Confesso que não sei por que fiz o que fiz, eu disse a meu confessor. “Essa é uma desculpa que não cola mais”, ele me advertiu. Encarou-me, em silêncio por um tempo infernal. Continuou: “Depois que o Freud inventou o inconsciente, ele serve como desculpa para tudo”. Estava furioso, exibia os dentes, com vontade de me devorar. Talvez estivesse mais furioso com o Freud do que comigo. Só não foi pior porque eu tinha sobre a mesa a antologia poética do Vinicius. Não era comum um padre confessor visitar um aluno na biblioteca. Só me procurou porque estava muito bravo e precisava descarregar sua raiva.
“Para que ler Vinicius?” – ele me perguntou ao ver o livro que eu lia. Seus dentes amarelos se alargavam. Seu nariz de borracha parecia mais torto. Arrotou uma ou duas vezes antes de me perguntar: “Me diga, meu filho, para que ler poesia”? Até hoje não sei dizer para que a poesia serve. Gaguejei. Queria ser capaz de, em uma vingança barata, devolver o arroto com outro arroto. Não consegui. Mantinha os olhos fixos na Antologia poética. Ela me salvava. Agora, rascunhando essa memória da infância, me vem o verso de Vinicius: “Canta! Canta, porque cantar é a missão dos poetas”. Está na “Balada feroz”, o poema que eu tentava ler. Mas como eu poderia usá-lo como resposta ao padre?
Ficamos em um silêncio odioso. O padre peidou, disso eu me lembro bem. Não se abalou. Era uma autoridade, era um soldado de Cristo, podia fazer o que quisesse. Sua batina negra me encobria. Arrisquei: “A poesia limpa a alma”. Arreganhou mais ainda os dentes de capivara. “Não diga besteira. A poesia é o oposto disso. A poesia suja a alma”. Engoli a seco. A bibliotecária veio perguntar ao padre se ele precisava de alguma coisa. “Preciso salvar esse menino”, respondeu de má vontade. “E a senhora, o que quer de mim”? A mulher ainda deu uma olhada na antologia e desapareceu.
O relógio bateu as onze horas. Era a hora do almoço. “Feche esse livro e me acompanhe até a sacristia”. Suspender as refeições era um de seus castigos prediletos. Como Vinicius, o apaixonado, o errático, deve ter sofrido. O poeta entrou para o colégio de padres em 1924. Tinha onze anos. Eu estava com onze anos também. Hoje consigo entender que alguns laços antigos nos atam. Não sou poeta, longe disso. Mas há coisas que, na infância, são bem mais importantes que a poesia. “Não vá me dizer que você escreve versos”, meu confessor me perguntou. Bem que eu tentava, mas eram horríveis.
Ainda hoje guardo meus rascunhos poéticos em uma pasta que, imitando Rimbaud, chamei de “Viagem ao inferno”. Sempre planejo queimar a pasta diabólica, nunca consegui. Não se queima o fogo com o fogo. “Você é um desmiolado”. Sou mesmo. Sempre penso em fazer coisas que não consigo fazer. Sempre prometo o que não posso prometer. “Sua alma vive à deriva e a deriva é o caminho para o Diabo”. Eu suava. Era o calor do inferno? Meu pescoço doía. As palavras do padre eram uma guilhotina. A biblioteca, o cadafalso. Pensei: “Nunca mais lerei poesia”. Cada vez leio mais poesia.
No ano em que nasci, 1951, Vinicius se tornou cronista semanal do Última Hora. Um dos poucos laços verdadeiros que nos ligavam. Não sei dizer que feridas infernais os poemas de Vinicius rasgaram em minha alma. Mas, para meu confessor, meu maior pecado estava ali. Tanto que, logo que entramos na sacristia, o padre me disse: “Deixe esse livro no balcão e vamos ler a Bíblia”. Meu pai, que nunca lia poesia, sempre dizia que a Bíblia era um poema. “Tudo ali é falso, mas é belo”, me disse uma vez. O padre começou a ler um trecho ao acaso do Apocalipse. Queria mesmo me castigar. Leu um pouco e depois perguntou de novo: “Por que você fez o que fez?” Até hoje não sei responder. Na “Balada Negra”, Vinicius respondeu por mim: “Eram buracos na treva/ Totalmente impenetráveis”.