Poeta Luiz Coutinho convida a um passeio com Augusto dos Anjos

Luiz Coutinho Dias Filho é médico, neurocirurgião com CRM e empregos públicos concursados e professor universitário de Anatomia e Neurologia. Seu sonho, que vem realizando cirurgicamente, é ser escritor, especialmente de poesia. A Medicina e a Literatura o levaram a ter uma imensa admiração por Augusto dos Anjos, o poeta do cientificismo, cujos 140 anos de nascimento se comemora neste mês de abril.

Ao se imaginar caminhando pelo Centro do Recife ao lado do Poeta do Eu, Luiz Coutinho escreveu os versos de "Na ponte com Augusto", com o qual ganhou o 30º Concurso de Poesias Augusto dos Anjos, promovido pela Prefeitura de Leopoldina, cidade mineira onde o Poeta do Eu viveu seus últimos meses e veio a falecer. Nesta entrevista ao site da revista Pernambuco, Coutinho revela-se não só um admirador, mas um conhecedor da obra do poeta paraibano.

Como e com que idade você descobriu a poesia de Augusto dos Anjos?
Tinha entre doze e treze anos. Ficava embevecido ao ver meu tio declamar versos de Augusto dos Anjos entre um gole e outro de uísque. Esse tio, Humberto Coutinho, era meu padrinho e despertou em mim o gosto por literatura. Comprei meu primeiro exemplar do “Eu e outras poesias” na “Livro 7” e não esperei chegar em casa, iniciei a leitura lá mesmo, recostado em um dos bancos que existiam na livraria. Já não tenho esse livro, foi tão manuseado que se desintegrou.

O que mais te impressionou quando leu Augusto dos Anjos pela primeira vez?
O que mais me impressionou foi o repertório insólito de metáforas, tinha diante de mim um poeta cujos “Versos de Amor” não soavam com o tom meloso habitual, eles diziam:
“Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.”

Quando os li, fui remetido à minha infância no interior, visualizei-me sentado em meio ao canavial, provando uma cana de colmo largo e aspecto viçoso, porém azeda; depois, quando trouxe à boca o rolete de uma roxinha, fina e esturricada, admirei-me por ser puro açúcar! Augusto dos Anjos mostrava o mundo a partir de uma perspectiva inusitada, e o que vi me tocou profundamente. Outra coisa: eu estava iniciando o curso médico e fascinavam-me os versos exalando cientificismo e abarrotados de termos que eu só tinha visto em tratados de Anatomia e Patologia. A identificação foi imediata, quis saber mais a respeito dele e descobri uma surpreendente coincidência em nossos registros de efemérides: no dia 12 de novembro ele morreu e no dia 12 de novembro eu nasci. Isso reforçou nossos laços.

Qual a influência que Augusto dos Anjos exerceu na sua poesia?
Ele foi antes de tudo um incentivador. Augusto me instigou, deu-me ânimo para fazer versos, penso que as cordas de minha lira nunca teriam vibrado se não tivesse lido o “Eu”. Através de Augusto experimentei o efeito catártico da poesia, ficava aliviado depois de verter o fardo existencial para o poema, fardo que me fazia sentir igual ao sapo de “As cismas do destino”:

“A hipótese genial do microzima
Me estrangulava o pensamento guapo,
E eu me encolhia todo como um sapo
Que tem um peso incômodo por cima!”

Já se livrou da "influência de Augusto"?
A “influência de Augusto” é como tatuagem na alma, estará sempre lá; mas é apenas a primeira de muitas tatuagens, e ainda cabe mais.

Augusto dos Anjos te levou a ler outros autores? Quais?
Augusto se foi com 30 anos e legou-nos apenas um livro. Era pouco, e isso me levou a buscar autores que palmilhassem a mesma estrada. Sabia que não seria fácil, no colégio aprendi que Augusto era único, difícil de enquadrar numa escola literária específica porque tinha um estilo singular. E ele mesmo nos diz isso:

“Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!”

Mas logo descobri que Augusto não estava sozinho, em minha busca deparei com Cruz e Souza, Cesário Verde, Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe.

Quais são os versos ou estrofes mais impactantes ou que te causam emoção ao ler ou declamar Augusto?
Causou-me admiração a dificuldade de encontrar algo que eu não apreciasse no livro de Augusto, pois, na maioria dos livros de outros poetas, o difícil era achar um poema que merecesse ser guardado na memória.
São muitos os versos que me tocam. Para citar alguns, começo, claro, com os tercetos de seu soneto mais famoso:
“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Depois, fecho os olhos e despedaço sonhos inalcançáveis:

“Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”

Em seguida, desdenho as dores da existência, evocando o “Budismo moderno”:

“Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!”

Não posso pôr de lado o “Solilóquio de um visionário”:

“Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que ainda eu suba mais!”

É difícil, mas, se tivesse que selecionar um poema e dá-lo como predileto, não hesitaria em escolher “As Cismas do destino”, talvez porque ele traz Augusto para perto de mim, para o meu Recife, nascedouro e pouso de poetas.

Que versos de Augusto você gostaria de ter escrito?
Não gostaria de ter escrito os versos de Augusto, gosto de saber que foi ele que os escreveu, gosto de associá-los ao poeta esquálido, de faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas, testa descalvada e voz metálica, imaginando-o exatamente como foi descrito por Orris Soares, seu amigo. Augusto e seus poemas são indissociáveis, por isso ele os reuniu em um livro chamado “Eu”. Para degustar plenamente seus versos, imagino-os vindo dele, sendo recitados por ele; poetas comumente são seres solitários, o que mais lhes dá prazer é encontrar almas afins para vibrarem em ressonância, para se irmanarem na poesia.

Você já sampleou versos de Augusto em seu poemas?
Sim. O primeiro verso de “As cismas do destino” figura como primeiro verso de meu poema “Na ponte com Augusto”.

O que te levou a escrever o poema "Na Ponte com Augusto"?
Sou médico e estava sozinho em casa, de sobreaviso num Dia de Finados. Nenhum chamado, raros pacientes internados, um tédio corrosivo. Senti necessidade de sair, de caminhar. Não sei por que cargas d’água decidi refazer o percurso descrito em “As Cismas do destino”; fui até o Marco Zero e de lá voltei passando pela Ponte Buarque de Macedo e Rua do Imperador (onde existiu a funerária Casa do Agra), durante a caminhada recitava mentalmente versos do “Eu”. Nas proximidades da Igreja de São Francisco, deu-me um arrepio e me perguntei se Augusto não estava por perto, afinal era um dia devotado aos mortos. Assim que cheguei em casa, peguei a caneta e a gênese do poema se deu num fôlego só.

Como foi o processo de escrita?
Na maioria das vezes, minha poesia surge por eclosão espontânea, acho difícil fazer versos encomendados, pois são artificiais, falta-lhes o eflúvio das musas. Em mim tudo começa com um estalo no cérebro, chama incubada em brasas que jazem no inconsciente e que se inflamam subitamente com o sopro da inspiração; isso é só o começo, o resto é labor das sinapses, muitas vezes exaustivo, mas, naquele dia, foi fluido e fácil.

Foi trabalhoso o processo de escrever em decassílabo heroico?
A partir de sete sílabas, o verso fica mais trabalhoso por conta das cesuras, porém tenho familiaridade com decassílabos heroicos. Camões teceu Os Lusíadas com esse tipo de verso e era o predileto de Augusto dos Anjos; decassílabos são muito usados pelos poetas, talvez isso decorra de mera fascinação pelo número dez: temos dez dedos nas mãos, contamos de dez em dez, amamos versos de dez sílabas...

O que aconteceria se você encontrasse com Augusto na Ponte Buarque de Macedo?
Acho que isso já aconteceu e resultou em um poema. Ou será que foi apenas devaneio?

A ingratidão é uma das piores feras morais que abate sobre o homem?
Sim, uma pantera voraz sempre à espreita. Lembrando Rei Lear: “Ter um filho ingrato dói mais do que uma picada de serpente”.

A poesia de Augusto dos Anjos salva ou afunda a alma do homem?
Não salva, mas alivia; como disse antes, a poesia de Augusto dos Anjos tem efeito catártico, é o desabafo de um ser que traz
“Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.”