Livro mostra afetividade e biologia sobre o nascimento dos bebês

O que faz um bebê, do canadense Cory Silverberg, descreve os processos responsáveis por tornar a vida possível sem renunciar aos vínculos e às histórias que cercam cada nascimento

Cory Silverberg evita simplificações, explorando o parto e a gravidez com clareza e naturalidade
Cory Silverberg evita simplificações, explorando o parto e a gravidez com clareza e naturalidade

Pais, professores, tios e avós temem a pergunta clássica da infância: de onde vêm os bebês? Existe uma diferença importante entre entender como os seres humanos chegam ao mundo e descobrir a história particular que trouxe cada criança até sua família. Debruçado nessa premissa, o mestre em educação e educador sexual canadense Cory Silverberg lança no Brasil O que faz um bebê, pela Alcateia Editorial. Na obra, o autor constrói uma narrativa que transita entre a biologia e a afetividade, descrevendo os processos responsáveis por tornar a vida possível sem renunciar aos vínculos e às histórias que cercam cada nascimento.

Ao explorar a gravidez e o parto com clareza e naturalidade, o educador mantém o foco no desenvolvimento da vida sem restringir a narrativa a categorias fixas ou modelos familiares específicos. A partir dessa abordagem, ele amplia a conversa para temas como acolhimento e pertencimento, evidenciando a chegada de uma criança não apenas como um processo biológico, mas também os laços e cuidados das pessoas que aguardam o nascimento.

O texto de Cory Silverberg evita simplificações que, durante décadas, dominaram esse tipo de publicação. Em lugar de afirmar que "todo bebê nasce do amor entre um papai e uma mamãe", explica que é preciso um óvulo, um espermatozóide, um útero e pessoas dispostas a cuidar da criança, reconhecendo que esses elementos podem estar distribuídos de maneiras diferentes. 

As ilustrações de Fiona Smyth acompanham essa intenção. Os desenhos apresentam pessoas com corpos, idades, etnias e configurações familiares diversas, sem transformar essa diversidade no tema central da narrativa. Ela aparece como parte do cotidiano, o que reforça a naturalidade da abordagem.

O mérito do livro está em substituir respostas prontas por explicações objetivas. Em vez de recorrer a metáforas como cegonhas ou histórias fantasiosas, a obra convida crianças e adultos a conversarem sobre o nascimento com clareza e respeito à complexidade da vida contemporânea. O texto evita tanto o excesso de termos técnicos quanto a infantilização do assunto.

Essa escolha também define seu público. Leitores que procuram uma abordagem baseada exclusivamente no modelo tradicional de família podem estranhar a perspectiva inclusiva adotada pelos autores. O livro não procura defender um modelo específico; sua intenção é contemplar situações reais vividas por diferentes famílias, incluindo adoção, reprodução assistida e famílias homoafetivas, sempre de maneira apropriada para o público infantil.

As ilustrações de Fiona Smith apresentam pessoas com corpos e formatos diferentes 

Mais do que responder à pergunta do título, O Que Faz um Bebê discute como o conhecimento científico pode ser apresentado às crianças sem excluir experiências familiares diversas. O resultado é uma obra que ocupa um espaço ainda pouco explorado na literatura infantil: o de explicar a origem da vida com precisão, simplicidade e abertura para a pluralidade das experiências humanas.

Para responder as perguntas do site da Pernambuco, conversamos com a editora da Alcateia, Priscilla Galvão, responsável pela publicação do livro no Brasil. Ela explica que a obra ocupa uma lacuna importante na literatura infantil brasileira, e que será dirigido para crianças acima de 4 anos. Confira. 



O que levou a editora a apostar na publicação de O que faz um bebê?

Desde o primeiro contato com a obra, percebemos que ela preenchia uma lacuna importante na literatura infantil brasileira. É um livro que responde à curiosidade natural das crianças sobre o nascimento de forma honesta, cientificamente correta e que não exclui nenhuma configuração familiar, porque não impõe um único modelo de reprodução. 

Quais critérios pesaram na escolha desse título para o catálogo?

Nosso principal critério é sempre a qualidade da obra. Buscamos livros que ampliem o repertório das crianças e também dos adultos, por que não? O que faz um bebê atende esse requisito e ainda traz um ineditismo na forma de apresentar o tema. Esse foi o principal motivo: ainda não conhecíamos, no mercado editorial brasileiro, um livro com essa abordagem universal sobre o nascimento.

O livro adota uma linguagem inclusiva. Como foi o trabalho editorial para preservar essa proposta na tradução para o português?

A forma como Silverberg escreveu o livro facilitou muito o nosso trabalho de tradução. Ele escolheu cada frase do livro com muito cuidado, pensando sempre em todas as configurações de família e também em não excluir nenhum bebê dessa história. Mas já que você perguntou, vou te contar que houve um pedido por parte de Silverberg para que a palavra “doctor” fosse traduzida no feminino, se possível. Ele não impôs, foi só um pedido, mas nós já estávamos pensando em fazer justamente essa escolha. Então está lá: “médica”, quando ler o livro, você vai lembrar dessa história.

Que tipo de leitor a editora imagina para a obra: pais, educadores, profissionais da saúde ou as próprias crianças?

Pensamos em um livro para crianças, a partir dos 4 anos de idade. Nessa faixa etária, a leitura costuma ser mediada por um adulto, que pode conduzir a conversa de acordo com a curiosidade da criança. Isso não significa, porém, que a obra se restrinja aos pequenos: crianças mais velhas podem lê-la de forma autônoma. Na prática, percebemos que o livro também tem despertado grande interesse entre pais, mães, responsáveis, educadores e outros profissionais que trabalham com a infância, como um apoio para abordar com honestidade as conversas sobre nascimento e reprodução.

Como equilibrar rigor científico, linguagem acessível e sensibilidade ao tratar de um tema tão complexo para crianças pequenas?

Esse equilíbrio é justamente um dos grandes méritos da obra e acreditamos que resulta da honestidade com que o tema é tratado. O livro não subestima as crianças, apresenta informações cientificamente corretas e, o mais importante, deixa espaço para que o adulto mediador insira as particularidades da história de cada família. 

A recepção do livro no Brasil tem sido semelhante à observada em outros países?

O livro desperta muito interesse entre educadores, profissionais da infância e famílias que desejam conversar sobre o nascimento com as crianças. Como foi lançado há cerca de um mês, ainda é cedo para avaliarmos sua recepção no Brasil. Esperamos que ele alcance o maior número possível de famílias e tenha, por aqui, a mesma relevância que conquistou em outros países.

A editora recebeu críticas ou resistência à publicação? Como lidou com elas?

Ainda não recebemos críticas negativas, mas, se surgirem, teremos prazer em conversar sobre a obra.

O livro procura contemplar diferentes formas de constituição familiar. Essa diversidade já é uma diretriz da editora?

Nosso catálogo nasce com o propósito de promover encontros entre crianças, jovens e adultos por meio da boa literatura ilustrada. Por isso, Alcateia. Acreditamos que a leitura compartilhada aproxima as pessoas, desperta o senso de coletividade e amplia o conhecimento sobre nós mesmos e sobre o outro. Essa é a nossa diretriz editorial.

Na avaliação de vocês, ainda existe um vazio no mercado brasileiro de livros infantis que abordem sexualidade, reprodução e famílias de maneira informativa?

Sim. Existem boas iniciativas, mas ainda são poucas quando comparadas à demanda. Muitos livros acabam privilegiando uma abordagem exclusivamente biológica ou exclusivamente comportamental. Obras que consigam reunir informação correta, sensibilidade estética e respeito à inteligência das crianças ainda são raras no mercado editorial brasileiro.

Que tipo de conversa vocês esperam que o livro desperte entre adultos e crianças?

Esperamos conversas leves, honestas e acolhedoras, em que as crianças sintam que podem fazer perguntas e os adultos se sintam mais seguros para respondê-las.

Há planos para publicar outras obras de Cory Silverberg ou títulos com propostas semelhantes?

Temos muito interesse em obras que tratem temas complexos com a mesma inteligência, delicadeza e respeito presentes no trabalho de Cory Silverberg. Estamos sempre acompanhando a produção internacional nessa área e avaliando títulos que dialoguem com a nossa linha editorial. Quanto a novas obras do autor, quem sabe? Ficaremos muito felizes se essa oportunidade surgir.

Texto

Serviço

O que faz um bebê

Cony Silverberg

Alcateia Editoral

40 páginas

R$ 69,90

Disponível na Amazon