Homero Fonseca mostra um outro ângulo da Confederação do Equador

No seu recém-lançado livro Jornais em Guerra, jornalista e escritor concentra a narrativa na arena da palavra impressa, analisando a abordagem de 19 jornais que cobriram o conflito

Homero Fonseca, que trabalhou cerca de cinco anos no livro, afirma que “a Confederação do Equador ajudou a formar o jornalismo brasileiro
Homero Fonseca, que trabalhou cerca de cinco anos no livro, afirma que “a Confederação do Equador ajudou a formar o jornalismo brasileiro"

Jornais em Guerra, A Imprensa na Confederação do Equador (1823-1825), do jornalista e escritor  Homero Fonseca, é um livro que foge do lugar-comum, abordando o tema por um recorte original:  o confronto travado nos jornais durante a Confederação do Equador. 

Em vez de concentrar a narrativa apenas nos embates militares, nos líderes revolucionários ou na repressão conduzida pelo governo de Dom Pedro I, como já foi feito por vários autores, ele desloca o foco para a arena da palavra impressa, onde monarquistas e republicanos disputavam a formação da opinião pública e a legitimidade de seus projetos políticos. O livro examina 19 periódicos publicados à época, dos quais nove estavam ligados aos confederados e dez defendiam a ordem imperial.

“A Confederação do Equador ajudou a formar o jornalismo brasileiro’, conta Homero, que levou mais de cinco anos de pesquisa para apresentar o trabalho, publicado pela Editora Araçá . Como jornalista, pesquisou os primórdios da imprensa no Brasil. A pesquisa partiu de uma constatação: a imprensa brasileira, que chegou ao País com a corte portuguesa, em 1808,  ainda era uma experiência recente, submetida a forte controle. Com a Independência e a abertura do espaço público para o debate político, os periódicos tornaram-se instrumentos centrais de intervenção na vida nacional. 

Ao reconstruir esse universo, o autor apresenta os principais jornais envolvidos na disputa e identifica seus editores, colaboradores e redes de influência. A análise não se restringe ao conteúdo publicado. O livro procura relacionar as posições assumidas pelos periódicos às trajetórias pessoais e políticas de seus responsáveis, permitindo compreender como interesses, convicções e circunstâncias históricas moldavam os discursos impressos. 

O historiador e prefaciador do livro, George Cabral destaca justamente esse aspecto, observando que a obra estabelece conexões entre as concepções de mundo dos editores e as ideias difundidas em seus jornais. 

“O livro de Homero sobre a guerra em jornais, na época da Confederação do Equador, é um livro de referência. Ele conseguiu reunir em uma única publicação tudo o que se publicou em periódicos naquele momento tão complicado da história, com tantos conflitos políticos, inclusive conflitos bélicos. Nele, o leitor encontra em uma única publicação um panorama bastante completo do que se veiculava na imprensa e das próprias características da imprensa escrita naquele momento. Era uma atuação bem diferente do que nós temos hoje,  porque o  primeiro objetivo dos jornais não era informar: o primeiro objetivo era expressar a opinião política.  Então, ele consegue fazer o mapeamento dos diversos periódicos e apontar como eles eram veículos de conflito também. Em paralelo ao conflito armado, estava lá o conflito de palavras nos jornais.”, afirma George Cabral, que assina o prefácio da obra, e foi o primeiro a ler o texto final. 



Méritos

Um dos méritos do trabalho está na recuperação da materialidade da imprensa oitocentista. O leitor toma contato com o formato, a circulação e as limitações técnicas daqueles periódicos produzidos em um país onde a atividade tipográfica ainda dava seus primeiros passos. O livro mostra como publicações de aparência modesta exerciam influência significativa sobre os debates políticos de seu tempo. Essa contextualização contribui para afastar visões anacrônicas e permite entender a dimensão que a palavra impressa possuía no início da vida independente do Brasil. E traz uma curiosidade: apesar da maioria da população ser analfabeta, os textos publicados eram amplamente conhecidos, pois eram lidos em bares, praças e locais públicas para multidões. 

A narrativa evita transformar os jornais em simples reflexos dos acontecimentos. Pelo contrário, evidencia que eles participaram ativamente da crise política. Os textos, as polêmicas entre redatores, os ataques aos adversários e a defesa de projetos concorrentes de organização do Estado integravam a própria dinâmica do conflito. Dessa forma, a imprensa aparece não apenas como testemunha da Confederação do Equador, mas como uma de suas protagonistas.

Após tantos anos de pesquisa, Homero externa suas preferências por alguns protagonistas. Questionado qual dos jornalistas descritos gostaria de ter conhecido, cita dois. Um deles é João Soares Lisboa, um português que veio para o Brasil ainda adolescente, tornou-se brasileiro e virou um dos maiores protagonistas do episódio. O outro é Cipriano Barata, um médico que ingressou no jornalismo para manifestar suas posições políticas e que Homero descreve como “fantástico, uma figura múltipla”

João Soares Lisboa destacou-se como editor do Correio do Rio de Janeiro, periódico que circulou entre 1822 e 1823 e se tornou um espaço de defesa de posições liberais e de crítica ao poder central. Ao contrário de muitos jornalistas de sua época, não hesitou em questionar diretamente as decisões de D. Pedro I, tornando-se um dos primeiros profissionais da imprensa brasileira a sofrer perseguição política por suas opiniões. No contexto da Independência, João Soares Lisboa defendia uma participação mais ampla da população na vida política e criticava medidas que considerava autoritárias. 

Após a dissolução da Assembleia Constituinte por D. Pedro I, em 1823, o jornalista foi perseguido, preso e acusado de envolvimento em articulações republicanas. Foi nesse cenário que se aproximou da Confederação do Equador, movimento revolucionário deflagrado em Pernambuco em 1824. 

A participação de João Soares Lisboa na Confederação do Equador não se limitou à atividade jornalística. Quando as tropas imperiais avançaram para sufocar a revolta, ele tomou parte na resistência armada ao lado dos insurgentes. Morreu em combate em 30 de setembro de 1824, tornando-se uma das vítimas mais conhecidas do movimento. Sua trajetória reúne três elementos centrais da história política brasileira do início do século XIX: a luta pela Independência, o surgimento de uma imprensa de opinião e os conflitos em torno da organização do Estado nacional. 

Para a história do jornalismo brasileiro, João Soares Lisboa é lembrado como um dos primeiros jornalistas a enfrentar processos, prisão e exílio em razão de suas posições políticas. Já para a história pernambucana, sua adesão à Confederação do Equador o coloca entre os intelectuais e publicistas que deram sustentação ideológica a uma das mais importantes revoltas do Primeiro Reinado. 

Já Cipriano Barata, nas palavras de Homero, “foi a mais exuberante figura da Confederação do Equador, embora não estando pessoalmente no palco.” Nos pouco mais de sete meses de circulação, o periódico caiu nas graças do público (e nas desgraças do governo), ao aliar conteúdo e forma num mix único. “Seu redator terminou na cadeia, mas antes de ser impedido, espalhou aos quatro ventos as sementes da Confederação do Equador”, registrou Homero. 

Lançado no início do mês, livro traz visão original da Confederação do Equador

Execução

Coordenador da edição de Jornais em Guerra - A imprensa na Confederação do Equador (1823-1825), a pedido da Editora Araçá, o jornalista e escritor Sidney Rocha conta que o trabalho de execução do livro começou há pouco mais de dois anos. E que Homero é incansável. 

“Dentre as publicações mais recentes em torno do movimento, essa é mesmo a mais conectada com o contemporâneo. Não há nada ali que não tenha a ver com as relações do poder com a imprensa, com as questões econômicas, todas atuais, em relação à questão tributária, por exemplo. Homero fez uma pesquisa bastante sólida, mas sem academicismos, porque nunca foi um acadêmico.”, diz.

Sobre a produção literária de Homero, Sidney também faz elogios. “Homero é alguém obcecado pelo jornalismo e pela literatura. Quem tem algum rigor com essas duas linguagens sabe como é difícil conciliar a realidade, a imaginação. E ele consegue estabelecer bem esses reinos,  juntando-os noutro reino que se pode chamar de Verossimilhança. Aliás, é sobre essa união que despontou como narrador, quando lançou Tapacurá- Viagem ao planeta dos boatos, há algumas décadas. Sem fáceis comparações, esse é o terreno que avançaram também Truman Capote, Norman Mailer, Gabriel García Márquez, para quem os fatos passam a ser encobertos por uma escrita altamente imaginativa.”

 Outro ponto forte do livro é a escrita de Homero Fonseca, que  preserva o rigor da pesquisa histórica, mas sem abdicar da clareza jornalística. O resultado é um livro que dialoga simultaneamente com estudiosos da história política, da comunicação e do jornalismo, além de leitores interessados na formação do espaço público brasileiro. 

Mais do que um estudo sobre jornais antigos, Jornais em Guerra ajuda a compreender como a imprensa participou da construção da política brasileira desde seus primeiros anos de independência. Ao iluminar o confronto entre projetos de país que se manifestavam nas páginas dos periódicos, Homero Fonseca recupera uma dimensão frequentemente relegada a segundo plano pela historiografia. 

O autor conta que as fontes foram diversas, com pesquisas na Biblioteca Nacional, na Biblioteca da Universidade de São Paulo (USP), no IBGE. “Acessei várias fontes do Rio de Janeiro e do Recife.”, conta o autor, que após essa empreitada já está voltado para outro trabalho: o romance A arte da fuga triunfal, que será lançado no início de 2027. “Já fiz a pesquisa e estou na fase de redação. Ele já está bem avançado”, revela o escritor. 

Natural de Bezerros, Pernambuco, Homero desenvolveu desde cedo interesse pela literatura, pela história e pelas manifestações culturais nordestinas, influências que marcaram toda a sua produção intelectual. Ao ingressar no jornalismo profissional, na década de 1970, atuou em algumas das mais importantes redações do país. Trabalhou como repórter do Jornal do Commercio e do Diário da Noite, ambos em Pernambuco, e posteriormente integrou as sucursais pernambucanas do Jornal do Brasil e de O Estado de S. Paulo. Com o passar dos anos, assumiu funções de direção e edição em importantes veículos da imprensa estadual, tornando-se editor-chefe do Diario de Pernambuco e diretor de Redação da Folha de Pernambuco.

Outro capítulo importante de sua carreira foi a passagem pela Revista Continente Multicultural. Durante cerca de oito anos exerceu sucessivamente os cargos de editor, editor-executivo, diretor editorial e superintendente de edição, participando da consolidação da revista como uma referência nacional na cobertura de literatura, artes, música, patrimônio e pensamento brasileiro.

Sua experiência como jornalista sempre caminhou lado a lado com a pesquisa histórica. Ao longo da carreira desenvolveu um método de trabalho baseado na consulta a documentos, arquivos, jornais antigos e entrevistas, produzindo reportagens e livros que recuperam personagens, acontecimentos e episódios pouco conhecidos da história brasileira. Em vez de privilegiar apenas grandes fatos históricos, costuma revelar os bastidores e as curiosidades que ajudam a compreender a formação cultural do país.

Como escritor, tem uma obra diversificada, transitando entre a crônica, a memória, a pesquisa histórica, a biografia e a literatura de não ficção. Entre seus livros estão Viagem ao Planeta dos Boatos (Editora Record, 1996), uma reflexão sobre rumores e lendas urbanas; A Vida É Fêmea (Comunigraf, 2000); A Arte de Viver Teimosamente (2001), dedicada à trajetória do jornalista e intelectual Mário Melo; Pequeno Teatro da Vida (Comunigraf, 2002); Pernambucânia – O Que Há nos Nomes das Nossas Cidades (Companhia Editora de Pernambuco, 2006), obra que investiga a origem dos nomes dos municípios pernambucanos; Roliúde (Editora Record, 2007), inspirado no fenômeno cinematográfico de Cabaceiras, na Paraíba; a participação na coletânea Recife Conta o Natal (2007); 1968 – O Ano que Não Terminou em Pernambuco (2018), do qual foi organizador; e Todos os Livros do Mundo (2022),  que resgata a história da emblemática Livraria Livro 7 e de seu fundador, Tarcísio Pereira. Sua produção bibliográfica ultrapassa a dezena de títulos e revela interesse permanente pela preservação da memória cultural.

Outro aspecto pouco conhecido de sua trajetória é sua aproximação com a literatura de cordel. Na década de 1980, utilizando o pseudônimo Zé de Arruda, publicou os folhetos A Catástrofe da Fonte Nova, O Filho de Satanás no Colégio Eleitoral e A Peleja de Maciel e Magalhães. As obras utilizavam a linguagem tradicional do cordel para comentar acontecimentos políticos e esportivos com humor e crítica social.

Serviço

Jornais em Guerra - A Imprensa na Confederação do Equador (1823-1825) 

Editora Araçá

352 páginas

R$ 120