Israel Pinheiro estreia na poesia com um amor transnacional

Escritor Israel Pinheiro lança Todo o resto é poesia, onde aborda um amor transnacional, e uma travessia entre geografia, idiomas e afetos

Israel reflete que fugir do lugar-comum é imperativo para todo escritor que se preze. Mas conclui: “Por outro lado, compactuo com a ideia de que tudo já foi dito sobre o amor”.
Israel reflete que fugir do lugar-comum é imperativo para todo escritor que se preze. Mas conclui: “Por outro lado, compactuo com a ideia de que tudo já foi dito sobre o amor”.

Após escrever como “um pugilista das obras de Cortázar” - segundo suas próprias palavras -, publicando livros que se destacam pela linguagem forte e contundente, com a crítica social ditando a narrativa, o escritor Israel Pinheiro estreia na poesia com Todo o resto é poesia (Editora Litteralux, 2026). Uma obra que além de transformar a experiência amorosa em uma travessia entre geografias, idiomas e
afetos, mostra Israel com uma nova postura e serenidade. “Eu recorri à poesia para tentar salvaguardar o sublime da experiência, uma espécie de ardil contra as vicissitudes da memória.”

Dividido em duas partes, Ida e Volta, o livro acompanha um vínculo construído entre Brasil e Argentina, a partir de uma experiência amorosa. Nesse livro, explorando encontros, despedidas, diferenças culturais e o portunhol enquanto território de intimidade e descoberta, Israel baixa a guarda para a pessoa amada. 

Em “Sorria”, entrega-se: “teu sorriso é uma compensação, em vida, por tudo que não haverá depois da
minha morte” 

Após lançamento internacional em Buenos Aires, na Livraria “La Libre”, em San Telmo, a obra chega a Pernambuco oferecendo uma escrita que alterna lirismo, humor e reflexão. Nos poemas, o cotidiano ganha contornos poéticos, enquanto temas como amor, pertencimento, memória, luto e identidade invadem as páginas. Inspirado pela literatura, música, cinema e história argentinas, Israel Pinheiro cria uma narrativa poética que faz do deslocamento uma forma peculiar de olhar para o mundo e para si.

Questionado se encontrou espaço para falar do amor sem clichês, Israel é claro. “Pra mim a questão é se ainda há espaço para dialogar com a urgência e os conflitos do presente sem cair em clichês. Ainda é possível escrever com liberdade, sem imolações às agendas ideológicas contemporâneas dominantes?” .

Nesta entrevista ao site da revista Pernambuco, ele explica o livro, o contato com a Argentina e a mudança de gênero para celebrar o amor. Confira.

Todo o resto é poesia nasceu de uma experiência pessoal. Em que momento você percebeu que essa história precisava ser transformada em poemas?
A idade avança e nos impõe balanços parciais da vida. Em uma dessas meditações eu me dei conta de que já havia perdido a capacidade de revisitar com isenção muitos capítulos da minha própria história, porque o tempo muitas vezes subtrai os elementos benfazejos de uma experiência e nos lega apenas a sensação de mãos vazias. Eu recorri à poesia para tentar salvaguardar o sublime da experiência, uma espécie de ardil contra as vicissitudes da memória.


O que a poesia lhe permitiu dizer que a prosa talvez não conseguisse?
Eu encontrei na poesia o lugar para as minhas comoções líricas. As comoções produzidas pelas descobertas felizes, pelos bons afetos
correspondidos e por gentilezas inesperadas. Em prosa eu talvez seja um pouco como o pugilista de Cortázar, que para vencer, por pontos ou nocaute, necessita delinear uma estratégia. A poesia foi um olhar para dentro e tatear, fazer um Do-in no sentimento. Não é raro que os leitores da minha prosa me perguntem se eu realmente estive em determinados lugares ou se realmente
exerci determinadas profissões; eu me divirto com esses questionamentos, mas sempre aclaro que os textos são ficcionais. Eu acredito que a poesia suscitará no leitor questões de outra natureza.


O livro é dividido em Ida e Volta. O que essa estrutura representa para você?
As dualidades inescapáveis da vida. Há tempo de ir e há tempo de voltar. É também um pouco da minha própria concepção do que é a vida, um breve intervalo entre uma ida e uma volta. O amor é eixo da obra, mas há também uma reflexão sobre pertencimento e deslocamento. Como estes temas surgiram durante a escrita? Surgem a partir da constatação de que em um amor transnacional o outro é muito mais outro. E de que é impossível alcançar verdadeiramente esse outro sem conhecer os seus símbolos, seus chistes, brios pátrios, pequenos prazeres e tantos outros elementos idiossincráticos.


O encontro entre Brasil e Argentina aparece de forma muito forte. Como a convivência com outra cultura influenciou os poemas?
Os poemas refletem a felicidade desse encontro com a Argentina. As boas relações que constitui, os acessos que me foram franqueados; os
sabores, estéticas, ruas, parques e monumentos que me foram apresentados, as histórias que escutei na cozinha de uma típica família portenha, os abraços que recebi. Essa é a matéria-prima dos poemas. 

O portunhol, muitas vezes visto como uma linguagem improvisada, ganha um caráter afetivo no livro. Por que essa escolha?
Eu considero o portunhol um arranjo linguístico genial, mas sobretudo carinhoso. Porque é um esforço comunitário de integração. Revela o carinho que os nossos vizinhos de continente têm por nós. Só existe portunhol na América do Sul por causa do Brasil. Óbvio que com isso eu não estou dizendo que o portunhol é língua ou dialeto, definitivamente não é; mas eu o celebro e cultivo como sortilégio de acercamento. E confesso que a própria noção de que existe um ponto equidistante entre o português e o espanhol, ainda que ilusória, me fascina. E concretamente falando, e eu sempre sorrio quando penso nisso, o portunhol já me salvou algumas vezes.

Quais poetas ou escritores estiveram mais presentes durante a elaboração do livro?
Fundamentalmente, três. María Elena Walsh, Ernesto Sabato e Claudio Conti.

A poesia contemporânea costuma dialogar com a urgência e o os conflitos do presente. Você acredita que ainda há espaço para escrever sobre o amor sem cair em clichês?
Pra mim, a questão é se ainda há espaço para dialogar com a urgência e os conflitos do presente sem cair em clichês. Ainda é possível escrever com liberdade, sem imolações às agendas ideológicas contemporâneas dominantes? Mas, voltando à pergunta original, eu acredito que fugir do lugar- comum deve ser um imperativo para todo escritor que se preze. Por outro lado, eu compactuo com a ideia de que tudo já foi dito sobre o amor. Então a forma que eu vou dizer é absolutamente fundamental, a forma como eu apresento um amor que conecta um nordestino típico a uma metrópole como Buenos Aires é fundamental. E, para mim o mais importante, se como poeta eu logro filiar uma
obra com tantas particularidades a uma tradição universal.

Em vários momentos, o cotidiano é tratado como matéria poética. O que faz um instante comum se transformar em poesia?
Honestamente falando, eu não acredito que tenho a resposta para essa pergunta. Mas para mim poesia não é sobre os nossos deslumbramentos estrepitosos, é sobre as nossas comoções silenciosas. O que eu procuro é ser fiel à minha sensibilidade. Se algo no instante mais prosaico me tocou, há poesia. Se a forma como duas pessoas se cumprimentam na rua me toca, há poesia. Eu não acho que a poesia se revela em grandiloquências e exuberâncias. Para mim, ela se revela em sutilezas e, sobretudo, em delicadezas.


Você escreveu o texto ao longo de muitos anos ou eles nasceram em um período específico da sua vida?
O texto contempla mais ou menos o período de um ano, entre 2024 e 2025, de muitas idas e vindas à Argentina. A decisão de começar a escrever e a conclusão do livro ocorre no mesmo período. E aqui eu retomo o raciocínio da primeira resposta dessa entrevista. Escolhi publicar esses poemas ainda quentes para que, ao olhar em retrospectiva, o tempo não deforme a verdadeira compleição dos sentimentos que me habitaram.


A experiência amorosa retratada no livro transformou também a sua maneira de olhar para Recife e Buenos Aires?
De olhar para Buenos Aires, sim. Ao contrário do que rivalidades pueris podem sugerir, a capital argentina é uma cidade tolerante e multiétnica, constituída de valores cosmopolitas e de cidadãos verdadeiramente interessados em estabelecer diálogos culturais, afetuosos e sobretudo respeitosos com os brasileiros.


O livro é uma celebração do encontro, mas também fala de ausência e distância. O que essas duas experiências ensinaram ao poeta?
Que há muita verdade e muita poesia em um tradicional provérbio de São Tomé e Príncipe: “O que é nosso não será tomado pela chuva”.

Serviço

Todo o Resto é Poesia

Israel Pinheiro

110 páginas

Editora Litteralux

R$ 50