A trajetória literária da escritora e jornalista Maria do Carmo Barreto Campello de Melo - que completaria 102 anos nesta terça-feira, dia 21 – foi construída quase inteiramente no campo da poesia. Ao longo de aproximadamente quatro décadas, publicou uma obra que passou por diferentes momentos de organização, revisão e reescrita, até chegar a duas reuniões de conjunto: Sempre poesia, publicada em 2009, e Íntimo idioma, lançada em 2024, no centenário de seu nascimento. A segunda publicação reúne 192 poemas e estabelece, até o momento, a forma mais recente de acesso ao conjunto de sua produção poética.
Sua formação em Letras Clássicas constitui uma das referências para a compreensão de sua escrita. A poesia de Maria do Carmo se desenvolveu dentro dessa relação entre conhecimento formal da linguagem e investigação de suas possibilidades.
A estreia formal da poeta - que já publicava em jornais - ocorreu em 1968, com Música do silêncio, “1º Momento: Os Símbolos” e “2º Momento: Os Sobreviventes”. O livro inaugurou uma poética na qual o silêncio não representa simplesmente a ausência da palavra, mas se torna uma zona de tensão.
A sequência de Música do silêncio prosseguiu em 1971, com o 3º Momento: Ciclo da Solidão, e em 1972, com o 4º Momento: O Tempo Reinventado. Em 1976, a autora publicou VerdeVida: O Tempo Simultâneo e o 5º Momento: As Circunstâncias. A divisão em momentos indica que não se tratava apenas de uma série de livros independentes, mas de uma construção poética que retomava questões e imagens ao longo do tempo. A solidão, o tempo, a existência e as circunstâncias da vida aparecem como núcleos de uma construção que se estendia de um volume a outro.
A própria organização de sua obra é parte de sua história literária. Maria do Carmo frequentemente retomava, revisava e reescrevia poemas já publicados. Retrato abstrato, de 1990, teve papel central nesse processo: a autora considerava que o livro reunia quase a totalidade de sua criação poética até aquele momento. A produção posterior incorporou novos poemas, mas também continuou o movimento de revisão. Por isso, a leitura de sua obra não pode ser feita apenas como uma sequência linear de livros. Há poemas que reaparecem, textos que são modificados e versões que registram a transformação de uma mesma matéria poética.
Depois do primeiro ciclo, sua bibliografia prosseguiu com Ser em trânsito (1979), Miradouro (1982), Partitura sem som (1983), De adeus e borboletas (1985), Retrato abstrato (1990), Solidão compartilhada (1994), Visitação da vida (2000) e A consoada (2003). A lista corresponde à produção publicada em vida, organizada em 12 volumes que reúnem 14 obras, devido à estrutura interna de alguns livros e ciclos.
O percurso desses títulos permite acompanhar uma poesia que não se fixa em um único tema. A poesia de Maria do Carmo se constrói a partir de uma atenção constante à experiência interior, mas não se fixa apenas nela. O indivíduo aparece em relação com o tempo, a memória, a família, a sociedade, a morte, a fé e a linguagem.
A dimensão social de sua produção aparece com clareza em poemas que tratam das estruturas que limitam a vida individual. “A gaiola” articula, por meio da repetição, uma série de elementos associados à prisão: o muro, a cerca, o preconceito, a família, a aliança, o estatuto, a lei, o mandamento e a proibição. A gaiola do título deixa de ser apenas um objeto e passa a representar uma rede de convenções.
A religiosidade constitui outro eixo de sua poesia. Uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal de Pernambuco em 2023 dedicou-se especificamente à presença do sagrado na obra da autora, analisando como a religiosidade se articula à busca pelo sentido da vida e da existência.
O tempo é outro dos grandes elementos estruturadores de sua obra. Desde O tempo reinventado, o próprio título coloca a temporalidade no centro da criação. A morte, por sua vez, aparece ligada à própria percepção da vida. A poesia de Maria do Carmo incorpora experiências humanas que atravessam a existência: a perda, a solidão, o amor, a velhice, a fé e a memória. A dimensão pessoal, porém, é transformada pelo trabalho da linguagem. O poema não funciona como simples registro de uma experiência particular.
A passagem do tempo também está relacionada ao processo de reescrita de sua obra. A revisão tornou-se parte do próprio percurso literário. Em vez de uma obra fechada em suas primeiras versões, sua poesia permaneceu aberta a novas formulações. Esse procedimento explica por que a organização de sua produção completa exige a consideração das diferentes versões dos poemas. Íntimo idioma, publicado pela Cepe em 2024, adotou as versões mais atualizadas disponíveis e suprimiu repetições para evitar que um mesmo poema aparecesse várias vezes na reunião.
Artevida
A produção de Maria do Carmo Barreto Campello também se insere na história da poesia pernambucana por sua atuação institucional. Em 1982, tomou posse na Academia Pernambucana de Letras, ocupando a cadeira nº 29, anteriormente ocupada por Jayme Griz. Foi a terceira mulher a integrar a instituição.
Em 2009, um ano depois de sua morte, Sempre poesia reuniu a obra publicada da autora. O volume foi organizado por Ana Flávia Campello de Melo e apresentou a produção literária reunida em 13 livros, conforme o catálogo da Universidade de Pernambuco. Quinze anos depois, Íntimo idioma retomou esse conjunto a partir de outro critério editorial, levando em conta versões revistas e a eliminação de repetições. As duas reuniões registram momentos distintos da transmissão de sua obra e demonstram que a bibliografia de Maria do Carmo continua ligada ao problema da organização de uma poesia que a própria autora modificou ao longo do tempo.
A trajetória literária de Maria do Carmo Barreto Campello pode ser compreendida, portanto, como um longo movimento em torno da palavra. Desde Música do silêncio, sua poesia se volta para aquilo que a linguagem consegue dizer e para aquilo que permanece como pergunta. Os livros seguintes ampliam esse campo para o tempo, a solidão, a identidade, a memória, a vida social, o amor, a morte e o sagrado.
Descrita como uma pessoa generosa e jovial, Maria do Carmos Barreto Campelo participou do projeto Artevida, criado por Paulo Dalla Nora Macedo, que se destinava a difundir arte para as crianças de regiões carentes.
“As ações do Artevida foram pensadas para comunidades com alto índice de vulnerabilidade social. Naquele momento, identificamos localidades que poderiam fazer parte do projeto: o Coque, Santo Amaro e, posteriormente, o Pilar.”, explica a arquiteta Gloria Dalla Nora, que convidou Maria do Carmo para participar do projeto.
"A literatura se espalhou pelo projeto como semente que encontra terra fértil. Ali, entre versos e movimentos, entre cores e melodias, Maria do Carmo Barreto Campello de Melo — nossa Carminha — trouxe ao projeto sua alma poética e sua compreensão profunda da palavra como instrumento de libertação. Ela não apenas ensinava poesia; ela ensinava as crianças a reescrever suas próprias histórias, a transformar o peso muitas vezes esmagador do cotidiano em palavras que libertavam, que elevavam, que dignificavam."
“Para Carminha, a poesia era resistência, era travessia existencial, era a certeza inabalável de que havia algo além das grades—visíveis e invisíveis—que cercavam aqueles meninos e meninas. Sua presença no projeto era como a de uma fada madrinha das palavras, que mostrava a cada criança que dentro dela habitava um poeta, um criador, um ser capaz de dar nome e forma ao que sentia.”
Amiga próxima da poeta, Glória lembra que entre seus versos, “penso em "A Gaiola" como uma caixa de ressonância entre os jovens do projeto com uma força quase premonitória. Embora escrito originalmente sobre a condição da mulher na sociedade patriarcal, seus versos refletiam de forma assombrosamente precisa a sensação de aprisionamento que tantos meninos e meninas carregavam — aquele destino que parecia selado desde o nascimento, aquele futuro que não prometia mudanças, aquela vida que se configurava como uma sucessão de determinismos sociais:
Ela recorda que o Artevida levou as crianças a declamar versos nas praças públicas e até mesmo na Assembleia Legislativa, transformando espaços tradicionalmente reservados aos adultos em territórios de infância e poesia. “Era uma forma suave, mas radical, de ocupação: ocupávamos com beleza, com palavra, com a presença daqueles que historicamente foram silenciados.”, conta.
Maria do Carmo Barreto Campelo também teve influência entre outras vozes que vinham das periferias recifenses. Foi umas das incentivadoras de Miró, o poeta da Muribeca, quando ele trabalhava como contínuo na Sudene. Atuou como uma espécie de madrinha do artista, incentivando-o a produzir sua poesia. Sua generosidade, a tornou inspiração de um artigo escrito por Marcus Accioly.
“A sua casa não tinha porta para os pobres, nem janelas para os pássaros e se uns buscavam alimentos e outros migalhas, todos saiam muito bem servidos.”, escreveu em sua homenagem o poeta.
Maria do Carmo Barreto Campello morreu no Recife, em 23 de julho de 2008. Sua obra, porém, continuou a ser reorganizada, estudada e republicada. A reunião de 192 poemas em Íntimo idioma, lançada no centenário de seu nascimento, recolocou em circulação uma produção iniciada em 1968 e construída em sucessivos livros, versões e retomadas.