Orides Fontela tem obra poética reeditada em ano de homenagem na Flip

Festa Literária de Paraty coloca a poeta como lente para pensar o mundo e resgatar sua memória. Editora reedita suas obras, mas livro com a poesia completa fica fora de catálogo

A escolha da homenageada deste ano não é um ponto aleatório na festa. Com a escolha de Orides Fontela, uma poeta cuja obra retrata silêncio, concisão, filosofia e imagem, a Festa Literária Internacional de Paraty se dispõe a levar o visitante a um estado de atenção quase meditativa, com reflexões sobre ética, percepção e linguagem. Pode-se dizer que a Flip 2026, diante disso, não pretende apenas celebrar suas obras, mas utilizá-las como lente para pensar o mundo contemporâneo.  E resgatar sua memória, cultuada por críticos e escritores, mas desconhecida do grande público. 

Poucos nomes da poesia brasileira despertam tanta admiração, e permanecem tão envoltos em mistério, quanto Orides Fontela. Dona de uma poesia concisa, rigorosa e profundamente filosófica, a autora ocupa um lugar singular na literatura brasileira. 

Diante disso, durante o evento serão republicados livros da autora pela “Editora Hedra”, ampliando o movimento de redescoberta de Orides com o lançamento de três livros que iluminam diferentes dimensões de sua trajetória.  

Abrindo esse conjunto, Pelos olhos de Orides apresenta uma nova forma de descobrir sua poesia. O livro reúne poemas selecionados por Augusto Massi, com ilustrações de Cynthia Cruttenden e posfácio de Odilon Moraes. A edição propõe uma leitura sensível de Orides, aproximando novas gerações de uma obra marcada por uma percepção apurada, pela precisão da linguagem e pela poética das delicadezas. 

Conversas: Escritos e entrevistas de Orides Fontela, organizado por Ieda Lebensztayn, Mário Alex Rosa e Augusto Massi, por sua vez, reúne um amplo conjunto de entrevistas, depoimentos e ensaios em que a poeta reflete sobre literatura, filosofia, linguagem e criação poética. O volume traz vários textos inéditos, entre eles, o ensaio filosófico “Da Ética’, além de entrevistas que nunca haviam sido publicadas em livro. 

Além deles, também será apresentada a edição revista e ampliada de O enigma Orides, ensaio biográfico do pesquisador Gustavo de Castro. A obra retorna à livraria com um novo texto de apresentação, um capítulo inédito e um caderno iconográfico com fotografias e documentos inéditos. 

Completando os lançamentos, chega à Flip a edição revista e ampliada de O enigma de Orides, ensaio biográfico do pesquisador Gustavo de Castro. A obra retorna à livraria com um um novo texto de apresentação, um capítulo inédito e um caderno iconográfico com fotografias e documentos inéditos.

Haverá, ainda, uma programação especial em diferentes Casas Parceiras da festa. Os títulos reúnem um livro ilustrado que apresenta sua poesia aos pequenos e jovens leitores, uma coletânea inédita de escritos críticos e uma nova edição, revista e ampliada, da principal biografia de Orides Fontela. 

Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Orides Fontela construiu uma obra rigorosa e singular, marcada pela concisão extrema e por uma profunda dimensão filosófica. Formada em Filosofia pela USP, sua produção poética dialoga com questões fundamentais do ser, do tempo e do sagrado, em uma linguagem que recusa o confessionalismo e busca a máxima lucidez. Ao longo da carreira, Orides recebeu prêmios como o Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), consolidando-se como uma autora reconhecida, embora tenha permanecido à margem do grande público. 

Fora de catálogo

Embora os cinco livros de poesia de Orides Fontela tenham sido publicados, o leitor não poderá comprar um título, Orides Fontela - poesia completa, que foi tirado de catálogo. O que provocou questionamento do organizador da obra - editada em 2015 pela própria.  

“Orides Fontela- poesia completa deveria, agora, ser o par editorial natural de uma Flip em sua homenagem. Mas não será. A edição não existe mais. Ela não está esgotada. Mas foi retirada do mercado e apagada do site da editora que detém os direitos de publicação da obra de Orides (em função dos meus esforços para contratar e convencer, à época, os herdeiros).”

A editora Hedra (que prefere a grafia hedra, com o "h" em letra minúscula) se posicionou oficialmente sobre o artigo de Luis Dolhnikoff. Em nota enviada à revista Pernambuco, afirma:

"A hedra tem orgulho da Poesia completa de Orides Fontela publicada em 2015, organizada por Luis Dolhnikoff — uma edição histórica no resgate da poeta. Sua tiragem está esgotada, e o título consta do site como esgotado, além de ser citado na bibliografia das novas edições. Durante a produção intensiva da nova coleção, a página chegou a sair do ar, para que a editora não seguisse recebendo pedidos de reposição de um livro sem reimpressão prevista — decisão operacional, já revertida.

A edição de 2015 não será reimpressa por duas razões. A primeira: o acesso renovado aos datiloscritos da poeta e às trocas dela com autores, editores e amigos justificou um intenso e dedicado trabalho de estabelecimento de texto, que corrigiu erros que persistiam desde as primeiras edições e fixou diagramações que flutuavam de uma edição a outra. A segunda: por conta desse mesmo acesso, novos textos de Orides vêm sendo localizados — escritos que podem configurar poemas acabados, ao lado de exercícios e reescritas; essa pesquisa está em curso e integrará um novo volume com todos os poemas de Orides, previsto para 2027. A Poesia completa de 2015 tornou-se, assim, sem demérito algum, incompleta — no texto e no corpus. Reimprimir sob esse título um volume que a editora sabe incompleto não seria honesto com o leitor nem justo com a obra.

A opção pelos cinco volumes individuais é uma decisão editorial: reeditar cada livro de Orides, pela primeira vez desde as edições originais, como ela concebeu. Além disso, o texto foi estabelecido a partir das fontes primárias, com uma fortuna crítica própria que vai de pesquisadores a poetas contemporâneos. Volumes curtos, de preço acessível, também levam essa poesia a mais leitores. E devolver a cada título uma edição individual restabelece a unidade que a própria Orides buscava: “Eu tento que um livro seja um conjunto”, disse ela; e escreveu: “agrupo poemas segundo quero, para compor a totalidade de um livro que tenha estrutura interna, pés e cabeça”.

Por fim: como já foi divulgado, Luis Dolhnikoff participará, a convite da editora, de uma mesa sobre a obra de Orides na programação da 24ª Flip, em Paraty, ao lado da pesquisadora e artista visual Irana Gaia. A hedra reconhece o papel histórico da edição de 2015 — que garantiu aos leitores o acesso à poesia de Orides Fontela até as novas edições —, reconhecimento que os cinco volumes já registram e que a próxima obra completa manterá."