Um encontro a quatro mãos com endereço certo

Bruna Maciel e Fábio Lucas trocaram correspondência durante um ano. Textos foram reunidos no livro "Encontro escrito à mão: cartas sobre cartas", com lançamento na Academia Pernambucana de Letras

Um livro que celebra a pausa em meio ao ritmo acelerado da vida será lançado neste sábado (11), às 16h, na Academia Pernambucana de Letras. Encontro escrito à mão: cartas sobre cartas, de Bruna Maciel e Fábio Lucas, nasce de uma troca epistolar real entre os autores, mantida por mais de um ano, como gesto consciente de desaceleração e presença.

As cartas reunidas no volume refletem sobre o ato de escrever em um tempo que exige respostas imediatas. Fábio observa que “as pessoas atravessam os dias em velocidade 2x ou 3x”, enquanto Bruna destaca o livro como um convite a recuperar o ritmo da escuta. A obra, com prefácio de Lourival Holanda, dialoga com a tradição da correspondência e propõe um olhar atual sobre o silêncio, a espera e o não dito.

O projeto se estende para oficinas de escrita de cartas conduzidas pelos autores, que defendem a escrita manual como gesto de atenção e elaboração. Bruna coordena o estúdio literário Faz&Conta (@faz_e_conta), dedicado à criação e formação de escritores. Fábio é o criador do Livronews (@livronewsnoinsta), espaço de curadoria e mediação literária.

Encontro escrito à mão: cartas sobre cartas tem lançamentos programados para São Paulo, na Livraria Martins Fontes (dia 23, às 18h) e em Poços de Caldas, na Flipoços (dia 26, às 10h). O exemplar custa R$ 60.

Para não fugir ao estilo do livro, Bruna e Fábio conversaram sobre a experiência correspondida com o jornalista Marcelo Pereira.

PERNAMBUCO - Quando vocês se conheceram?
FÁBIO LUCAS - Faz pouco tempo, apenas alguns anos, por afinidades que já existiam antes mesmo do encontro… literatura, linguagem, esse interesse pelo que atravessa as palavras. Quando nos encontramos pela primeira vez, em um evento do Livronews na Academia Pernambucana de Letras, foi como um reconhecimento.
BRUNA MACIEL - Eu sinto isso também. Foi mais um reconhecimento do que um começo. Como se já existisse um campo comum ali, de escuta, de interesse pela escrita e pelas experiências que pedem linguagem. A partir daquele primeiro encontro, acho que em 2022, não deixamos de criar juntos. E fomos mantendo uma pequena tradição: um café literário, pelo menos uma vez por mês.

PERNAMBUCO - Como surgiu a ideia de trocar cartas? Foi um projeto pensado ou espontâneo?
BRUNA - A ideia veio de um encontro que parecia mesmo escrito à mão, entre dois momentos de vida. Eu estava ministrando oficinas individuais sobre cartas para os alunos do Faz&Conta, investigando essa escrita mais íntima, mais direcionada ao outro. E, em um dos nossos cafés literários, percebemos uma grande sintonia.
FÁBIO LUCAS - Porque, ao mesmo tempo, eu estava mergulhado nas cartas de Carlos Drummond de Andrade, estudando essa forma de escrita com mais profundidade, depois de participar como mediador de uma série de conversas com especialistas na obra epistolar de Drummond, para o Flitabira. Em uma conversa, pensamos: “por que não damos uma oficina de cartas juntos?”. Começamos com as oficinas e, depois de algumas turmas ministradas, eu virei para Bruna e propus: “E se a gente trocasse cartas sobre as cartas?”, quase como um experimento. A ideia era simples: ver até onde isso iria e juntar todo o material. Ali nasceria um livro. E nasceu.

PERNAMBUCO - Quem escreveu a primeira carta?
BRUNA MACIEL - Fábio fez o convite, então eu escrevi a primeira carta. E foi Interessante, porque eu sabia que ali começava uma troca intensa. Havia uma folha inteira em branco, aberta, cheia de possibilidades para eu puxar aquela conversa.
FÁBIO LUCAS - Naquele momento inicial, sabíamos apenas que queríamos conversar sobre temas que já atravessavam nossas oficinas: por que escrever cartas, como escrever cartas, para quem escrever cartas… Mas não sabíamos o que iríamos encontrar pelo caminho.

PERNAMBUCO - Como se deu a troca de cartas? Vocês utilizaram os Correios ou a troca se deu pessoalmente? Qual o motivo dessa escolha?
BRUNA MACIEL - Sempre em mãos. Isso foi muito importante para o processo. A entrega fazia parte da experiência: o envelope lacrado, o café, o sorvete, o tempo do encontro.
FÁBIO LUCAS - A escolha foi consciente. A carta já carrega um tempo próprio, e a entrega pessoal intensifica isso. Não queríamos abrir mão desse gesto. Sempre foi um momento especial, a entrega da carta para o outro.

PERNAMBUCO - De que temas falam as cartas? Vocês discutiam previamente os assuntos?
FÁBIO LUCAS - O livro acompanha a própria ordem da nossa troca de cartas, que segue os temas que trabalhamos nas oficinas.
BRUNA MACIEL - Os capítulos nascem de perguntas centrais – por que escrever cartas, para quem escrever, como escrever… – refletindo tanto o percurso das oficinas quanto o nosso diálogo. Este era o único combinado: o tema de cada capítulo. Mas as cartas sempre acabavam atravessadas pelo tempo em que eram escritas, pelas vivências entre uma carta e outra, por lembranças e reflexões pessoais, como quase toda carta traz. Acho que o maior acordo entre nós era não interferir no curso natural das palavras quando elas brotavam.

PERNAMBUCO - As cartas são, para a maioria das pessoas, espaços onfessionais, sendo as mais conhecidas aquelas de amor, algumas belas outras tantas banais. Há também cartas que são relatos familiares, históricos, de prestação de contas, as que tem cunho literário, que foi o caminho que vocês seguiram. Vocês se espelharam na correspondência de alguns escritores?
FÁBIO LUCAS - Há referências, claro. A tradição das cartas literárias é muito rica. Em algumas cartas, conversei com Bruna sobre trocas conhecidas, mas não houve uma tentativa de reproduzir um modelo. As referências estão presentes, mencionadas, mas não foram roteiros seguidos.
BRUNA MACIEL - A gente se aproxima mais da experiência do que da referência direta. A carta como espaço de presença. Foi isso que nos guiou, mais do que uma influência específica.

PERNAMBUCO - Algumas cartas se tornaram conhecidas pelas polêmicas que causaram quando se tornaram públicas. Em algum momento vocês chegaram a divergir um do outro e polemizar um assunto?
BRUNA MACIEL - Acredito que as nossas cartas revelam muita sintonia em diversas reflexões, mas também perspectivas diferentes, olhares distintos, leituras de mundo singulares que se complementam. E isso sempre apareceu como soma. Nenhum de nós tentou sobrepor um ponto de vista.
FÁBIO LUCAS - Acho que é justamente aí que a conversa ganha força. A carta permite esse espaço de diferença sem ruptura, que sustenta e estimula o diálogo. Além disso, o propósito comum de escrever sobre cartas e as experiências das oficinas, já criava um território de consenso como ponto de partida.

PERNAMBUCO - Cartas muito pensadas ou pensadas literariamente não perdem um pouco da sua espontaneidade?
FÁBIO LUCAS - Acho que não. Pensar a linguagem não elimina a verdade do que se diz. Pelo contrário, pode aprofundar. Mas de todo modo, tentamos evitar essa armadilha: não elaboramos uma pauta para desenvolver em cada carta. A mente, o coração e a mão estavam livres para se jogar em cada linha.
BRUNA MACIEL - Eu acredito que é possível manter a espontaneidade partindo de um cuidado inicial, de uma provocação para o texto nascer. No Faz&Conta, trabalho justamente esse lugar: sustentar a escrita, escutar o que quer ser dito. A carta pode partir de um tema central – por que escrever, para quem escrever – e, ainda assim, nascer de um lugar muito verdadeiro e seguir um curso próprio.

PERNAMBUCO - Qual o cuidado que vocês tomaram para as cartas não parecerem uma autoajuda literária?
BRUNA MACIEL - A gente não escreveu com a intenção de ensinar ou oferecer respostas prontas. Mas eu acredito muito no potencial de elaboração que a escrita tem. A carta pode ser um espaço de atravessamento, de escuta, de reorganização de si. Então não vejo como um problema se ela tocar nesse lugar. O nosso cuidado foi não simplificar a experiência, porque a carta é uma potência que não pode ser reduzida a uma única dimensão, entre tantas possíveis.
FÁBIO LUCAS - Isso. A carta não se propõe a oferecer respostas prontas, mas também não se afasta das dimensões mais íntimas de quem escreve. Pelo contrário, ela muitas vezes se aproxima delas com ainda mais profundidade. O que buscamos foi preservar essa complexidade, sem reduzir a experiência a um caminho único. E mais: não sacralizamos as cartas, nem tratamos a troca de cartas com reverência nostálgica. Acreditamos na potência das palavras, da escrita e da leitura, e expomos, no livro, o que as cartas nos dizem nesse contexto.

PERNAMBUCO - Quase toda carta tem um endereço. Qual o destinatário das cartas que vocês escreveram?
FÁBIO LUCAS - A carta sempre tem um destinatário, ela é, por natureza, dirigida. Há um gesto de direcionamento que faz parte da própria essência da carta. Mas, ao se tornar livro, esse movimento se amplia. O que antes era uma escrita destinada a alguém específico passa a se abrir a outros olhares, sem perder essa origem. A carta continua sendo chamada, mas agora encontra múltiplas escutas.
BRUNA MACIEL - O combinado inicial era justamente este: escrever de forma livre, de Bruna para Fábio e de Fábio para Bruna. Sabíamos que poderíamos mergulhar nos nossos pensamentos porque, ao final, teríamos a chance de editar. O interessante é que, quando lemos todas as cartas juntas, praticamente não houve edição. Gostamos do resultado como ele se apresentou. E, de algum modo, sentimos que, depois de alcançarem seus destinatários iniciais, as cartas também poderiam se abrir ao público, da forma como foram escritas. Começou como uma conversa entre nós, mas hoje encontra outras pessoas. E cada leitor acaba se tornando, também, destinatário.

PERNAMBUCO - Todas as cartas foram entregues ou ficaram cartas guardadas no fundo da gaveta? Durante o processo, vocês rasgaram muitas cartas?
BRUNA MACIEL - Eu mergulhei no processo e toda carta que pediu para nascer, eu deixei nascer. A partir do momento em que surgiam, eu sentia que precisava entregá-las do jeito que vieram. Tem até uma carta em que reflito sobre essa divagação de assuntos… falo que não sei bem como fui de um ponto a outro, numa escrita sem edição, na madrugada. Mas segui escrevendo e entreguei exatamente assim. Também preciso destacar que Fábio sempre foi um interlocutor maravilhoso. Ele me deixou muito à vontade para uma escrita completamente livre. Mesmo sabendo que estava lidando com alguém extremamente intelectual, culto e denso, eu também sabia que ele não usa o conhecimento para afastar. Muito pelo contrário, é extremamente acolhedor. Então eu já intuía que Fábio acolheria a minha escrita. Isso, sem dúvida, sustentou muito o meu processo e fez com que eu não rasgasse nenhuma carta ao longo dessa jornada.
FÁBIO LUCAS - A carta carrega uma escolha: o que vai e o que fica, o que se diz e o que ainda não pode ser dito. Nem tudo que se escreve precisa ser entregue, mas, no nosso caso, havia uma confiança no próprio gesto da escrita. A carta vinha como vinha, e era acolhida assim. Não, não rasguei nenhuma, e todas saíram de uma vez só, sem hesitações nem correções. A impressão que ficava, na verdade, era que havia muito mais para ser dito…