A fé move montanhas. A frase batida, mas repetida ad infinitum, às vezes costuma funcionar. Caso da goiana Stefânia Leão, 36 anos, que decidiu ganhar a vida nos Estados Unidos e que hoje colhe os resultados do livro devocional Oração: Erga-se com Jesus. A publicação, que se resume a uma jornada de 30 dias estruturada em torno de versículos bíblicos, reflexões breves, orações e ilustrações em aquarela, tornou-se um sucesso de público e de vendas internacionais.
Para se ter ideia do potencial alcançado pela brasileira - que fez o trabalho em parceria com Alexander Debelov - basta dizer que Oração foi o livro do gênero mais vendido na Amazon em maio, junho e agosto de 2025. Também foi o mais comercializado - no mesmo período - na categoria de Oração Cristã. Ocupou o top 3 em Devocionais Cristãos e o Top 5 de Livros Cristãos de Autoajuda na Amazon durante todo o ano de 2025. Com um detalhe: os números se referem ao ranking não apenas dos Estados Unidos, mas das vendas no Brasil e na Itália.

Além disso, Oração ganhou vários prêmios. O “BIBA 2025”, na categoria Oração e Meditação Cristã. Venceu o “Storytrade 2025” no gênero Devocional Cristão. E levou, também, o “Reader`s Favorite Book Award 2025” na área de Cristianismo Devocional e Estudo. Atualmente, aautora tem mais de 50 mil seguidores no TikTok (@stefanialeao), que a permitiram comprar três imóveis no Brasil.
O que torna curiosa a história de sucesso de Stefânia, é que ela nunca teve pretensões de ser escritora. Imigrante brasileira, limpou casas nos EUA quando chegou ao país. As orações apareceram exatamente quando se encontrava em apuros, em um dos piores momentos espirituais da sua vida, segundo relata.
“Foi nesse processo de busca espiritual que a escrita começou a aparecer naturalmente. Primeiro como reflexões pessoais, depois como orações, pensamentos e aprendizados que eu registrava para mim mesma. Em algum momento, surgiu no meu coração a ideia de escrever um livro. Não porque eu queria ser autora, mas porque sentia que aquilo que eu estava aprendendo e vivendo poderia ajudar outras pessoas também.”, explicou Stefânia Leão ao site da Pernambuco.
Hoje casada, mãe de Luan de 15 anos e moradora da Califórnia, a autora explica que o livro sofreu influências de leituras anteriores dos escritores Paulo Coelho e Clarice Lispector, e do estrategista motivacional Tony Robbins, além da própria Bíblia Sagrada.
“Acredito que meu estilo acabou sendo formado exatamente por essa combinação: a reflexão de Clarice, a busca espiritual de Paulo Coelho, a mentalidade de transformação de Tony Robbins e a fé que encontro diariamente nas Escrituras.”, sintetiza.
Além do sucesso inesperado, Stefânia também é conhecida pelo uso do dinheiro ganho com o livro: garante que doa 100% dos royalties. Metade vai para população em situação de rua em São Francisco (onde ela mora) e metade vai para o Pastor Edward Mikwamba em Blantyre, Malawi, no Sudeste da África, cujo ministério atraí mais de 300 pessoas todos os meses com o dinheiro que ela envia. “Trezentas pessoas, todo mês, rastreável”, informa a autora.
Para explicar melhor esse “fenômeno editorial”, o site da Pernambuco entrevistou Stefênia Leão, que detalha como se deu o processo de produção, e como pensa e vive. Confira abaxo.
Como surgiu seu interesse pela escrita?
A escrita não surgiu na minha vida porque eu sonhava em ser escritora quando criança. O que sempre me encantou foi a beleza das coisas. Eu sempre fui muito observadora. Gostava de desenhar o que via, prestar atenção nos detalhes, nas pessoas, na natureza e nas histórias que existiam ao meu redor. Com o passar dos anos, comecei a viver experiências que despertaram em mim muitas perguntas sobre a vida, a fé e a força maior que existe acima de nós. Sempre tive muita curiosidade de entender Deus e o propósito por trás das coisas que aconteciam na nossa jornada.
Foi nesse processo de busca espiritual que a escrita começou a aparecer naturalmente. Primeiro como reflexões pessoais, depois como orações, pensamentos e aprendizados que eu registrava para mim mesma. Em algum momento, surgiu no meu coração a ideia de escrever um livro. Não porque eu queria ser autora, mas porque sentia que aquilo que eu estava aprendendo e vivendo poderia ajudar outras pessoas também. Foi assim que nasceu minha relação com a escrita: da observação, da fé e do desejo de compartilhar esperança.
Quais autores e obras mais influenciaram sua formação literária?
Minha formação literária foi construída por influências bastante diferentes umas das outras. Durante muitos anos, li grande parte da obra de Paulo Coelho. Sempre admirei a forma como ele aborda temas como propósito, fé, destino e transformação pessoal de uma maneira simples, mas profunda. Também me apaixonei pelos escritos de Clarice Lispector. Existe uma sensibilidade e uma busca interior em sua escrita que sempre me chamou atenção. Outra influência importante foi Tony Robbins. Embora ele não seja um autor literário no sentido tradicional, seus livros tiveram um impacto significativo na forma como passei a enxergar crescimento pessoal, responsabilidade e mudança de vida.
Mas, acima de todos eles, a Bíblia sempre foi minha principal referência. Os Salmos, os Evangelhos e as cartas de Paulo me acompanharam em diferentes momentos da minha jornada. Mais do que uma influência espiritual, a Bíblia também me ensinou sobre esperança, perseverança, amor e a importância das palavras. Acredito que meu estilo acabou sendo formado exatamente por essa combinação: a reflexão de Clarice, a busca espiritual de Paulo Coelho, a mentalidade de transformação de Tony Robbins e a fé que encontro diariamente nas Escrituras.
O sucesso de Oração: Erga-se com Jesus mudou sua relação com os leitores e com a literatura?
Mudou completamente… O que mais me transformou foi a percepção de que existe um leitor do outro lado… alguém esperando, sentindo, vivendo aquilo comigo. Isso mudou a minha relação com a escrita inteira. Eu deixei de escrever só para mim e passei a escrever com o leitor no coração. E, olhando para trás, eu vejo que cada palavra que escrevi antes me preparou para escrever Oração. Como se Deus estivesse, em silêncio, me ensinando o ofício para que, na hora certa, eu pudesse usá-lo a serviço Dele.
Por que você escolheu um livro devocional como obra para se firmar como autora?
Sinceramente, não fui eu que escolhi… foi a vida que escolheu por mim. Eu não sentei à mesa um dia e decidi: "vou escrever um devocional". Oração começou como uma conversa silenciosa com Deus em uma das estações mais difíceis da minha vida. Era uma prática pessoal de oração, uma forma de sobreviver àquele momento. Eu nunca imaginei publicar. Quando percebi que aquilo que tinha me salvado podia ajudar outras pessoas, entendi que precisava compartilhar. O livro não foi uma escolha de carreira… foi uma resposta a um chamado. E é por isso que ele tem essa estrutura tão simples: um versículo pra te ancorar, uma reflexão curta pra firmar o coração, uma oração pra ser dita em voz alta, e uma aquarela pra carregar o momento com você ao longo do dia. Cinco a dez minutos por manhã. Só pede a sua presença.
O fenômeno das redes sociais teve papel decisivo na divulgação do livro?
Teve, sem dúvida…As redes sociais democratizaram a literatura de uma forma que eu nunca imaginei. Um leitor no interior do Brasil, na Itália ou nos Estados Unidos pode descobrir um livro através de um vídeo de 30 segundos no TikTok… e isso muda tudo. Mas o que me emociona mesmo não são os números, é ver leitores reais gravando reações honestas, chorando, compartilhando como o livro tocou suas vidas. Temos uma página no nosso site, readtheprayer.com/testimonials, onde reunimos esses depoimentos… e toda vez que leio aquilo, lembro que isso nunca foi sobre mim. É sobre o que Deus está fazendo no coração das pessoas.
Como surgiu a parceria com Alexander Debelov?
De um jeito muito inesperado, como acontece com as coisas boas da vida…
O Alex é um empreendedor brilhante, um Forbes 30 Under 30, fundador da Virool e da Go X. Mas o que poucos sabem é que ele também é artista. Quando ele leu o manuscrito original em português, ele se conectou com a mensagem de uma forma muito profunda. E aí ele me propôs algo que mudou tudo: ele iria editar o manuscrito, escrever alguns dos capítulos finais, pintar trinta aquarelas originais (uma para cada dia do devocional), e levar o livro para o mundo em seis idiomas. Foi uma colaboração improvável… uma escritora em uma estação difícil, e um empreendedor que largou a sala de reuniões pelo pincel. Mas Deus costuma escrever assim, com encontros que ninguém planejou.
Como foi o processo de escrita a quatro mãos?
Foi um processo de muita escuta…Eu trouxe o coração, a oração, a vulnerabilidade. O Alex trouxe o olhar do leitor global, a estrutura, e a arte. Cada capítulo passou por várias camadas: oração, escrita, revisão, ilustração. As trinta aquarelas que estão no livro foram todas pintadas à mão por ele, cada uma feita especialmente para um dos trinta dias. O mais bonito é que nunca foi uma disputa de ego. Foi uma entrega. Os dois estávamos a serviço da mensagem, não do nosso nome na capa. Acho que é por isso que o livro tem essa unidade, mesmo tendo nascido de duas vozes muito diferentes. Escrito em fé, feito com amor… essa é a frase que melhor resume.
Que mensagem você espera transmitir aos leitores nesses 30 dias de oração?
A mensagem mais importante é simples… Deus está mais perto do que a gente pensa. Muitas pessoas sentem que precisam ser perfeitas antes de se aproximar de Deus, mas isso não é verdade. Deus nos encontra exatamente onde estamos… em nossas dúvidas, em nossas lutas, em nossas vitórias, e na nossa vida cotidiana. Eu quero que o leitor entenda que oração não precisa ser complicada. Uma conversa sincera com Deus… isso sozinho já pode mudar uma vida. São cinco a dez minutos por manhã. Trinta manhãs que podem mudar tudo.
Como conciliar fé e literatura sem transformar o livro em um texto exclusivamente religioso?
Essa foi uma preocupação muito grande nossa desde o começo… A gente queria que o livro fosse profundamente cristão, mas que também pudesse ser lido por alguém que está apenas começando a se perguntar sobre Deus. Por isso a escrita é honesta, sem pressa, nunca pregadora… sempre pessoal. As reflexões são pessoais, não doutrinárias. Eu acredito que a melhor literatura espiritual é aquela que respeita o leitor… que oferece um caminho, mas não impõe. Oracao é um convite, não um sermão. Ele só pede a sua presença.
O que mais a surpreendeu na recepção dos leitores nos Estados Unidos, na Itália e no Brasil?
A universalidade… Eu acreditava na mensagem, mas nunca imaginei que ela chegaria a tantas pessoas em países tão diferentes. Ver leitores de todas as origens se conectando com a mesma mensagem foi muito gratificante. Para cada país, a gente repensou a capa do zero. A edição brasileira nasceu com o Cristo Redentor ao amanhecer, banhado pela luz do Rio. A italiana, com um canal veneziano e uma pomba subindo em direção à luz, perto da torre de San Marco. A francesa, com a Torre Eiffel pegando a primeira luz da manhã. A espanhola, com a Sagrada Família em Barcelona. As mesmas trinta manhãs, o mesmo coração em aquarela, mas uma linguagem visual nova para cada povo.
Nos Estados Unidos, os leitores comentam muito sobre a prática matinal, sobre rotina. Na Itália, a recepção tem um lado mais contemplativo, mais artístico, talvez por causa das aquarelas. E no Brasil, o que me toca é a intensidade emocional… o brasileiro lê com o coração aberto, ele chora, ele compartilha, ele reza junto.
Qual a importância das redes sociais para a construção da sua carreira?
Foi fundamental, mas não da forma que as pessoas imaginam… As redes sociais me deram a possibilidade de chegar ao leitor sem intermediários. Sem precisar de uma grande editora, sem precisar de uma campanha milionária. Foi um vídeo, depois outro, depois outro… e de repente o livro estava nas mãos de pessoas em seis idiomas diferentes. Mas o que eu valorizo mesmo não é o alcance, é a proximidade. Eu consigo ler comentários, responder mensagens, ver fotos de leitores com o livro na mão. Isso é um privilégio que escritores de outras gerações não tiveram.
Como você lida com a exposição pública e a relação direta com os leitores?
Eu sou uma pessoa naturalmente reservada, uma mulher de fé silenciosa. Então a exposição não vem fácil para mim. Mas eu entendi que, se Deus colocou essa mensagem nas minhas mãos, eu tenho a responsabilidade de levá-la até onde Ele quiser. E é por isso que essa missão vai muito além do livro. Semana passada, nós organizamos uma ação social em San Francisco, distribuindo pizza, comida e água para pessoas em situação de rua… e junto com cada refeição, entregamos um exemplar do livro. Alguns desses momentos foram tão emocionantes que me lembraram exatamente por que eu escrevi Oração.
Teve um momento que tocou muito o meu coração… a gente tinha dado pizza e água para um grupo de jovens, e quando estávamos indo embora, eu olhei para trás e vi todos eles completamente mergulhados na leitura do livro. Aquilo me marcou profundamente, porque uma coisa é saber que alguém está buscando Deus… outra coisa, completamente diferente, é ver a sua obra nas mãos de alguém que não tem nada, alguém atravessando uma das estações mais duras da vida, e ver essa pessoa absorta nas páginas. Essa imagem vai ficar comigo para sempre.
O TikTok e o Instagram mudaram a forma de fazer literatura?
Mudaram, sim…Hoje, um livro pode encontrar o seu leitor em segundos. Antigamente, era preciso passar por uma série de portas: editora, distribuidor, livraria, jornalista. Hoje, é uma autora gravando um vídeo no quarto dela e um leitor do outro lado do mundo encontrando aquilo no momento exato em que precisava. Mas eu acredito que a essência da literatura não mudou. O que mudou foi o caminho. A palavra continua sendo a mesma força que sempre foi… só que agora ela viaja mais rápido.
Se há uma coisa que eu espero que os leitores lembrem depois de terminar o devocional, é isto…Deus está sempre mais perto do que você pensa.
