No dia 19 de maio deste ano completam-se quarenta anos da morte de Aderbal Jurema. A menção à efeméride pode ser tão parca como a maioria das efemérides. Talvez os poucos que se lembrem dele registrem a sua atuação política, os cargos na vida pública, e não façam menção ao seu trabalho intelectual. Mas ele foi escritor. Quem faz literatura de qualidade, mesmo quando se envolve na política, merece ser revisitado. Inclusive porque costumam despertar mais interesse menos efêmero os poemas, contos, ensaios e artigos. Conforme o irônico “Gazetilha”, de Fernando Pessoa. Ninguém lê com prazer pronunciamentos, discursos, projetos de lei, relatórios. Exceto quando são escritos por gente como Graciliano Ramos.
Na política a história de Jurema oscila conforme as ondas do Brasil. Os que estavam filiados ao PSD, como era o seu caso, chegavam a ser apelidados de “poderistas”, e os da ARENA – logo que começou a ditadura militar – idem. Por esse último partido foi senador daquele tipo que a imprensa alcunhou de “biônico”.
Alguém que conhece um pouco da história de Aderbal sabe que ele teve um irmão, atuante, como ele, na vida pública: Abelardo. Guardadas as diferenças de contextos e proporções, dá para lembrar que o poeta espanhol Antonio Machado tinha um irmão, poeta como ele. Mas, na época da guerra civil espanhola, ficaram em campos opostos. Antonio teve de rumar ao exílio, enquanto o outro gozava das benesses da ditadura de Franco. Na parte dos intelectuais brasileiros, Abelardo foi quem bebeu a cicuta do exílio.
Não tem este breve artigo o propósito de esmiuçar a biografia de Aderbal Jurema nem fazer um histórico da vida política no Brasil nas últimas décadas. A ideia é muito mais modesta. Chamar a atenção para os seus escritos esgotados e esquecidos.
Faz pouco mais de 300 anos houve uma Academia Brasílica dos Esquecidos. Não tinha muitos membros. Se pensássemos em uma academia de esquecidos atualmente o número dos seus membros compulsórios seria enorme, e nela teria Aderbal assento garantido. Houve em seu tempo quem se perguntasse se sua verdadeira vocação não seria a crítica literária. Na poesia ele não insistiu. Parece ter restringido essa tentativa a estar no livro 26 poemas, publicado, com Odorico Tavares, em 1934. Também escreveu ensaios e trabalhos de interesse histórico e cultural. Um deles é sobre as rebeliões negras no Brasil. Outro sobre os sobrados na paisagem urbana do Recife.
Tendo sido editor e colaborador de revistas – algumas por ele mesmo inventadas, como uma, dos tempos seus na Faculdade de Direito do Recife, teve uma atuação importante no Boletim de Ariel. Quem se ocupa da história da literatura brasileira no século 20 sabe da importância desse periódico. Na sua edição de maio de 1934, Aderbal Jurema publicou o artigo “Literaturas reacionária e revolucionária”. Ele diz, no começo: “Um dia destes Jorge Amado falou na descentralização do romance da metrópole para a província, como eles chamam gostosamente os Estados do norte.”
Existe uma tomada de posição nesse texto. Um tipo de ativismo implícito e explícito, ao mesmo tempo. Jurema nasceu em 1912. Portanto, nesse tempo vivia o romantismo de um ideário de transformação social que sistematicamente foi combatido e nunca triunfou no Brasil.
Sobre José Lins do Rego ele diz, nesse mesmo artigo:
"Situado na corrente dos escritores da direita se encontra o romancista José Lins do Rego, um dos mais talentosos de sua classe. A sua obra literária encerra um paradoxo. Paradoxo que mais se aviva quando analisamos a técnica nova que anima os seus romances. Libertado de todas as escolas, escrevendo seus livros com uma simplicidade de linguagem encantadora e sem preocupações de vernaculismo de qualquer espécie, aceitando tacitamente a teoria de que o meio forja a personalidade do indivíduo, Lins do Rego ainda não se libertou da literatura decadente."
Ainda que não tenhamos notícia de como reagiu José Lins do Rego ao texto, e com as dúvidas de saber se o autor subscreveria o mesmo pensamento uma década depois, esse artigo tem o mérito de provocar debate. Especialmente porque, tratando de um nome consagrado, conclui sua crítica sobre ele deste modo:
“Tudo isso me leva a crer que as dúvidas do menino Carlos de Mello, em Doidinho, são as mesmas dúvidas que hoje assaltam José Lins do Rego, quando luta para se libertar dos sedutores símbolos de uma literatura que há mais de um século vem servindo a um regime de profundas contradições econômicas e de grandes misérias morais."
Um raciocínio assim serve para evidenciar algo importante: não há como separar o político do escritor em Aderbal Jurema. O interesse por interferir na realidade levou-o nos anos de juventude a sonhar com transformações, e na maturidade e velhice, a uma atitude muito mais conservadora. No seu perfil na página da Fundação Getúlio Vargas, temos este dado pitoresco:
“Professor e diretor do Ginásio da Madalena, fechou o colégio por não concordar com o aumento das mensalidades, o que impedia as crianças mais pobres de estudar.”
Seu gosto pela política não se limitou a ser “homem de partido”. Atuou politicamente como intelectual. Não se engane também com sua conclamação a uma literatura revolucionária a alguma simpatia com os comunistas. Muito pelo contrário. Um exemplo: elegeu-se presidente da secção pernambucana da Associação Brasileira de Escritores, derrotando a chapa que recebia apoio dos comunistas.
Porém, todos esses episódios nos parecem menores do que seus poucos livros. Como Provincianas, Insurreições negras no Brasil, O sentido da colonização portuguesa no Brasil, O sobrado na paisagem recifense, Poetas e romancistas de nosso tempo, Niponização da poesia e Os vivos. Por falar em vivos, há muitíssimos escrevendo e publicando nestes tempos de excesso de escritores e escassez de leitores com gosto literário. Talvez por isso mesmo não faltará quem estranhe um artigo como este propondo uma releitura de Jurema escritor. Os mortos, como diria Graciliano Ramos, podem esperar mais do que os vivos – “são os munícipes que não reclamam”. Mas alguns desses mortos – que deveriam ter suas obras digitalizadas e postas à disposição do público – estão mais vivos do que muitos dos atuais vivos (inseparáveis de um óbvio “por enquanto”).