fáceis do poema Murilograma AGR 1963, do grande poeta Murilo Mendes. E o Murilo diz o seguinte:
1
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.

A linguagem em Graciliano é uma recusa consciente a uma escrita pomposa e derramada que ele te que criticou com aspereza em vários artigos e nos romances Caetés e São Bernardo. Penso que ele também atentou às sábias palavras do conselheiro Aires, personagem conhecido de Machado, e disse o seguinte: "Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar". E para não enfadar vocês, vou apenas comentar dois tipos de violência e a posição do narrador em Vidas secas.
Uma das cenas fortes desse romance é a detenção de Fabiano, após ser espancado pelo soldado amarelo. Nesse episódio, a violência física é inseparável de outra, a ausência da formação educacional da população mais humilde. Esse é um dos temas profundos de Vidas secas, a impossibilidade de os personagens ter acesso à leitura. Uma passagem importante no fim desse romance alude ao desejo dos pais Fabiano e Vitória de educar os filhos.
Talvez essas páginas finais sejam as únicas de esperança, ainda que tênue numa obra tão pessimista como a de Graciliano. O anseio da família sertaneja por uma vida melhor numa cidade não contempla os pais que já perderam tudo. Um futuro mais digno talvez seja possível para os dois filhos. E essa possibilidade só é vislumbrada na escola, onde os meninos aprenderiam, eu cito, coisas difíceis e necessárias. Fabiano quer pensar, mas não sabe pensar. Incapaz de argumentar como postular uma existência?, indaga o crítico, professor Lourival Holanda num belo ensaio sobre Vidas secas.
Esse é o impasse de milhões de brasileiros até hoje. A angustiante ausência de articulação do pensamento com a palavra. Daí a humilhação de Fabiano diante do soldado amarelo, do patrão, dos próprios filhos e de Vitória, mais sabida, mais sensata e mais resoluta do que o marido.
Vários críticos analisaram em Vidas secas e em outros romances de Graciliano, uma junção muito habilidosa da memória, da história, da geografia, do drama social e da sondagem psicológica. O mais fascinante nessa junção, contudo, é o modo de narrar. Quem conta a vida áspera dos sertanejos não é a voz de um outro ou de outros em posição elevada, com autoridade de narrar. Mas quem são esses outros? Na novela O recado do morro, de Guimarães Rosa, o narrador Pedro Orósio, um capial enxadeiro, é o guia de três homens numa viagem aos Campos Gerais: um naturalista estrangeiro, um religioso e um fazendeiro. Ao se referir aos membros dessa comitiva, Pedro Ourósio diz o seguinte: “Outros eram os outros, de bom trato que fossem, mas pessoas instruídas, gente de mando. E um que vive de seu trabalho braçal, não cabe todo à vontade junto com esses, por eles pago.”
Em Vidas secas, as particularidades de um flagelo social são examinadas por
dentro, como uma mediação entre o mundo sertanejo e a cultura letrada. Nessa mediação não há voz hierárquica. O narrador não assume uma posição de superioridade em relação às retirantes, cuja subjetividade é narrada de um ponto de vista das próprias personagens, incluindo os animais. Quem não se comove ou não se comoveu com a famosa cena em que a cachorra Baleia faminta delira com a visão de preás gordos.
Graciliano combina habilmente essas vozes com a de um narrador em terceira pessoa. Uma combinação que exclui gente de mando. As vozes, o silêncio, as hesitações, as dúvidas, os sentimentos, tudo parte da consciência deles e não de outros. E nada disso é falseado. Esse procedimento formal configura o sentido profundamente humano dessa pequena obra-prima que discrepa de Os sertões quanto à forma e ao gênero literário e diverge radicalmente em relação à posição e visão do narrador sobre questões cruciais.
Penso que Graciliano corrigiu distorções e preconceitos de Euclides, principalmente quanto à hierarquia de raças, uma teoria falaciosa formulada por Arthur de Gobineau, no século XIX. Cito um dos tantos exemplos da obra euclidiana: “Alguns sertanejos se aprumavam com altaneria incrível, no degrau inferior e último da nossa raça”. Sem dúvida, pode-se argumentar que Euclides, um engenheiro militar, fervorosamente republicano, foi um intelectual da segunda metade daquele século. Mas Machado de Assis, contemporâneo de Euclides, não caiu nessa armadilha ideológica.
Um presente valioso que recebi da minha mãe, dádiva, que ainda guardo, foi a coleção das obras completas de Machado, edição de 1958, dos Clássicos Jackson. Alguns devem ter coleção. Naquela quadra da juventude li apenas os contos que evidentemente me fascinaram, mas a intuição materna me conduziu depois aos romances de Machado, dentre os quais Esaú e Jacó, um dos meus preferidos e uma das fontes literárias do dois irmãos, como apontou a querida Ana Maria Machado. E anos depois, ao ler os ensaios de Euclides sobre a Amazônia, eu percebi que ele retoma as mesmas questões sobre as nossas iniquidades, mas são questões escamoteadas pela enganosa oposição entre civilização e barbárie.
Trata-se de uma construção ideológica do colonialismo que, em nome de uma suposta civilização, nomeava bárbaros os povos colonizados. “Exterminem todos os bárbaros”. É a frase famosa do personagem Kurtz, um agente colonial europeu da novela Coração das trevas, de Conrad. Mas hoje o mundo todo vê com mais consciência e conhecimento que os ditos civilizados de um certo ocidente são os verdadeiros exterminadores. Quase seis décadas se passaram desde as leituras da juventude. E nesse longo intervalo, volta e meia fala-se da crise ou mesmo do fim do romance. Ora, o romance como gênero literário já nasceu em crise desde o século XI.
Aliás, crise crítica tem o mesmo étimo e o romance sobreviveu a ambas. Enquanto houver vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas. Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos. na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva, na experiência mística, vivemos também no devaneio. “A humanidade não pode suportar tanta realidade”, como diz o famoso poema Eliot. Um dos meus devaneios é imaginar um punhado de leitores anotando os mesmos trechos de um livro. Isso acontece nas manhãs nada inspiradas, em que busco alguns livros, frases sublinhadas e imagino leitores e leitoras sublinhando as mesmas passagens do romance A hora da estrela, os mesmos versos de um poema de João Cabral ou esta frase de um conto de Guimarães Rosa. “Só sabemos de nós mesmos com muita confusão”.
Muitos leitores cultivam um bom hábito de traçar relações temáticas e formais entre poesia e ficção. É um livre exercício para eleger afinidades literárias. Eu tracei livremente paralelismos entre obras da nossa literatura e imaginei Macabéa, a extraordinária personagem de A hora da estrela com uma sobrinha de Fabiano e Vitória. Macabéa, a retirante nordestina no Rio, onde após ser enganada e humilhada, encontrou seu destino trágico. Vi parentes próximos de Fabiano e Vitória no poema Morte e Vida Severina, e parentes distantes nos catrumanos, aqueles sertanejos do tempo do império, personagens de Grande sertão: veredas, um romance que aprofunda e radicaliza o modo de narrar de Vidas secas.
Aliás, a presença e ausência da formação educacional são temas recorrentes no fabuloso romance de Rosa. Basta lembrar os tantos jagunços analfabetos e o narrador Riobaldo, professor, poeta, mestre da cultura popular e erudita, ambas amalgamadas numa prosa poética que inclui ditados, refrões e cantigas do centro norte de Minas, citações de escritores brasileiros e de vários estrangeiros como Dante Alighieri, Thomas Mann e Goethe.
Uma corrente de sensibilidade envolve leitores, narradores orais e livros e formam juntos o que Goethe chamava de literatura do mundo. Esse conceito surgiu na década de 1810, quando Goethe leu o Corão e poetas árabes e peças, notadamente Rafiz, fonte de inspiração dos 12 volumes de poesia reunidos no Divão Ocidental Oriental, de 1819.
Esse mesmo poeta persa inspirou um dos mais belos poemas de Manuel Bandeira, Gasal em louvor a Rafiz. E já o título do livro de Goethe inspirou Edward Said e Daniel Barembion a formar uma orquestra com jovens músicos cristãos, muçulmanos e judeus. Goethe era apaixonado pelo Brasil. Ele nunca esteve aqui, mas era amigo dos botânicos Carl von Martius e Nees von Esenbeck, que passaram anos pesquisando a flora brasileira. Uma rara e linda flor vermelha da Mata Atlântica, uma malva baiana extinção, leva o nome científico de Guetea Cauliflora. E Bernardo Zile, o tradutor alemão de Os sertões e Grande sertão: veredas, conta que Guimarães Rosa disse numa entrevista o seguinte:” Goethe não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo.” Goethe sertanejo, eu não sabia disso. Então, para o sertanejo alemão Goethe, a literatura do mundo não era exatamente a literatura universal. Ao que soou um pouco vago e abstrato. Era antes o direito a toda a literatura de valor ético e estético que nos sensibiliza e nos convida à reflexão. Uma literatura, como disse Antônio Cândido, mestre da crítica, que humaniza em sentido profundo porque faz viver. E a função da literatura está ligada à complexidade de sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório mais humanizador e talvez humanizador porque contraditório.
Uma diversa produção literária da África, da Ásia e da América Latina, por muito tempo menosprezada e ignorada pelo Ocidente, tem sido traduzida em dezenas de idiomas. A recepção crítica e dos leitores a essas obras antes ou ocultas é uma prova de que não existe um único cânone na literatura. Será que o conceito de Goethe, talvez um sonho premonitório, foi enfim realizado? Escritores, poetas, leitoras e leitores são imigrantes do imaginário. Eles e elas se alimentam também da imaginação, dos sonhos e das línguas alheias. Qualquer pessoa pode eleger uma, uma ou várias pátrias culturais, sem necessariamente desprezar sua identidade, que não deve ser pensada somente a partir de si mesma, como algo fixo ou cristalizado.
No Brasil, uma extraordinária expressão da cultura oral e milenar de um dos povos originários da Amazônia é o livro A queda do Céu - Palavra de um xamã ianomami. uma coletânea de relatos poéticos, míticos, políticos, históricos narrados por David Kopenawa e traduzidos e editados sobre antropólogo Bruce Albert. Outro belo exemplo é o álbum Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs, um canto poético com sentido político e uma força expressiva em comum que fala da humilhação e da exploração a que são submetidos brasileiros das periferias. Quase todos pretos e quase brancos pobres como pretos, como diz a letra da comovente canção Haiti, de Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Essas e outras obras ampliam o horizonte da nossa consciência e percepção em relação aos brasileiros, que há séculos têm sido excluídos de uma ansiada modernidade que ainda hoje só contempla uma parte da população. Elas trazem para nossa reflexão e nosso posicionamento uma questão não resolvida, mas na qual estamos implicados, que é a seguinte: como esse país pode ser moderno e minimamente civilizado diante da injustiça decorrente de séculos de escravidão?
A literatura não pode responder cabalmente a essa pergunta, porque ela costuma recorrer à ambiguidade e não dá ou não deve dar explicações nem respostas cabais. No Esaú e Jacó, o narrador machadiano diz à baronesa: "A senhora exige respostas definitivas, mas diga-me, o que há de definitivo neste mundo a não ser o voltarete do seu marido?"
Esse mesmo falha. O que se espera de um texto literário é justamente o inesperado, o mistério, a complexidade dos conflitos e a dimensão simbólica de seus enigmas que nunca se revelam por inteiro. Em todo caso, a leitura não deve ser passiva nem conformista. Virginia Woolf ressaltou alguns aspectos essenciais dessa prática. A tarefa criativa do leitor, cuja cumplicidade com a obra tem a ver com a imaginação e o seu julgamento capaz de desafiar, instigar, questionar ou estimular o escritor ou a escritora. Esse processo exige uma compreensão ampla e profunda, pois a intuição de quem lê, em contato com as múltiplas faces desse texto estimula a vida material, espiritual.
Ainda assim, para escritora inglesa, eu cito: "A real razão para se ler livros continua inescrutável". A leitura nos dá um prazer complexo e um prazer difícil. Varia de época para época e de livro para livro. Na verdade, é um prazer tão grande que, sem ele, o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Eu trabalhei pouco tempo como arquiteto, sabe, Ana Maria? Mas você tem toda a razão, porque a arquitetura não me abandonou, desgraça.
Uma recente recaída teórica é o texto que eu escrevi, um texto de apresentação ao livro que ilustra o belíssimo projeto Memorial de Brumadinho do grande arquiteto mineiro Gustavo Pena. Quando eu estudava na faculdade de arquitetura e urbanismo, o orientador de um trabalho de graduação sobre Manaus foi o professor e geógrafo Milton Santos, um dos intelectuais mais notáveis deste país. Da sorte minha, três décadas depois, o saudoso filósofo e crítico literário Benedito Nunes me convidou para escrever um ensaio sobre a minha cidade natal, que resultou no livro Crônica de duas cidades, Belém Manaus, escrito em parceria com ele. Ainda estudantes da FAU, eu e meu amigo, poeta e professor Horácio Costa escapavam das aulas maçantes de cálculo integral e diferencial. instalações hidráulicas para assistir a disciplina de Literatura na Faculdade de Letras. E lá na antiga colmeia, os professores Davi Arrigucci Júnior, Leyla Perrone Moisés, o saudoso acadêmico Alfredo do Bosi e todos os grandes críticos e escritores foram fundamentais na minha formação de leitor. E Davi, um querido amigo que ainda hoje leitor, interlocutor essencial. Enfim, nas escolas e na universidade públicas eu aprendi coisas difíceis e necessárias, como dizem os narradores de Vidas secas.
E por fim, quero voltar uma mulher, a professora que me alfabetizou, e um amigo livreiro. Nos seus 104 anos de vida, dona Maria Luíza de Freitas Pinto.
acompanhou quase toda a minha produção literária e foi ao lançamento dos meus livros em Manaus, na banca do Largo, do saudoso amigo Joaquim Melo. Lembro do lançamento conjunto com o querido Aílton Krenak, numa noite memorável com a presença de muitos leitores, claro, Joaquim e sua filha Helena e a companheira dela, a médica baiana Dra. Teresa Cristina Risério, elas estão aqui e ele vive na nossa memória. O jornal de Guardian nomeou a banca do Largo a menor livraria do mundo.
Eu acrescentaria o seguinte em uma das mais generosas. Joaquim doava bons livros a todo mundo, estudantes de escolas públicas e não só de Manaus. Quem passava por lá, ele via que não podia comprar livro, ele dava. Ele me enviava caixas de isopor com peixes e farinha do Amazonas, geleia de bacuri feito em Belém, queijo coalho, pimenta murupi, que a minha amiga querida Rita Chaves certamente conhece. Enfim, supimpas iguarias, como disse Riobaldo, na casa do turco Assiso Ababa no Curralinho.
Certa vez, sem saber como agradecer, eu disse para o Joaquim que aquelas dádivas que tinham viajado quase 3.000 km, era uma loucura. Ele se saiu com essa: “Mano, loucura comer tilápia sonhando com tambaqui na brasa e farinha do Ari. Pode uma coisa dessa?
E é mesmo. Isso que é loucura. Os últimos presentes de aniversário que ele me enviou foram dois objetos muito valiosos. uma rara edição francesa de três contos do Flaubert e a primeira edição de Vidas secas. E num bilhete ele escreveu o seguinte: "Para que não te esqueças das professoras que te levaram à literatura". Não me esqueci.
Então é isso. As professoras e aos professores que formaram e continuam a formar leitores críticos, dedico esse texto “Imigrantes do Imaginário”, que é também uma modesta homenagem a todos vocês, cuja presença nesta noite é uma alegria para sempre, a alegria do conhecimento, como escreveu o poeta Drummond. Muito obrigado.
Assista aqui à cerimônia de posse de Milton Hatoum na ABL.