Aos 85 anos de idade, o escritor Antônio Torres exibe um vigor de que poucos podem se orgulhar na literatura brasileira. Nascido no povoado de Junco (atual município Sátiro Dias), no sertão da Bahia, em 13 de setembro de 1940, ele estreou em 1972, com o romance Um cão uivando para a lua. Vieram em sequência diversos outros romances, como Essa terra, Um táxi para Viena d’Áustria, Meu querido canibal e Os homens dos pés redondos. Torres, que é membro da Academia Brasileira de Letras, da qual recebeu, há vários anos, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, concedeu esta entrevista exclusiva ao escritor Sidney Rocha, para a revista Pernambuco, em que faz um balanço da sua trajetória, e comenta o recente relançamento do seu Os homens dos pés redondos.
Você costuma reler seus romances? Fez isso recentemente com Os homens dos pés redondos? Teve vontade de alterá-lo em algo?
Não, não costumo reler os meus romances, a não ser quando estão sendo relançados e recebo as provas da editora com observações sobre um trecho ou outro, como foi o caso de Os homens dos pés redondos, quando migrou da Francisco Alves, que o lançou em 1973, para a Record, que, a partir de 1997 passou a aninhar todo o meu acervo. Neste relançamento, agora, não pensei em mexer em nada nele.
Quem são ou somos, hoje, os homens de pés redondos? Como vivem? O que bebem? O que comem? Onde moram? Brasil e Portugal ainda são modelos ideias para essas figuras?
Faz pouco tempo estive na cidade do Porto e, ao passar em frente de uma casa de bêbados que, de alguma maneira, serviu de cenário para Os homens dos pés redondos com o nome de Old King, percebi que ela já não se resumia mais a dois salões, um para os pobres e outro para os ricos. – Hoje são três – respondeu-me uma bem-humorada recepcionista, acrescentando: – Todos para os ricos.
Não tendo respostas precisas para as suas perguntas, valho-me do fecho de uma resenha do escritor e crítico literário gaúcho Cassionei Niches Petry, publicada no blog Uma biblioteca na cabeça: “O retorno dessa obra às livrarias pode nos servir de alerta: ou ficamos de pé ou seremos pisados”.
Naqueles anos 1970, digamos até metade da década, havia poucas traduções no Brasil. A política intervinha nisso, claro. Mas, além dos quase obrigatórias livros traduzidos para o português ou lidos diretamente do espanhol, na época, como os argentinos, os mais diretamente do boom literário, os russos e alguns orientais, não obrigatoriamente lidos por você, quais livros o leitor Antônio Torres lia no período em que escrevia Os homens dos pés redondos? Que livros lê, hoje?
Os russos vieram antes, e dos hispanos citados tive a honra de receber das mãos do próprio autor, um exemplar de Pedro Páramo em edição ilustrada pelo filho dele, Juan Pablo, e com uma amável dedicatória: “con toda la admiración e el gran afecto del amigo y compañero”. Ao chegar ao Rio de Janeiro, num domingo, para uma conferência que iria fazer no dia seguinte, Juan Rulfo foi direto do Galeão para a minha casa em Copacabana, levado pelo Adido Cultural do México na cidade, Edmundo Fuentes. É que, no dia seguinte, eu iria estar à mesa com ele no Teatro Maison de France. Anos à frente nos reencontramos num congresso na Bulgária que reuniu 150 escritores de todo o mundo, diante dos quais ele fez a seguinte declaração: “Vim aqui para dizer somente isto: que a melhor literatura do continente americano é a brasileira”. Citou o Grande Sertão: Veredas como o melhor romance continental e mostrou conhecer bem outros de nossos autores.
Naqueles anos 1970, eu seguia lendo americanos do Sul, do Centro, e de Norte, como a suprema trindade Fitzgerald-Hemingway-Faulkner (este, já com uma visível influência na comissão de frente do boom hispano-americano, Rulfo, García Márquez, Vargas Llosa, enquanto ia me encantando por aqui com o goiano José J. Veiga – o de Sombras de reis barbudos – e descobrindo a minha própria geração, que ia de Moacyr Scliar, em Porto Alegre, a Márcio Souza, em Manaus. E hoje? Bom, faço o que posso para acompanhar os novos autores, que são muitos, brigando contra o tempo de uma velhice muito ocupada. Ainda assim tenho lido o suficiente para dizer que o que não falta é boa literatura brasileira nas nossas livrarias.
Que moldes você tinha em mente quando criou personagens como o Estrangeiro? Seria a “insensibilidade” de Meursault, personagem de Camus que, como seus personagens, são punidos por não se adaptarem à ordem ou ao destino de submissão? Seu Estrangeiro e os demais personagens têm ligação com o absurdo lúdico (dos Cronópios, Faunas e Esperanças, de Cortázar), com o absurdo existencial (de Camus), para gerar esse absurdo político social, para a Ibéria de Os homens dos pés redondos?... Ou seja, personagens lançados em um mundo que não compreendem...?
Uau! O senhor escritor Sidney Rocha acaba de elevar Os homens dos pés redondos ao altar dos deuses. Jamais o imaginei nesse patamar. E, por favor, não retire as perguntas acima. Valem por um miniensaio. Aliás, aquela cena em que Manuel Soares está no cinema e assiste ao filme onde um homem diz a outro: “Já que Deus não existe, tudo é permitido”, frase que se atribui a Sartre ou Dostoievski, denuncia essas influências da época? Se não me falha a memória, a frase está em Crime e castigo. Dostoievski e Sartre eram muito lidos naquele tempo. Quem, depois da terceira dose ali no botequim da esquina, não traria à ponta da língua frases que ficaram famosas como
“o inferno são os outros”? Bêbado letrado era o que não faltava.
Por quantas editoras seu trabalho foi publicado no Brasil?
A primeira foi uma pequena, mas muito atuante editora do Rio, chamada Gernasa. Foi quem publicou Um cão uivando para a Lua, romance que me levaria ao Recife, a convite do saudoso Tarcísio Pereira, para uma noite de autógrafos em sua icônica Livro 7, e tive a grata surpresa de ver aquele meu romance de estreia em primeiro lugar nas listas de mais vendidos do Jornal do Commercio e do Diario de Pernambuco. Foi uma viagem inesquecível, tendo por cicerones um casal de estudantes, Letícia Lins e Fernando Azevedo, hoje doutores em Letras, ela da Universidade Federal de Pernambuco, e ele na de São Carlos, em São Paulo. Depois passei a ser publicado pela já citada Francisco Alves, Ática, Nova Fronteira, Companhia das Letras... e aí, num encontro na Biblioteca Nacional, uma agente literária chamada Marisa Gandelman (salve ela!) disse que queria me representar. – Por quê? – perguntei-lhe. E ela: – Porque você está com a sua obra espalhada por várias editoras, e isso não é bom. Precisa ter tudo num só lugar. Coube a Marisa Gandelman, portanto, levar todos os meus livros para a Record, onde estão sendo muito bem tratados, assim como os que antes tiveram outras editoras, cada uma a seu tempo.
Essa ideia da republicação é um pouco o leitmotiv de Adelino Alves, o escritor- personagem do romance. O editor, cooptado pelo sistema, entre outras desculpas, lhe dizia que “autor nacional não vende”, mesmo que o pobre Adelino Alves tivesse livros esgotados, lidos e relidos em escolas e universidades. Agora, o escritor Antônio Torres, traduzido para 21 países, lido em escolas e universidades, tem livros seus republicados pela editora Record. Significa que Antônio Torres é um autor inédito para novas gerações de leitores? Há um plano editorial definido? Inclui todos os seus romances?
O balanço das publicações e republicações dos meus livros na Record – um grupo editorial que publica mais de 40 títulos por mês, ufa! – é muito positivo. Vamos aos números: em 2021, ainda em meio à pandemia, ela publicou o meu 12º. romance, Querida cidade. Em 2022, reuniu num só volume, intitulado Trilogia Brasil, os romances Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha. Este ano, reeditou Meninos, eu conto (em 16ª. edição) e Meu querido canibal (15ª.). Agora, relança Os homens dos pés redondos. Ora, venho há muito do tempo (são 53 anos de literatura em cada dedo das mãos), e feliz por estar sobrevivendo às ondas de um mercado cada vez mais novidadeiro.
Nesta edição, você acrescenta um nome à dedicatória a Os homens dos pés redondos: Vânia Pinheiro Chaves, da Universidade de Lisboa. Li, recentemente, o importante ensaio que a estudiosa escreveu sobre Os homens dos pés redondos. Que importância você dá à recepção acadêmica de seu trabalho? É um interesse, digamos, mais recente?
A meu ver, é um interesse que cresce. Começou em 1982, com uma dissertação de uma mestranda da UFMG chamada Gislene Mota de Andrade, sob a orientação da profa. Letícia Maillard. Título: “O mítico e o trágico em Essa Terra”. Tratava-se de uma presbiteriana que enveredou por um texto algo bíblico, e, diga-se, belíssimo. Recentemente, uma tese sobre os meus três primeiros romances (E as gavetas nunca estiveram vazias – Ditadura militar e resistência na obra de Antônio Torres), defendida pela doutoranda Vanusia Amorim na Universidade Federal de Alagoas, foi publicada em livro, assim como acabo de receber outra, defendida por Roseane Oliveira na Universidade Federal de Catalão, Goiás. Sem contar as que já rolaram em Portugal, França, Itália, Alemanha. Vem de um doutorando paraibano, Carlos Santos, a contagem de 85 teses já feitas sobre os meus livros. Para um escritor que não teve condições de entrar para uma universidade, isso parece um milagre.
Uma das palavras-chave para dirigir o leitor por seus romances (digo isso na resenha), seria “nostalgia” (entendida pelo amor à terra) e a ideia de retorno. Faz sentido? E para onde Antônio Torres retorna, hoje?
Venho de uma terra sem rádio e sem notícias das terras civilizadas, como cantava Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. E sem livros. Foi um lugar perfeito para um escritor nascer (hoje já são muitos por lá, ou vindos de lá). As histórias ouvidas ao pé de um fogão de lenha, a chegada da escola com suas leituras em voz alta, a primeira buzinada de um caminhão, os que iam embora e voltavam com dentes de ouro... bem, acabei por fazer desse lugar o meu melhor personagem. No meu romance mais ambicioso, literariamente falando, Querida cidade, o seu protagonista um dia volta àquela terra sob as luzes de um crepúsculo que pede uma faca para cortar a nostalgia. Hoje, retorno àquele mundo agrário e ágrafo para ser recebido em festa numa biblioteca com mais de um livro para cada habitante. Então faz-se a hora de me situar entre o que foi e o que é, com um olhar esperançoso para o que virá.
Quando nos vimos, recentemente, você disse algo que não esqueci: “Eles jamais entenderão o que fazemos”. Você não se referia a ninguém em especial, falava no panorama geral da literatura contemporânea. Você pode nos dizer o que fazemos e o que eles fazem? Qual o futuro da literatura tão de pés redondos que experimentamos hoje?
Levei 12 anos escrevendo Querida cidade, penteando-o frase por frase, até chegar a me perguntar: – Quem vai se importar com isso? E me respondia: - Ninguém, certamente. Mas a mim, importa. E isso é o que me importa”. Talvez com a frase que você guardou eu tenha querido fazer um contraponto entre o lento pentear dos textos pelos velhos escribas e a pressa dos internautas. Mas não sou pessimista quanto ao futuro da literatura, muito pelo contrário.
Recentemente, você disse que está escrevendo um novo livro. Como ele se chama, mesmo?
Tenho um projeto na cabeça, sim senhor, com título – que acho mais prudente não o divulgar - e muitas anotações. Espero agarrá-lo pelas crinas ano que vem. Como dizia o poeta português Alexandre O’Neill, um amigo de toda a vida, folha de terra ou papel/ tudo é viver, escrever.