Poucos autores brasileiros carregam uma aura tão intensa de admiração — e, ao mesmo tempo, de mistério — quanto Orides Fontela. Desde sua estreia, a poeta construiu uma obra de precisão quase mineral, marcada pelo rigor filosófico e por uma linguagem depurada que a tornou referência entre críticos e escritores. Ainda assim, permanece como um daqueles nomes que circulam com reverência nos meios literários, mas que o grande público só agora começa a reencontrar. Na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty — Flip, esse movimento ganha novo fôlego: a editora Hedra lança três livros —distintos em forma, propósito e abordagem — que iluminam diferentes faces da autora e reforçam a atualidade de sua voz.
O primeiro deles, Pelos olhos de Orides, abre uma porta inédita para sua poesia ao aproximá-la de crianças, jovens e leitores iniciantes. Com seleção de poemas e concepção editorial de Augusto Massi, ilustrações de Cynthia Cruttenden e posfácio de Odilon Moraes, o livro cria um diálogo delicado entre palavra e imagem.
A técnica de gravura utilizada pela artista — carimbos esculpidos em pequenas borrachas, depois retrabalhados digitalmente — expande o universo contemplativo de Orides, brincando com escalas, metamorfoses e gestos artesanais. Moraes, no posfácio, destaca a “parcimoniosa opulência” da poeta, lembrando como sua escrita exprime muito com tão pouco. Mais do que uma adaptação para o público infantil, o volume revela a potência de uma obra que atravessa gerações e convida ao espanto, ao silêncio e à imaginação.
Se Pelos olhos de Orides apresenta a poeta por meio da sensibilidade visual, Conversas: escritos e entrevistas de Orides Fontela amplia o acesso ao seu pensamento. Organizado por Ieda Lebensztayn, Mário Alex Rosa e Augusto Massi, o livro reúne quatro textos da autora — entre eles o inédito ensaio filosófico “Da Ética” — e quinze entrevistas concedidas ao longo de sua trajetória, oito delas nunca antes publicadas em livro.
O conjunto permite acompanhar a recepção crítica de sua obra desde Alba (1983), vencedor do Prêmio Jabuti, e revela uma autora que refletia sobre ética, linguagem, filosofia e criação literária com contundência e humor. As entrevistas também recuperam aspectos de sua vida pessoal, incluindo as dificuldades enfrentadas por uma escritora vinda de família pobre que, apesar dos obstáculos, conquistou um lugar singular na literatura brasileira.
Fechando o trio de lançamentos, a nova edição revista e ampliada de O enigma Orides, de Gustavo de Castro, retorna às livrarias com material inédito. Além de um novo texto de apresentação, o volume inclui o capítulo “A eternidade é um instante”, dedicado a uma longa conversa da poeta com o crítico francês Michel Riaudel, e um caderno iconográfico com fotografias e documentos inéditos em livro.
Resultado de pesquisa contemplada pelo programa Rumos Itaú Cultural, a biografia reconstrói a formação da autora na USP, acompanha a publicação de seus livros — Transposição, Helianto, Alba, Rosácea e Teia — e revela uma escritora que fez da poesia uma forma radical de existência. Castro lembra que, para Orides, a literatura não era um exercício formal, mas uma investigação da experiência concreta, um modo de tocar o real.
Desde 2015, quando lançou Poesia completa e a primeira edição de O enigma Orides, a Hedra tornou-se a casa editorial da autora. A partir de 2025, intensificou esse trabalho com novas edições críticas, a organização de escritos inéditos e agora, em 2026, com um conjunto de livros que reafirma a relevância de Orides Fontela no cenário literário contemporâneo.
Décadas após sua morte, a poetisa continua a desafiar e a impressionar leitores com sua linguagem precisa, sua filosofia rigorosa e sua capacidade de transformar o mínimo em revelação. Com os novos títulos ganha o público o acesso à obra de Orides e a nuances pouco conhecidas de sua vida, de seu pensamento e de seu processo criativo.