As palavras chegaram nos livros comprados pelo meu irmão Francisco no Reembolso Postal. Não eram tantos, mas formava uma biblioteca que traçavam já naquele instante o destino do menino inquieto embora solitário na descoberta do mundo. Passaram logo a fazer parte da sua vida como a pele e os cabelos. De um momento para o outro passou a acompanhar a chegado do Correio com os pacotes do Reembolso Postal – uma fórmula simples criada pelas editoras para vender livros nos sertões do Brasil: um cupom onde o comprador assinalava o pedido que pagava no recebimento do produto– quando pedia dinheiro ao pai – também Raimundo – para o honrar o negócio.
O pai era um homem alto, forte e decidido, com os cabelos negros penteados para trás. Que não lhe fazia perguntas. Tempos depois, já homem, perguntou-lhe:
- Pai, por que o senhor entregava o dinheiro sem pedir explicações?
- Não se pede explicações a um menino que compra livros.
E não era um momento letrado. Na verdade, tivera apenas dois meses rudimentares de aulas na sala de um aprendiz de professor autodidata, talvez menos preparado do que os alunos, amparado na cartilha do ABC, recitando: B com A, B com a Ba, B com E, Bê, B com I bi... E Daí por dente...Por isso costumo dizer que Deus gosta muito de mim... – Foi nesta mesma cartilha que aprendi a ler...passada a aventura de ler apenas pelo desenho das letras... Depois do expediente na loja, vendia tecidos e chapéus, papai passava horas lendo um livro chamado TITÃS DA LITERATURA, acompanhando as palavras com o dedo indicador, sibilando as frases. Mas lendo o que, meu Deus...? sim, horas...chegava em casa aí pelas 18 horas e permanecia, sentado numa poltrona com o livro enorme, de capa preta -diante dos olhos até as 23 horas, sem pausa. No outro dia repetia o mesmo gesto só interrompido quando ia à calçada de nossa casa, onde ocupava uma cadeira de balanço. Ali permanecendo até a meia-noite....
Aos sábados eu comprava folhetos na feira de Santo Antônio do Salgueiro e lia-os para um casal de feirante- dona Zefa e seu Quincas – ela uma mulher negra bem alta, mãos e braços fortes que bebia cachaça sempre dentro de casa, ele um homem desajeitado, roupa de zuarte, sandálias de couro, fabricante de balões nas trezenas de Santo Antônio no mês de junho e nas festas de fim de ano, muito silencioso. Escutavam o folheto que eu lia em solene sossego, só interrompido pelas pancadas de vento nas matas ou noutras ocasiões quando a mulher entrava adentro para buscar café num bule muito quente provocava queimaduras nos dedos.
A leitura, que influenciou minha obra para sempre, era feita no terraço de terra batida avermelhada em frente à casa, que o casal chamava de casa-grande, na verdade uma casa de taipa pequena, bem baixa, uma porta e duas janelas, onde não morava mais ninguém, sem filhos, e naturalmente sem empregados. Só havia um candeeiro para iluminar o folheto, em meio a intervalos de escuridão devido ao sopro dos ventos. A gente ficava ali altas horas, quando minha mente adivinhava as imagens que tempos depois transformei na minha história de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão e no conto o Bordado, a Pantera Negra, adaptado pelo mestre Ariano Suassuna para o folheto O Romance do Bordado e a Pantera. Era tão mágica a atmosfera daquele sitio e daquela leitura que me sentia personagem daquelas narrativas. Parecia que Bernarda Soledade entrava e saía de casa para enfrentar o vento e a cantoria da velha Gabriela Soledade no instante em que escrevia a novela em terra idêntica na Fazenda Figueira, onde a escrevi em período de repouso recomendado pelo médico.
É claro que estou fazendo aqui um jogo temporal porque a leitura do folheto ocorria 25 anos antes da escrita de Bernarda quando não havia sequer a suspeita de que um dia me tornaria escritor. E que, sendo escritor, teria no folheto de cordel a fonte de inspiração da minha obra dedicada ao Movimento Armorial, de que me orgulho muito. Na verdade, o que quero dizer, muito claramente, é que naquele instante estavam nascendo as imagens e as personagens que criaria mais tarde. Confesso, aliás, que sou sempre armorial...eternamente.
Percebe-se, assim, que os livros e os folhetos ocupam uma posição importante na minha formação literária, ao lado da feira onde a literatura de cordel era cantada e exaltada para deleite dos feirantes que se uniam quase sempre a um cantador munido de microfone e viola durante horas. Era uma festa fazendo saltar ali mesmo reis e rainhas, condes e condessas montados em cavalos valorosos envolvidos em combates com franceses e ingleses a perseguir cangaceiros e políticos, fazendeiros e almocreves numa absoluta transgressão do tempo que se misturavam com Padre Cícero e Lampião, em nada devendo a uma festa psicodélica que resultaria mais tarde na minha obra cheia de cores, de cavalos fantasmas e de dragões defensores de donzelas indefesas.
Creio mesmo que vem daí tendência para uma obra cheia de tragédias e de doidos que se debatem nas serras com panteras e com leões – dragões aparecem no meu conto O Bordado, a Pantera Negra. Sem esquecer, é claro, os personagens problemáticos e sombrios do teatro de Ibsen que herdara em dois volumes na biblioteca do meu irmão. Dois volumes com seis peças entre elas “Casa de Bonecas” - o clássico de Ibsen - e o “Inimigo do Povo” que me deram a convicção de que seria escritor. Encontrei e li ali o teatro brasileiro do começo do século, sobretudo Juracy Camargo, visto já naquela época como o nosso clássico dos palcos, com “Deus lhe Pague”.
Havia nos caixotes, um volume com seis romances de José Lins do rego, exemplares de ´Érico Veríssimo, Jorge Amado e Graciliano Ramos, com o inesquecível Vidas Secas. Mas a maioria dos livros era de autores espíritas publicados pela Editora Pensamento. Li, também, parte substancial do teatro romântico português, com autores apenas sofríveis. Mas no meio de toa aquela papelada, havia a influência decisiva: A casa de Bernarda Alba, de Lorca.