Longe de qualquer leitura nostálgica do passado açucareiro, Novos engenhos, coletânea de 13 ensaios assinados pelo escritor Roberto Azoubel, se afirma como um livro de pensamento. A obra reúne mais de duas décadas de produção intelectual do autor, articulando ensaios que transitam entre cultura, política, regionalismo e crítica social. O livro será lançado nesta quinta, 30 de abril, a partir das 19h horas, no Museu do Estado de Pernambuco.
Na ocasião, haverá uma mesa de debates com o professor Anco Márcio Tenório Vieira, da Pós-Graduação em Letras da UFPE, e o designer h.d.mabuse, do Cesar School, com mediação do representante da Editora Titivillus, Rodrigo Acioli. A entrada é gratuita.
“ Novos engenhos – ensaios e artigos de cultura contemporânea" (2003-2025) percorre as veredas imaginárias de Jorge Luis Borges para, em seguida, pensar os novos espaços de leitura e escrita com Walter Benjamin, Michel Foucault, Heloísa Buarque de Hollanda e Beatriz Sarlo. Escuta Neil Gaiman sobre a importância do ato de ler e chama atenção, em companhia de Nelson Rodrigues e Ruy Castro, para como os livros encostados na estante podem ser eficazes na interpretação do tempo presente. Por fim, o livro ainda monta um trisal com Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie e Ariana Harwicz, no intuito de lembrar que a arte é território da perda da moralidade e que a literatura não precisa ter como objetivo tornar pessoas melhores, como já ensinou Rimbaud.”, explica Roberto Azoubel, mostrando o mix de debates e abordagens trazidos na coletânea.
O título, escolhido propositalmente com base no passado econômico e cultural do Estado, é proposital e profundamente simbólico. Os “engenhos” não aparecem como estruturas coloniais, mas como metáforas para modos de produção cultural e intelectual.
Azoubel desloca o termo para o presente, sugerindo que o Nordeste continua sendo um espaço de invenção, não mais centrado na economia do açúcar, mas na criação artística, nos movimentos culturais e nas disputas de narrativa.
Essa perspectiva dialoga com debates importantes das últimas décadas, sobretudo aqueles que questionam a ideia de um Nordeste fixo, estereotipado. Ao reunir textos publicados em diferentes momentos, o autor permite ao leitor acompanhar a evolução dessas discussões, evidenciando como conceitos como identidade, regionalismo e cultura popular foram sendo tensionados ao longo do tempo.
De forma lúdica, Azoubel explica que o livro que reúne textos divulgados entre os anos de 2003 e 2025, escolhidos e atualizados por ele, funciona como faz alusão aos velhos discos de vinil: Lado A – Regionalismo e Manguebeat e LADO B – Crítica e Literatura. “Uma divisão que, além de dar sentido aos ensaios e artigos selecionados, refletem momentos distintos na trajetória de leitor-crítico do autor.”
Apesar de tentar “simplificar” a obra, o livro se destaca pela sua natureza ensaística. Azoubel escreve a partir de um lugar híbrido, entre o pesquisador, o gestor cultural e o observador atento da cena contemporânea. Isso se reflete em textos que combinam análise teórica com leitura de fenômenos culturais concretos, especialmente ligados à produção nordestina recente.
Mais do que oferecer respostas fechadas, Novos engenhos propõe perguntas: Como se constrói hoje a ideia de Nordeste? Quais narrativas permanecem dominantes? Quais novas vozes tensionam esse imaginário?
Disputa simbólica
Se há uma unidade na obra, ela está justamente nesse gesto: recusar o passado como destino e afirmar o presente como campo de disputa simbólica. Os “novos engenhos”, afinal, são menos estruturas físicas e mais formas de pensar, produzir e narrar o mundo.
Um dos eixos mais consistentes da obra está nos ensaios dedicados à noção de Nordeste como construção simbólica. Em textos que dialogam com a tradição do pensamento regional, Azoubel desmonta a ideia de uma identidade fixa, revelando como o Nordeste foi historicamente narrado a partir de estereótipos, ora como espaço da falta, ora como território da resistência folclorizada.
Ao analisar manifestações culturais contemporâneas, ele mostra que essas imagens ainda persistem, mas já não dão conta da complexidade atual. Há, nesses ensaios, um movimento de deslocamento: o Nordeste deixa de ser objeto de definição para se tornar campo de disputa narrativa.
Essa reflexão se aprofunda em textos voltados à cena cultural recente, nos quais o autor observa a emergência de novas linguagens artísticas e novos circuitos de produção. Azoubel se interessa particularmente por aquilo que escapa aos centros tradicionais de legitimação, produções periféricas, iniciativas independentes, experiências que transitam entre o popular e o experimental. Ao fazer isso, ele propõe uma leitura menos hierárquica da cultura, em que o valor não está previamente dado, mas é construído nas práticas e nas relações.
Outro conjunto importante de ensaios aborda a relação entre cultura e política. Aqui, o tom se torna mais incisivo. Azoubel examina como políticas públicas, discursos institucionais e dinâmicas de mercado influenciam diretamente o que é produzido, circulado e reconhecido como cultura. Em vez de uma visão abstrata, ele trabalha com situações concretas, revelando tensões entre incentivo e controle, visibilidade e apagamento. Esses textos são particularmente relevantes por evidenciar que a cultura não é um campo neutro, mas atravessado por disputas de poder.
Há ainda ensaios em que a escrita se aproxima de um registro mais pessoal, quase memorialístico, sem perder o rigor crítico. Neles, Azoubel articula experiências individuais com processos coletivos, sugerindo que a formação de um olhar — estético e político — é inseparável do contexto em que se vive. Essa dimensão confere ao livro uma camada sensível que impede que a reflexão se torne excessivamente abstrata.
O que atravessa todos esses núcleos é uma preocupação com o presente. Mesmo quando revisita conceitos consolidados, Azoubel o faz para interrogá-los à luz das transformações recentes. Os “novos engenhos”, nesse sentido, aparecem como metáfora recorrente para designar não apenas novas formas de produção cultural, mas também novas maneiras de pensar o próprio ato de interpretar o mundo.
Publicada pela editora Titivillus, o livro contou com a colaboração de um time de primeiríssima linha: Lua Tardieux, designer responsável pelo projeto gráfico e diagramação; Xico Sá, jornalista e escritor que assina o prefácio; Josias de Paula Jr., Doutor em Sociologia e professor no Departamento de Ciências Sociais da UFRPE, autor do posfácio.
Lançamento do livro Novos Engenhos, de Roberto Azoubel
Quinta-feira, 30 de abril
A partir das 19h
Museu do Estado de Pernambuco