Há duzentos e dois anos, exatamente no dia 2 de julho de 1824, eclodiu em Pernambuco o movimento republicano e constitucionalista conhecido como Confederação do Equador, cuja figura mais conhecida é Frei Caneca. Até agora, uma faceta desse episódio era pouco conhecida do grande público: o papel da imprensa na cobertura do evento.
O lançamento do livro Jornais em Guerra - a Imprensa na Confederação do Equador (18823-1825), do escritor e jornalista Homero Fonseca, que acontecerá nesta quinta, às 19h, no Museu do Estado de Pernambuco, restaura esse vácuo : explica a participação de dezenas de periódicos que atuaram pró e contra os rebeldes, e retrata com detalhes como se produzia jornalismo no começo do Século XIX.
O prefaciador do livro Jornais em Guerra, o historiador George Cabral, detalha o trabalho realizado pelo escritor e jornalista. “Homero Fonseca nos conduz magistralmente por essa época tão tumultuada de nossa história. Analisa 19 periódicos da época, sendo nove deles ligados aos revolucionários e dez produzidos pelos aliados e bajuladores de Dom Pedro I”.
Ele destaca, ainda, que a análise nos revela as formas e estratégias de exposição do pensamento político dos grupos em contenda. “Homero demonstra de que forma os textos eram construídos para captar a atenção dos leitores e cooptá-los para os distintos projetos de poder, valendo-se, por exemplo, de ataques frontais aos editores do partido adversário…O combate se travava no campo de batalha, mas também no âmbito dos círculos de opinião pública que começava a se formar.”
O historiador também chama atenção para o fato que, apesar da grande maioria das pessoas serem analfabetas - tanto do lado dos rebeldes quanto dos governistas - , isso não impedia que as notícias chegassem às massas. “Era corriqueiro o hábito de leitura pública dos textos em tabernas, praças e outros locais de trânsito e ajuntamento. Uma pessoa alfabetizada lia em voz alta e os que não sabiam ler escutavam o que diziam os textos.”
George Cabral explica que Homero teve o cuidado de detalhar como eram os jornais, em tempos tão conturbados de nossa história. “As folhinhas ‘pequenitas’ e feias do século 19 eram um assombro para a época, especialmente no Brasil”, informa. “Os periódicos impressos teriam, a partir daí, praticamente o monopólio da difusão de notícias, até que chegasse o rádio no século 20”
O 2 de julho de 1824 é considerada a data oficial em que o movimento eclodiu, estendendo-se a outros estados – como Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte – e que terminou tragicamente, com a condenação à morte de 31 pessoas, das quais 16 foram executadas.
Pesquisa e livros

Durante a pesquisa, Homero Fonseca optou por ir ao foco do seu trabalho: em vez de se pautar em documentos administrativos, optou por pesquisar diretamente nos jornais. Segundo Homero, a artilharia da imprensa durante a Confederação do Equador era formada por duas dezenas de jornais “que não apenas registraram, como participaram nos papéis de testemunhas e influenciadores do evento histórico”.
Ele também ressalta que a polarização política, presente no Brasil atual, também marcava a sociedade. Em 1823, o Brasil se dividia em dois blocos: os partidários de Dom Pedro I e do império brasileiro e os progressistas representados por defensores do pluralismo de uma confederação.
Para melhor conduzir a narrativa, Homero Fonseca estruturou a obra em três partes. A primeira – “Ciúmes coloniais” – engloba antecedentes históricos, situando o Brasil como um país que entra arrasado no século 19. A segunda parte – “O Galope da História” – faz um passeio detalhado sobre as circunstâncias históricas que terminaram por detonar a Confederação do Equador. E a terceira – “Uma imprensa improvisada” – que é o alvo do livro, ele detalha as características gerais do jornalismo da época: “retardatário, radicalizado até os ataques pessoais, mambembe na forma e candente no conteúdo”.
Entre os periódicos a favor do poder imperial, estavam Diário do Governo, Diário Fluminense, O Espelho, O Espectador Brasileiro, o Cairu. Do lado oposto – contra os conservadores – havia jornais, segundo ele, efêmeros, nascidos da necessidade de propagar a autonomia das províncias, a partir de Pernambuco e Ceará: Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, Escudo da Liberdade, O Tífis Pernambucano (liderado por Frei Caneca), O Argos Pernambucano, Desengano aos Brasileiros, Diário do Governo de Pernambuco e Diário do Governo do Ceará.
Atuando no jornalismo desde a década de 1970, Homero Fonseca também construiu uma trajetória literária consistente, marcada pela diversidade de gêneros, transitando entre o romance, o conto, a crônica, a reportagem, o ensaio e a biografia. Sua estreia em livro ocorreu com Viagem ao Planeta dos Boatos (1996), publicado pela Editora Record, uma grande reportagem sobre o célebre boato do rompimento da Barragem de Tapacurá. Em 2000 lançou a coletânea de contos A Vida É Fêmea, pela Editora Comunigraf, seguida, em 2001, pela biografia A Arte de Viver Teimosamente, dedicada ao jornalista Mário Melo, publicada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Em 2002 veio Pequeno Teatro da Vida, também pela Editora Comunigraf, reunindo crônicas do cotidiano.
Em 2006, Homero publicou Pernambucânia – O Que Há nos Nomes das Nossas Cidades, pela Cepe Editora, estudo sobre a origem e o significado dos nomes dos municípios pernambucanos, obra que ganhou nova edição no ano seguinte. Também em 2007 lançou o romance Roliúde, pela Editora Record, considerado um de seus livros mais conhecidos, inspirado no universo do cinema popular do interior nordestino.
Nos anos seguintes, concentrou boa parte de sua produção na Cepe Editora, onde publicou O Computador que Queria Ser Gente, voltado ao público infantojuvenil; Carlos Garcia: Um Mestre no Meio do Redemoinho, perfil biográfico do jornalista; Tapacurá – Viagem ao Planeta dos Boatos, edição revista e ampliada do livro de 1996; 1968 – Abaixo as Ditaduras, escrito em parceria com outros autores sobre os impactos daquele ano histórico; Blogosfera; Tarcísio Pereira: Todos os Livros do Mundo, biografia do lendário livreiro recifense; À Espera do Tio Alois; e, mais recentemente, Jaraguá – O Herói Inzoneiro, romance lançado pela mesma editora. Ao longo da carreira, Homero Fonseca consolidou uma bibliografia de mais de quinze livros, sempre conciliando a experiência jornalística com a literatura e a valorização da memória e da cultura pernambucanas.
Serviço
Lançamento do livro Jornais em Guerra – a Imprensa na Confederação do Equador (1823-1825) - Editora Araçá
352 páginas - R$ 120
Quando: Nesta quinta-feira, 2 de julho
Horário: 19h
Museu do Estado de Pernambuco
Av. Rui Barbosa, 960, Graças
Entrada livre,