" A cultura é uma arena de disputas"

Roberto Azoubel lança a coletânea "Novos engenhos – Ensaios e artigos de cultura contemporânea (2003-2025)", no Museu do Estado de Pernambuco

A coletânea Novos engenhos – Ensaios e artigos de cultura contemporânea (2003-2025) reúne 13 textos escritos por Roberto Azoubel, doutor em Letras pela Puc-Rio, com área de concentração em Estudos de Literatura, e especializações em Gestão e Políticas Culturais pela Universitat de Girona (Espanha) e pela Universidade Federal da Bahia.

O livro tem lançamento nesta quinta-feira, às 19h, no Museu do Estado, com debate aberto ao público. Participam da mesa Anco Márcio Tenório Vieira (UFPE) e o designer H.D.Mabuse, com mediação de Rodrigo Acioli, da Editora Titivillus.

A coletânea articula reflexões sobre cultura, política e crítica social, dialogando com autores como Borges, Benjamin, Foucault, Heloísa Buarque de Hollanda, Beatriz Sarlo, Neil Gaiman, Nelson Rodrigues, Ruy Castro, Philip Roth, Chimamanda Adichie e Ariana Harwicz. Azoubel defende que a literatura não precisa ter função moralizante, ecoando Rimbaud.

O título recupera simbolicamente a ideia de “engenhos”, não como estruturas coloniais, mas como metáfora para modos contemporâneos de produção cultural. O autor propõe um Nordeste entendido como espaço de invenção e disputa de narrativas, distante de estereótipos fixos. Ao reunir textos de diferentes períodos, o livro permite acompanhar a transformação dos debates sobre identidade, regionalismo e cultura popular nas últimas décadas.

PERNAMBUCO – Como surgiu a ideia de reunir, em um único volume, ensaios escritos ao longo de mais de duas décadas? Em que momento esses textos passaram a fazer sentido como um conjunto?
ROBERTO AZOUBEL – A reunião dos textos surgiu num momento muito difícil de minha vida. Surgiu decorrente desse “inverno”, eu diria. Um período de colapso profissional, após passar 15 anos, praticamente ininterruptos, dedicados a gestão pública na área da cultura. Em meados de 2024, sai da Secretaria de Cultura do Recife decidido a mudar de ofício e, para isso, o primeiro passo foi reorganizar meu currículo. Quando me deparei no Lattes com a listagem de textos que tinha produzido ao longo dos anos, ocorreu-me a ideia reuni-los. O próximo passo foi justamente esse de tentar dar um sentido ao conjunto. Como agora em 2026, completo 55 primaveras, surgiu a ideia de organizar algo autobiográfico. Essa, na verdade, é a grande chave do livro. Há um percurso, uma trajetória intelectual nele. Isso está exposto, espero que o leitor perceba, nas suas duas partes, na sequência cronológica dos textos. Um detalhe importante: a crise profissional possibilitou tempo para essa organização. Ela teve, sobretudo e, portanto, uma carga de autoanálise, de psicanalítico. O posfácio escrito pelo professor Josias Vicente de Paula Jr. capta muito bem o que acabo de escrever.

PERNAMBUCO – O título Novos engenhos é bastante sugestivo. O que exatamente você quer deslocar ou provocar ao usar essa imagem?
ROBERTO AZOUBEL – Essa expressão que intitula o livro é do jornalista Xico Sá, criada numa de suas crônicas do saudoso site O Carapuceiro – conto isso na nota que abre o livro. Não por acaso, Xico escreveu o prefácio. Quem é de, vive ou viveu em Pernambuco, sabe do peso que o substantivo “engenho” possui. A ideia de utilizá-lo no plural ao lado do adjetivo “novos” é exatamente essa de deslocamento. Uma palavra que, aqui no Estado, está imediatamente vinculada às velhas edificações de moagem da cana-de-açúcar, ou seja, atrelada à produção de uma economia material, passa a ganhar uma conotação que se refere à capacidade humana de criar, de inventar coisas, atrelando o termo ao universo do simbólico. Afinal, trata-se de um livro sobre cultura e arte.

PERNAMBUCO – O livro aponta para novas formas de produção cultural. O que você identifica como mais potente na cena nordestina atual que ainda não está sendo devidamente percebido?
ROBERTO AZOUBEL – Creio que frustrarei a sua pergunta. Não sei o que poderíamos chamar de cena nordestina, pois ela não existe – a primeira parte do livro, de visada mais antropológica, traz exatamente esse tema do regionalismo. Mas, vamos lá: entre os anos de 2009 e 2019, tive a oportunidade de trabalhar na antiga Representação Regional do Ministério da Cultura. Foi uma experiência imensa poder circular por essa região do país. Testemunhei e experimentei coisas fabulosas, novas e velhas. A vitalidade da atual produção das artes visuais cearenses, a força das manifestações populares sergipanas, as culinárias de São Luís e Teresina (comi um capão na periferia desta cidade tão delicioso que a minha memória fez sua presença até nessa entrevista). Tudo isso comprova aquilo que já sabíamos e lutamos ao longo de todo século XX: nordestinos somos vários e brigamos para nos fazer existir, cada qual com suas diferenças, frente aos discursos hegemoneizantes que os grandes centros tentam nos impor. Nos dias que correm, a luta continua a mesma.

PERNAMBUCO Seus textos frequentemente se interessam por produções fora dos grandes centros. Você acredita que ainda existe um “centro” cultural no Brasil ou essa ideia já perdeu força?
ROBERTO AZOUBEL – A cultura é uma arena de disputas. Não no sentido tosco das “guerras culturais” propagadas no nosso atual momento, por exemplo, pela extrema-direita, pela aniquilação do outro. Uma arena de disputas (seja na cultura, na política etc.) que precisa se aproximar da ideia liberal de que nosso marco civilizatório é regido justamente pela existência e o respeito pelas diferenças, tomando estas como princípio fundamental para a saúde das sociedades. Não acredito que a ideia de um centro cultural no Brasil não tenha mais força. Praticamente, por todo país ainda se ensina que nosso Modernismo, por exemplo, concentra-se na Semana de Arte Moderna de 22 e naquelas produções paulistas. Que essa ideia tenha perdido alguma força, seguramente (e para o bem de nossa saúde cultural). Aqui cabe uma informação curiosa: quem mais brigou contra essa hegemonia de São Paulo em relação ao Modernismo brasileiro, em vários aspectos (cultural, institucional etc.), foi o pernambucano Gilberto Freyre. Um autor cancelado por muitos que hoje fazem legitimamente a luta contra essa ideia de centro.

PERNAMBUCO – Você percebe mudanças no seu próprio olhar ao longo dos textos, considerando o intervalo de mais de vinte anos entre eles? O que mais se transformou na sua forma de pensar a cultura?
ROBERTO AZOUBEL – As mudanças do meu olhar é a chave do livro. Isso está na cronologia pensada dos textos, nas epígrafes, no posfácio sensível de Josias Vicente de Paula Jr. Veja, sou antes de qualquer coisa, um leitor. A leitura é o grande motor das ideias – não por acaso há entre os ensaios do livro um deles dedicado a ela. Foi através de minhas leituras que cheguei num extraordinário comentário do economista John Maynard Keynes: “quando os fatos mudam eu mudo de opinião, e o senhor, o que faz?”. Claro, não são apenas os fatos, os anos ajudam bastante também. A idade dá um poder de reflexão muito latente, isso é real e ajuda a responder a sua segunda pergunta. Mas a pauta aqui é a cultura e serei empírico: fui um jovem formado pelos anos 90 recifenses e como tal tinha uma aversão a tudo que envolvesse o ideário armorial. Pois bem, a Cepe Editora publicou em 2018 um livro chamado “TPN: o palco e o mundo de Hermilo Borba Filho”, uma preciosidade escrita por Luís Reis, professor da UFPE, que li há pouco tempo. A obra aborda bastante a relação de Hermilo e Ariano Suassuna, ali por volta dos anos 60. A descrição que Reis faz da tensão entre política e criação, vivida e pensada entre os dois teatrólogos, me fez alterar de forma significativa meu olhar sobre Ariano. Leitura e idade mudam a gente, desde que, evidentemente, mantenhamos o espírito disposto e aberto.

PERNAMBUCO – O livro sugere que a cultura é um campo de disputa. Quais são, hoje, as disputas mais urgentes nesse campo, especialmente no Nordeste?
ROBERTO AZOUBEL – As disputas continuam as mesmas. E que bom que elas existam. Nesse sentido, Pernambuco é um caso exemplar para o país. No campo cultural, que é o que interessa aqui (mas penso que o mesmo ocorreu na História brasileira), o Estado, mesmo a margem do ideário hegemônico paulista sudestino, nunca parou de produzir coisas interessantes na área da cultura. Isso vai desde o Ciclo de Cinema da década de 20 ao teatro do Magiluth.

PERNAMBUCO – A ideia de “novos engenhos” pode ser lida também como novas formas de poder e produção simbólica. Quais seriam, na sua visão, os riscos dessas novas configurações?
ROBERTO AZOUBEL – Pode ser não, deve ser lida como novas formas de poder e produção simbólica. Aqui, acompanho o mundo e o lugar que a economia do simbólico tomou desde a segunda metade do século XX. Sobre os riscos que temos das novas configurações serei categórico: a ascensão da extrema-direita (brasileira e mundial que, na verdade, são as mesmas), que quer nos levar de volta ao medievo, é o maior deles.

PERNAMBUCO – Como você vê a relação entre cultura popular e cultura contemporânea hoje? Essa distinção ainda faz sentido?
ROBERTO AZOUBEL – Para mim, nenhum. Temo apenas por certos discursos exacerbadamente nativistas, não raro encontrados em alguns que se dedicam às manifestações populares, que se casam muito bem com os reacionarismos dos que defendem a extrema-direita. 

PERNAMBUCO  – Seus ensaios dialogam com uma tradição importante do pensamento brasileiro sobre o Nordeste. Quais autores foram mais decisivos na sua formação intelectual?
ROBERTO AZOUBEL – Minha formação intelectual, que está sempre a ser fazer, não está restrita aos pensadores nordestinos, sequer aos brasileiros. Sou de uma família de origem judaica e - que talvez por isso - tenho uma propensão cosmopolita muito forte. Sou brasileiro e do Nordeste e, evidentemente, me interesso por essas culturas, por essas realidades. Foram tantos nomes que contribuíram na minha construção intelectual, que evitarei elencá-los. Seria uma miscelânia, uma cacofonia, que, creio eu, pouco ajudaria ao leitor dessa entrevista. Sou capaz de acordar com Freyre e sua luminosa esperança numa civilização dos trópicos e ir dormir com Emil Cioran na sua sarcástica desilusão com a humanidade.

Lançamento do livro Novos Engenhos, de Roberto Azoubel
Quinta-feira, 30 de abril
A partir das 19h
Museu do Estado de Pernambuco
Av. Rui Barbosa, 960 - Graças, Recife - PE