Clarice na cozinha

Tenho 24 anos e a timidez, como uma peste, me paralisa. Apesar dela, o acaso, com suas tramas secretas, me leva a conhecer Clarice Lispector. É como repórter de O Globo que chego, pela primeira vez, ao seu apartamento, no Leme. Temos um diálogo difícil – que, muitos anos depois, relatei em um livro. Até sua morte, em 1977, visitei-a meia dúzia de vezes. Era sempre igual: em tardes tediosas, de repente, Clarice me convocava para uma conversa em seu apartamento. Diálogos sobre nada, travados, quase sempre, em silêncio. Um silêncio rangente, com palavras submersas e indecifráveis. Já andava cansada e frágil – o câncer emitia seus primeiros sinais. O que terá visto em mim? Talvez breves fagulhas de uma energia, ainda que caótica e dispersa, que lhe fugia.

Vasculho a mente em busca das pegadas desses encontros. A primeira cena que me vem é a de uma tarde chuvosa em que Clarice, desgrenhada e ansiosa, me recebe em sua cozinha. “Você quer comer bolo de chocolate com Coca-Cola?” – ela me perguntou, em um telefonema inesperado, algumas horas antes. É claro, aceitei. A memória é um mosaico de lascas desconexas. Forma-se por estilhaços, entre os quais se infiltram, astuciosos, lampejos da imaginação. Precisamos de coragem para lembrar, porque lembrar é também esquecer e, sobretudo, deformar. Somos todos criminosos.

Tento, ainda assim, reconstruir essa tarde longínqua. Clarice abre a porta. Parece aliviada em me ver e me conduz direto à cozinha. Uma cozinha antiga, mesas e cadeiras de fórmica, janelas tortas. Um cheiro forte de feijão. Louça suja na pia. Sobre a mesa, dois pratos. A cozinha dá para a área de serviço, encoberta por um varal de roupas. Há uma janela nos fundos, que leva a um grande fosso. Vozes distantes se misturam a latidos de cães. “Viver é um inferno”, uma mulher grita ao longe. Uma criança se esgoela. Pombos arrulham sobre o parapeito.

“Acho que ela tem razão”, Clarice me diz. “Ela quem?” Ainda me sinto entorpecido. “Falo da mulher que fala do inferno”, Clarice esclarece. E prossegue: “A vida é mesmo um inferno. Mas é um paraíso também”. Essa é a primeira frase que me fica. Para Clarice, mais tarde entendi, viver é um voo turbulento, mas belo. Emudeço. Não quero quebrar o encanto daquele momento. Tudo tão frágil, tudo por um fio. Sobre a mesa, uma garrafa de Coca-Cola. Temo que ela se atrapalhe e a derrube. A garrafa rolará para o chão e estaremos entre cacos.

Observo a cozinheira, uma mulher suada, atenta à sua fritura. Olho para Clarice que, em passos ambíguos, vai até o balcão e traz de volta um bolo. “Há dias em que só como bolo de chocolate”, ela me diz, com o tom lastimoso de pecadora. Será verdade? Escritores vivem a sonhar. Misturam pedaços da realidade com devaneios, dissolvem o mundo em uma grande borra. Mas não importa. O que me importa é que Clarice, de um pedaço de bolo, arranca o sagrado. Mastiga como se rezasse. Dele extrai uma beatitude sem beatificação. Uma glória humana. A cozinha, empurrada pelo som de trombetas inexistentes, se eleva. Chego a me agarrar à borda da mesa.

Clarice toma fartos goles do refrigerante e eu, mesmo sem apreciá-lo, a acompanho. Concentra-se em seu bolo. “Para que comer outra coisa”? – ela me pergunta. “Para que, se tudo está aqui?” Enumera os elementos de sua magia: “Farinha, açúcar, a água. E o mistério, porque sem algum mistério, ela me diz, nenhum bolo se assa”. E ali ficamos, por um longo tempo, em busca das palavras certas. Elas não nos chegam. Lembro-me, sobretudo, do silêncio. Mais do que as palavras, é esse silêncio doloroso, mas sagrado, que ainda hoje me fica. Dentro dele, tudo se transforma. A cozinha, um templo. O silêncio, ainda mais sublime que a palavra, nossa oração.