Uma violência infiltrada que ainda perturba e sufoca

Escritor e crítico literário Cristiano Ramos lança o primeiro romance, "Mil Novecentos Setenta Cinco" pela editora Patuá

"O que mais me incomoda atualmente é essa falta de rigor e de honestidade", afirma Cristiano Ramos, que estreia como romancista

1975 talvez tenha sido um dos anos mais ambíguos da ditadura. Em muitos casos, a ambiguidade é a linguagem do medo. O regime falava em abertura “lenta e gradual”, enquanto os porões continuavam funcionando sob máxima brutalidade. Era o ano do assassinato de Vladimir Herzog. Não eram mais os tanques na rua, embora os quartéis estivessem sempre de prontidão, mas a violência morava nos corpos.

Mil Novecentos Setenta Cinco, o romance de Cristiano Ramos, entende isso. A violência não está ali apenas como fato político, mas como infiltrada psicológica, presente por décadas até hoje. Ela está na respiração dos personagens e das pessoas reais que somos agora, quem passou por aqueles tempos e quem terminou herdando esses medos.

E há algo poderoso no fato de Pernambuco atravessar essas páginas como fantasma e raiz. O Recife de 1975 ainda carregava as chagas abertas desde 1964: perseguições, exílios, silêncios. O fracasso de tênues utopias políticas e culturais que haviam florescido antes. O golpe de 1964 destruiu violentamente todas as possibilidades. De entrada, em 1964, o Movimento de Cultura Popular foi fechado. Livros foram apreendidos. Artistas e estudantes presos ou exilados. Professores, a exemplo de Paulo Freire, no ano inicial do golpe. Muitos intelectuais pernambucanos passaram a viver sob vigilância constante. Gente do campo caçada e morta.

Em 1975, o Recife já não era mais aquele da esperança coletiva dos anos 60. Era uma cidade marcada pelo terror, pela clandestinidade e pelas ruínas de muitas utopias.

O romance de Cristiano Ramos é uma metonímia sem buscar generalizações. Sociologias. Jornalismos. Retratos. Cinema. Desforra. Isso fica bem na escuta do leitor ou da leitora. Seu romance se dá numa cidade moderna, misturada a lembranças de engenhos decadentes, lembranças ferruginosas da infância, do barro, de casas antigas que bem podiam ter sido lares, se não viesse a quebra... salas onde familiares da personagem estão até hoje mortos em eternos velórios, sob a repressão política em sua forma mais funda.

Alguns trechos nos enganam (?) quando parecem diário. Outros lembram poesia a explodir de granadas, em meio à narrativa, confissão, delírio... relatório de uma sobrevivente: Marina. Não, uma não. Muitas Marinas. Torturadas, desacreditadas, apaixonadas; intelectuais, amantes da literatura, militantes esmagadas tanto pela repressão do Estado como também pela militância machista, armada ou não. Mil Novecentos Setenta Cinco mostra como a ditadura brasileira foi também uma máquina de destruir intimidades.

Um dos pontos mais bonitos do livro é notar a relação dos personagens com a leitura. Leem para sobreviver: Lavoura Arcaica, de Nassar; Zero, de Loyola, poemas, jornais, bilhetes, canções. Nesta entrevista, o romancista fala um pouco sobre suas razões.

Mil Novecentos Setenta Cinco sai pela editora Patuá e será lançado neste sábado, 23 de maio, a partir das 16h.

Entrevista com Cristiano Ramos

PERNAMBUCO Não há como o entrevistador fugir da pergunta: o crítico literário resolveu virar vidraça agora escrevendo um romance?
CRISTIANO RAMOS Virei desde o primeiro livro, o Muito antes da meia-noite (2015). Mas, como era de poesias – e tanto eu quanto a editora não fizemos lá muita divulgação –, foi bem tranquilo.  Não fui percebido, tampouco lido. E o teto já era de vidro, né? Passei década como apresentador de televisão, em programa de debates (naquela época já muito distante, na qual os debates políticos eram viáveis). No mais, quem liga para críticos literários? Somo espécie em extinção, da qual só se fala vez por outra, quando as redes sociais criam alguma polêmica enviesada. Aí, atiram algumas pedras, e a gente corre de volta para o mato, onde duas ou três dúzias de leitores dão pela nossa existência.  

PERNAMBUCO Seu romance evita transformar a ditadura em cenário histórico e leva tudo para dentro dos personagens. Isso veio desde o começo?
CRISTIANO RAMOS Nada foi planejado. Eu precisava era de dinheiro, para bancar projetos poéticos que nenhuma editora convencional toparia. Comecei o Mil novecentos setenta cinco para tentar a grana de um concurso. Mas, nos dois fins de semana em que foi escrito, tudo mudou. Foi um sopro que varreu tudo por aqui, bagunçou a casa, a minha cabeça, planos. Creio que o prazo apertado também contribuiu para que os principais cenários estivessem dentro cabeça ou do apartamento onde a protagonista (poeta e guerrilheira) vive seus derradeiros sete dias. O título (por extenso e sem artigos) veio desses lances: contagem regressiva, apagamentos e o fato deste 1975 do livro ser uma espécie de centro de gravidade simbólico – no qual atraí e reinventei fatos ocorridos anos antes, ou depois.

PERNAMBUCO Pernambuco aparece muito no livro, mas sem virar paisagem turística ou mero regionalismo. Como você trabalhou isso?
CRISTIANO RAMOS Nem apareceria. Tudo veio pela mudança no gênero da narradora. Quando comecei a escrever, era uma voz masculina, que não funcionou. Talvez porque o personagem estava parecido demais comigo. Ao decidir pela Marina, tudo que me chagava já passava por esse filtro, do distanciamento (que descobri ser tão fundamental para minha prosa). Fiquei despreocupado porque filmes, canções, livros, ideias e outros tantos lugares passaram por essa migração, antes de se inscrever nas memórias e discursos da protagonista – marcada por mudanças, pelo movimento, pela sensação de urgência, de que o essencial era seguir em frente e lutar... De que tudo é passagem.  

PERNAMBUCO O livro mistura poesia, memória e narrativa de um jeito muito arbitrário. A forma veio junto da história ou apareceu depois?
CRISTIANO RAMOS Além de tudo que já citei, tem a questão dos livros que aparecem logo primeira linha. As três leituras que a Marina percorre em seus últimos dias de vida: Zero, do Ignácio de Loyola Brandão, Dentro da noite veloz, do Ferreira Gullar, e Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar. Eles são o marco inicial de todo o processo. Estavam do meu lado, sobre a mesa, porque eu planejava ensaio sobre eles (que têm em comum o fato de suas primeiras edições no Brasil serem justamente de 1975). Daí o ano, os trechos dessas e de outras obras, as muitas canções da época (citadas com ou sem créditos) e outras incontáveis referências desse surto criativo. Confesso que nunca passei por isso. Geralmente, sou extremamente racional e lento. Meus textos, quando conseguem nascer, sofrem com o excesso de rigor e reflexão. Escrevi em dois fins de semana o dobro do que eu costumo produzir em dois ou três anos.

PERNAMBUCO As mulheres do romance passam também por violências dentro da própria militância. Você queria trazer essa discussão para o centro do livro?
CRISTIANO RAMOS Ah, sim. Esta é uma das marcas que resultaram da mudança no gênero da protagonista. Sei que não tenho o “lugar de fala”, que sequer sou historiador ou pesquisador do tema. Mas ter uma personagem mulher implicava violências estruturais de antes, durante e depois da luta armada. Essas mulheres – as tantas Marinas que ainda esperam pelo devido resgate e reconhecimento – já se engajavam na resistência à ditadura depois de terem resistido a outras incontáveis formas de opressão. E, mesmo entre os companheiros de movimento estudantil, vida partidária ou guerrilha, precisaram enfrentar a invisibilidade social, as desconfianças, cobranças.
Isso fica muito claro e dramático, por exemplo, nos depoimentos daquelas que sobreviveram à tortura e à “Torre das Donzelas” (ala feminina do Presídio Tiradentes, para onde foi levada, entre outras, a Dilma Rousseff). É comum encontrarmos falas onde elas assumem que, ao serem libertadas, carregavam uma complexa e dolorosa sensação: de que ali, entre as grades, ainda que sob tanto terror, elas sentiram uma liberdade e uma afirmação que jamais experimentaram em suas vidas domésticas ou profissionais. Terrível isso, né?   

PERNAMBUCO Literatura, música e leitura aparecem o tempo inteiro no romance. O que esses personagens procuram nos livros?
CRISTIANO RAMOS Apesar de serem personagens muito diferentes, tanto a protagonista quanto seus algozes e a verdadeira narradora (que não é póstuma, e se revela progressivamente ao longo do romance) têm alguma relação com livros. Não sei o que procuram, mas penso que eu era movido pelo conhecido tema de como a leitura, a cultura e a erudição não garantem pessoas melhores. Longe disso. Talvez, hoje, os mais jovens não tenham tanto essa coisa na cabeça. Porque, nos últimos tempos, a barbárie tem sido tocada por gente que não lê nem placas de trânsito ou bulas de remédio, que dirá literatura!

PERNAMBUCO O crítico atrapalha o romancista na hora de escrever? Ler e analisar tanta literatura deixa alguém mais travado ou mais livre para escrever?
CRISTIANO RAMOS Isso é muito pessoal. A própria imagem do que seja um crítico é para lá de aberta e problemática. Dia desses, um escritor e resenhista cravou que fazer literatura é muito mais difícil do que comentá-la. Ele praticamente resumiu o crítico a um mero aplicador de fórmulas, uma espécie de burocrata do mercado editorial.
Vivo em outro mundo. Nesses quase trinta anos de crítica, da resenha mais simples ao ensaio mais exigente, sempre sofri horrores. Porque sou obsessivo. Quero ler tudo (ou quase) de (e sobre) cada autor, além de referências outras que possam oferecer janelas e pontes interessantes. Sem falar que não uso fórmulas. Cada livro me pede uma abordagem diferente, uma construção técnico-teórica própria. E, por fim, se não consigo agregar nem que seja uma pequena novidade, fico doente. Prefiro o risco de agregar uma grande bobagem à segurança de apenas repetir o já dito. Talvez por isso eu viva com essa cara de quem acabou de voltar da guerra.

PERNAMBUCO O que mais incomoda você na crítica literária brasileira hoje? E na ficção brasileira?
CRISTIANO RAMOS Passei alguns anos parado, em autoexílio, cuidando da saúde, da casa, da minha família. Começou lá na pandemia, quando inclusive abandonei o doutorado em Teoria da Literatura, pela Unicamp. Quase tudo havia perdido o sentido, e eu precisava zelar sobretudo pelo chão que me restava, pela saúde mental e pela vida das pessoas que amo. Quando saí da caverna, estava renovado, com muita energia para começar a lidar com essa realidade das redes sociais, para reencontrar as pessoas da nossa tão complicada bolha literária, para ler, e ler, e ler. Nisso, confesso que o que mais tem me incomodado é a sensação de que todo mundo precisa dar opinião – apressada, convicta e feroz – sobre tudo. Sem, contudo, pagar o preço óbvio: dedicar tempo e razoável honestidade nesses julgamentos.
Dou exemplo: monte de gente está por aí, animada, lançando sentenças genéricas sobre a “literatura feminina” – algo que eu nunca soube o que era, e cada vez tenho menos ideia. Para citar apenas autoras que li ou reli em 2025, como esse rótulo pode dar conta de Luci Collin, Micheliny Verunschk, Renata Pimentel, Clarice Freire, Julia Codo, Adriana Lisboa, Socorro Acioli, Natalia Timerman, Ana Martins Marques, Alice Sant’Anna? É ridículo. É isso o que mais me incomoda atualmente, essa falta de rigor e de honestidade – que geralmente chega embalada numa capa hostil, carregada de ódio mesmo. Por isso, nunca fui de escrever sobre temas amplos demais, de sair tecendo impressões pomposas sobre grandes cenários. Sou daqueles leitores e críticos que gostam de ler, estudar, escrever e papear sobre cada escritor, cada livro, sem a necessidade de empurrá-los e misturá-los nas gavetas da moda.

PERNAMBUCO Você escreve já imaginando como um crítico vai ler o livro?
CRISTIANO RAMOS Não. Quando faço crítica, meu leitor-modelo é uma mistura dos meus interlocutores mais próximos. Já quando escrevo poesia, o principal alvo sou eu mesmo (ou quem imagino ser). E, neste primeiro romance (que deveria ter sido só um meio de conseguir alguma grana), enquanto o surto me tomava, a preocupação que chegou foi de construir algo digno aos olhos das minhas amigas, ex-professoras e ex-namoradas (com quem tanto errei, certamente); assim como das mulheres que dão sentido à minha vida, que me fazem seguir em frente!
Veja que é algo próximo, mas diferente da preocupação genérica com mercado, tendências e cancelamentos! O livro se tornou esse misto de acerto de contas com quem fui e com aquele que tento me tornar, e também com a esperança (que muitos hão de considerar tola) de que a minha pequena Ester, quando crescer e ler o romance, sinta algum orgulho do pai. Ou seja, coisa demais! Certamente não dei conta de tudo. Mas torço para não ter ficado muito longe.

Serviço:

Encontros, conversas e lançamento do romance
Mil Novecentos Noventa Cinco, de Cristiano Ramos 
23 de maio, sábado
Instituto Casa Astral
Rua Joaquim Xavier de Andrade, 104
Poço da Panela, Recife

16h

Mulheres na arte: representação, autoria, presença
Flavia Gomes, Olívia Mindêlo, Renata Pimentel

16h50

1975 e depois: entre memórias e palavras
Adriana Dória Matos, Samarone Lima, Sidney Rocha

17h40

Mil Novecentos Setenta Cinco e depois: um livro e outras vertigens
Renata Pimentel, Cristiano Ramos