Ivanildo Vila Nova completou 80 anos. Bem de saúde, memória tinindo, continua a participar de cantoria, mas decidiu parar. Não coloca a viola definitivamente no saco: “Posso participar de algum evento, produzir festivais, ou participar de comissões julgadoras. Sei a hora de parar”, afirma o cantador caruaruense, que estreou com 18 anos, em 1962. Antes disso, já acompanhava as viagens do José Faustino Vila Nova, nome respeitado na cantoria de viola. O aniversário de Ivanildo foi em 13 de outubro, mas estava na estrada. Só se conseguiu falar com ele em novembro, quando, finalmente, voltou para casa, em Campina Grande, onde está morando pela quarta vez.
Nesta entrevista concedida à revista Pernambuco, Ivanildo Vila Nova discorreu sobre o passado, presente e futuro da cantoria de viola, sobre a política, os conhecimentos apreendidos com os comunistas em Caruaru, e a sua contribuição para a continuidade do repente. Falou em levada de martelo agalopado
Como você via a cantoria de viola quando você começou, há mais de 60 anos, e como vê agora, que pretende se aposentar?
Não posso dizer que era uma profissão. Na minha região, todo cantador que eu conhecia tinha outra profissão. Existia profissão de fato da cantoria, mas de direito não existia. Você era cantador e barbeiro, meu pai, mesmo, foi cantador e funcionário do estado e da prefeitura. João Barbosa era marceneiro, José Agostinho era barbeiro, Zé Pedro era fotógrafo, e assim muitos outros. Tinha leiteiro e até engraxate. A cantoria veio virar profissão a partir de 1974. Há 50 anos, foi o tempo em que o cantador começou a viver unicamente de cantoria, e passar a ter condição de viver melhor com a cantoria.
Fora do círculo de pessoas que nunca se afastam dela, os apologistas, a cantoria tem trajetória de altos e baixos. Nesse tempo todo em que você milita no repente, qual foi a melhor fase da cantoria de viola?
Eu divido a cantoria entre antes e depois do Congresso de Campina Grande (realizado em 1974). A cantoria tem altos e baixos, depende da localização. Campina Grande teve sua fase de Meca da cantoria. Teve uma fase em que era Cajazeiras. Todos os cantadores bons passavam por Cajazeiras. Houve uma fase em que a cantoria girava por Mossoró, devido ao número de cantadores e programas de rádio. Pernambuco teve uma fase em que a cantoria girou em torno do Recife. Por quê? por causa do Nordestão, os congressos que voltaram e as viagens que Baccaro fez. Foi uma fase áurea. Houve uma fase áurea da cantoria de Caruaru. Sempre está mudando. Acontece uma mudança de fase quando há uma mudança de cidade. À medida que uma cidade passa a ter um evento importante, um programa de rádio, de televisão. Alguma coisa que mude, que mexa com a cantoria, ela aproveita aquela fase, que pode durar oito anos, pode durar 10 anos, ou durar menos.
Atribuem a você a luta pela profissionalização da cantoria de viola. Por que você resolveu, vamos dizer, enquadrar os cantadores, houve resistências?
Na verdade, a luta pela profissionalização da cantoria era uma coisa mais do que necessária, porque você tinha cantadores, emboladores, aboiadores, toadeiros, folheteiros (que hoje chamam de cordelistas), uma variedade de coisas agregadas à cantoria, que não existiam dentro da CLT como profissão de direito, existiam como profissão de fato. Como falei antes, muitas vezes escorada a uma outra. Havia um projeto muito antigo de Wilson Braga, quando era deputado federal. Esse projeto não passou pela relatoria da Câmara Federal. Quando eu já tinha deixado esta batalha pela profissionalização, de correr atrás, de brigar com todo mundo, dedicar minha vida a isto, aparece André de Paula, que me ligou, e eu até estranhei. Ele disse que iria apresentar um projeto legalizando a cantoria e suas variantes. Eu disse que já existia um projeto, o de Wilson Braga. Ele procurou este projeto, juntou com o dele, fez um projeto só, que foi aprovado. Isto foi em um dos governos de Lula. Mas ficou naquilo mesmo. Como sindicato, como corporação, e entidade classista ainda não se manifestou, não apareceu. Acredito que não houve resistência dos cantadores, porque o cantador, se não legalizasse, era a mesma coisa, não têm este sentimento classista, que há noutras categorias. Como é uma coisa que não tem um ganho estável, é instável, ele não se prende muito à luta por melhores salários. O salário dele depende hoje de um contrato, antes da bandeja, agora da bilheteria, antes dos partidários. Hoje depende do YouTube, de monetizar uma rede social – antes, dependia da rádio. É mais fácil juntar 500, 200, 50, um número expressivo de cantadores para ganhar até pouco, do que 10 cantadores para uma reunião que vai discutir os destinos da categoria da cantoria. É muito diferente de metalúrgicos, bancários, professores. É a classe acima de tudo, a categoria se sente beneficiada como um todo. Cantador não é isso. Depende de aplausos, do ganho incerto, do apologista. A cantoria depende pouco de leis e projetos, por isso mesmo é o cada um por si e Deus por todos.
Você usa um mote que provocou uma certa polêmica, o “Não conheço esquerdista que não mude / quando pega as rédeas do poder”. Segundo me consta, quando bem mais moço, você vendia um jornal do PCB, é verdade? Quando foi isso? Ainda quando morava em Caruaru?
O mote não é meu. É de Geraldo Freire. Muitas vezes, as pessoas só ouvem a parte em que você faz a crítica. Não ouvem a parte em que você elogia Gregório Bezerra, Carlos Prestes, fala em Sandino, fala em Che Guevara, fala em outros. Aí vem a parte em que acham que mexeu na ferida, buliu com alguém na parte da regalia, das mordomias de não querer largar o poder, isso acontece tanto com a esquerda quanto com direita, que, quando entram, não querem largar de jeito nenhum. Quando moço, trabalhei numa banca de revistas em Caruaru, chamava-se Yuri Gagarin, antes era Biu Moscouzinho. A banca foi incendiada. Havia uma polarização muito grande, comunistas e integralistas, não era entre duas pessoas, dois políticos – era de ideologia. A banca foi incendiada, mas nela eu aprendi muita coisa, uma literatura que não era praxe de outros cantadores, porque vendia semanários, o Novos Rumos, o Última Hora, era recebendo e botando por debaixo da porta, era o jornal A Hora, de David Capistrano. Essa banca me deu um conhecimento muito grande de outras coisas que não eram conhecidas da cantoria, que era de corpo humano, mitologia, história do Brasil, história geral, tupi-guarani. Essa outra me deu conhecimento de política, bandeiras, de líderes de fora do país, moedas. Um conhecimento maior de autores de coisas que eu não conhecia, Dostoiévski, Somerset Maughan, John Reed, e outros autores que ainda lembro dos nomes, dos títulos que eu lia. Também de revistas como a Nova China, China Ilustrada.
Você tem ideia de quantas cantorias de pé de parede participou? Milhares, com certeza. Algumas histórias engraçadas, ou curiosas, de seus muitos baiões? Qual a inesquecível?
Não tenho ideia de quantas cantorias eu participei, não. De festivais, devo ter participado de 500 para lá. Entre 500 e mil festivais, competitivos e não competitivos, individuais ou em dupla. Histórias curiosas teve muitas, porque o povo quando escreve é sobre a cantoria, de onde veio, mas tem muitas histórias curiosas da cantoria. No meu começo, eu fui cantar com um cantador chamado Laranjinha, eu começando e ele era o dono da região, e o dono da casa com três baiões pediu para eu parar, para Laranjinha cantar sozinho, e depois pediu para que eu saísse de perto de Laranjinha porque eu estava fazendo calor para ele. Tenho duas cantorias inesquecíveis, já como profissional, todas as duas com o maior cantador eu conheci até hoje, pode ser que depois apareça um maior, ou tenha um maior que eu não conheci, chamava-se Diniz Vitorino, da cidade de Monteiro, o pai dele era Joaquim Vitorino. Viajei com o pai dele quando eu era criança, e ele viajou com o meu pai, ainda jovem. O avô dele era cantador, o tio e o irmão também eram cantadores. Uma dessas cantorias foi no Rafael, povoado do município de Caruaru. A outra no Alto da Balança, na casa de um compadre meu e muito amigo dele, chamado Celedônio. Vou incluir outra que abriu o mundo da cantoria para mim, no Sertão, com Francisco Pedra de Oliveira, cantador muito respeitado, muito abalizado, aconteceu num sítio chamado Caiano, no município de Augusto Severo, que hoje é chamado Campo Grande, no Rio Grande do Norte.
A juventude urbana do anos 1970 descobriu a cantoria de viola do documentário Nordeste – Cordel, repente, canção, de Tânia Quaresma. A juventude dos anos 2000, quando fala de poesia oral nordestina, quase sempre se refere ao cordel. Você já fez cordéis? E o que acha dessa valorização dos cordelistas, essa coisa de qualquer um escrever folhetos? Independentemente disso, há uma renovação no repente, novos cantadores, no Nordeste?
Eu acho que o encontro, realmente com os cabeludos, aconteceu em 1974, o pessoal de Bráulio Tavares, Rômulo Azevedo, José Umbelino, até do Quinteto Armorial, Tadeu Guimarães, Roberto Moura, Cavani Rosas, Clotilde Tavares, Inês Tavares esse pessoa uniu-se à cantoria, uniu-se em 1975, através da Universidade Regional do Nordeste e da Universidade Regional da Paraíba.
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