Eu vivi a Ditadura Militar, 1968 - O Grito de uma Geração, Canções que falam por nós e Um olhar interpretativo das canções de Chico Buarque. Com livros assim, o escritor e jornalista Rui Leão integra aquela categoria de autores, que, como dizia Osman Lins, não silenciaram sobre o seu tempo. Nascido em Patos, sertão da Paraíba, ele vive, há décadas, na capital, sem perder o vínculo com as suas raízes. Ele é membro da Academia Paraibana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Nesta entrevista exclusiva à Pernambuco, Rui Leitão faz um balanço de sua trajetória, discorre sobre a temática de algumas de suas obras e opina sobre questões políticas e sociais da atualidade.
João Cabral de Melo Neto falava em “fazer o seco” e “fazer o úmido”. O senhor nasceu no sertão, mas vive no litoral. O que essa travessia diz sobre sua trajetória e fidelidade às raízes?
Tenho procurado, sempre, ser fiel às minhas raízes, tanto por escolha pessoal quanto como posição política e ética de vida. As raízes nos lembram de onde viemos, de quem somos e do que não podemos deixar de ser. Aprendi que negar as origens é uma forma de alienação; afirmá-las, ao contrário, é um ato de consciência histórica. Quem preserva as raízes não vive no passado, mas constrói o futuro com compromisso social e lucidez histórica.
Levo comigo o lugar de onde vim como referência moral e política. Aprendi com meu pai, o historiador Deusdedit Leitão, que recordar é um ato político. A história não pertence apenas aos grandes eventos e às elites, mas também às experiências vividas e às memórias partilhadas.
Nasci em Patos, no sertão paraibano, mas saí de lá aos seis meses de idade, tendo Cajazeiras, cidade natal de meu pai, como cenário da infância. Contudo, nunca me distanciei das minhas origens. Elas permanecem como referência moral, intelectual e afetiva, atravessando minha escrita com um tom de nostalgia crítica.
O telurismo domina sua forma de ver o mundo?
Para mim, o telurismo nasce de uma experiência visceral. Cresci aprendendo que a terra não é apenas chão, mas memória, destino e linguagem. Cabe a nós escutar essa voz antes que seja silenciada. Em um país que despreza culturas regionais e tenta uniformizar identidades, manter-se ligado às origens é gesto de resistência íntima e política.
O olhar telúrico permite compreender que homem e natureza não são instâncias separadas. A voz da terra atravessa gerações, molda sensibilidades, orienta modos de ser. Escrever é uma tentativa de preservar essa voz e impedir que ela se perca no esquecimento imposto pela história oficial.
Um dos seus livros mais recentes, Eu Vivi a Ditadura Militar, tem provocado debates. O que o distingue no conjunto da sua obra?
Eu Vivi a Ditadura Militar nasceu da inquietação diante do esquecimento e das tentações revisionistas que buscam naturalizar o autoritarismo como solução política. Senti que poderia contribuir para uma consciência histórica mais lúcida, capaz de oferecer às novas gerações uma visão crítica dos 21 anos de ditadura iniciados em 1964. Conhecer esse passado é condição para que a liberdade nunca seja negociada.
No livro, exercito a interpretação de um tempo histórico do qual fui, por vezes, protagonista, mas, sobretudo, testemunha. Recorri a documentos, pesquisas e entrevistas com personagens que sobreviveram às atrocidades do regime. A memória, quando se transforma em escrita, deixa de ser lembrança individual e passa a constituir pensamento coletivo.
Já fiz isso, em 2013, quando lancei meu primeiro livro sobre a ditadura, 1968 – O Grito de uma Geração. Nele, narro, obedecendo a ordem cronológica, acontecimentos que fizeram daquele ano um momento revolucionário, em todos os sentidos, quando estive presente em muitos deles na condição de militante da política estudantil. A geração que viveu aquele ano assistiu à sociedade passar por muitas transformações. A palavra de ordem era contestação e nos deixou um legado cultural e político importante.
Continuei buscando compreender a ditadura não apenas como experiência vivida, mas como estrutura de poder, linguagem política e cultura do medo que moldou comportamentos e mentalidades. Percebi que não foi apenas um regime de exceção jurídica, mas um sistema de produção de silêncios e narrativas oficiais que tentavam sequestrar a própria ideia de verdade. Rever essa fase truculenta e traumática da nossa história é colaborar com o fortalecimento do processo democrático que esteve recentemente ameaçado.
Viver é diferente de apenas testemunhar. Como foi escrever Eu Vivi a Ditadura Militar e que utilidade a obra tem para as novas gerações?
Escrever o livro foi cumprir um dever com a memória coletiva. Não foi apenas lembrança pessoal, mas ato político, recusa ao negacionismo histórico que tenta absolver o Golpe de 1964 e seus protagonistas.
Muitas violações foram silenciadas ou relativizadas, como se o esquecimento pudesse servir de absolvição moral. Narrar essas experiências é romper o silêncio imposto e confrontar tentativas de reescrever a história. Conhecer criticamente o passado é condição para consolidar uma democracia social, capaz de enfrentar as estruturas de desigualdade e exclusão.
Alguns historiadores têm preferido “ditadura civil-militar” a “ditadura militar”. Concorda com essa sutil modificação no modo de nomear aquele período?
O tema tem suscitado um debate historiográfico com posições que se revelam com formas diferentes de compreender a memória e a responsabilidade histórica do período. Ainda que encontremos historiadores que defendem o termo “ditadura militar”, sob o argumento de que o núcleo decisório do poder esteve nas mãos dos generais presidentes e da hierarquia das Forças Armadas, eu prefiro me associar aos historiadores que defendem a tese de que o Golpe de 1964 não foi apenas uma aventura militar, mas, também, um projeto civil. Empresários, grandes grupos econômicos, a mídia dominante, lideranças políticas, setores da classe média e parcelas da Igreja Católica deram suporte ideológico e político à ruptura democrática. A história não pode ser contada apenas a partir dos quartéis, mas também dos ambientes onde se conspirou contra a democracia.
Não é um debate exclusivamente acadêmico. É memorial e político. Discutir a terminologia mais apropriada para aquele regime ditatorial termina sendo uma forma de escolher como narrar o passado e distribuir responsabilidades. Afinal, a memória não é só registro de lembranças, é, também julgamento moral e político do que fomos e do que não queremos voltar a ser.
Economia, tecnologia, comunicação, patrimônio, administração pública: como conciliar tantas áreas com o trabalho intelectual?
O trabalho intelectual não é fuga da realidade, mas forma profunda de intervenção nela. Conciliar vida profissional e pensamento exige disciplina do tempo e do espírito. A vida prática impõe urgências; o pensamento exige silêncio, continuidade e interioridade. Essa conciliação é uma construção cotidiana.
A experiência profissional, longe de ser obstáculo, pode ser matéria-prima para a reflexão crítica. Conciliar é integrar vida e pensamento e resistir à lógica que transforma o intelectual em mero gestor de tarefas.
A Paraíba esteve no “olho do furacão” que resultou na Revolução de 30, desdobrada no Estado Novo. Além desse, em diversos outros momentos da história, a Paraíba vivenciou muitos conflitos políticos, trocou o nome da capital em homenagem a um político e tem na própria bandeira a marca de um episódio histórico de natureza política. Há, por assim dizer, no DNA da Paraíba, uma vocação para o conflito?
Vivi minha infância e adolescência em um ambiente em que a história era assunto de mesa e de sala. Ouvi nomes, datas e episódios como quem escuta lendas, sem perceber que eram matéria do presente. A política tinha rosto, sobrenome, família — e quase sempre conflito.
Meu pai dizia que o assassinato de João Pessoa, em 1930, não matou apenas um homem, mas mudou o destino do país. Tornei-me adulto com a sensação de que a Paraíba, pequena no mapa, foi grande na história. Talvez por isso eu nunca tenha acreditado em consensos fáceis. Dela herdei a necessidade de lembrar, escrever e testemunhar — como se a memória fosse também uma forma de luta.
A figura de João Pessoa, seu assassinato e a comoção nacional que se seguiu, transformaram a Paraíba em território de memória e de martírio político, inscrevendo o estado na narrativa fundadora da chamada Revolução de 1930. Assim, a postura paraibana naquele momento, não pode ser lida como um episódio regional, mas como uma intervenção decisiva na história nacional, marcada por tensões entre modernização, autoritarismo e projeto de nação
Como defender a política e o humanismo em tempos de degradação?
Defender o humanismo hoje é afirmar que nenhuma cultura é inferior e nenhuma vida pode ser reduzida a estatística. A política não pode ser apenas técnica de poder, mas ética de convivência.
Quem viveu a ditadura sabe que a degradação não começa com tanques nas ruas, mas com a indiferença, o desprezo pela verdade e o riso diante da injustiça. Escrever, lembrar e testemunhar tornaram-se, para mim, formas de militância da memória.
Defender a política e o humanismo é afirmar que ainda vale a pena acreditar no “nós”, na solidariedade e na democracia como construção cotidiana, imperfeita, mas insubstituível. É manter acesa a chama da memória e da dignidade humana, mesmo quando o vento da degradação tenta apagá-la.