Durante cerca de seis anos frequentei um grupo de estudos de psicanálise e literatura no Centro de Estudos Freudianos – CEF, coordenado por Jacques Laberge, canadense que morou em Paris e diziam ter sido analisado por Jacques Lacan, psicanalista francês que reinterpretou conceitos freudianos, introduzindo novas práticas clínicas e uma integração da psicanálise com a linguística e o estruturalismo.
Muito respeitado no Recife, Laberge formou gerações de novos profissionais, ao lado do colega Ivan Corrêa. O CEF, que gaiatos chamavam “casa da lacanagem”, ficava numa rua arborizada do Poço da Panela, ao lado do Rio Capibaribe. Nas proximidades, casarões centenários teimavam em se manter de pé, pois ainda não havia começado a especulação imobiliária sem controle, que destrói a cidade e sua cobertura vegetal.
Em frente ao imóvel do CEF, hoje transformado num bar de qualidade duvidosa, ficava a casa de minha psicanalista, médica psiquiatra filiada ao IPA (International Phychoanalytical Association), organização mundial fundada por Sigmund Freud, em 1910, na cidade de Nuremberg. Por 10 anos, quatro vezes na semana, fui atendido num consultório ligado à sala de visitas da terapeuta, em sessões que duravam 50 minutos. Nos tempos de hoje, é inconcebível a ortodoxia da Associação Psicanalítica Internacional, pela escassez de tempo das pessoas, por conta dos custos e porque os lacanianos criaram as sessões curtas, que de tão sumárias viraram piada.
Enquanto me analisava com uma freudiana, estudava e fazia formação com lacanianos para dar um fim no juízo de Deus, diriam Antonin Artaud e José Celso Martinez Corrêa. O grupo de estudos de lendas e literatura do CEF tinha doze participantes, todos psicanalistas atuantes, com exceção desse que escreve. Restam vivos apenas quatro, um deles com Alzheimer. Encontrei-o por acaso, caminhando ao lado de uma cuidadora. Ao me ver e ouvir a minha voz se emocionou, teve uma cintilação de memória, coisa rara de acontecer, o que me abalou muito.
Estudávamos o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e lendas de almas penadas, botijas, lobisomens e Comadre Fulozinha. Depois de anos de convivência, seminários, simpósios, estudos e mais estudos, o CEF teve um cisma, os membros se separaram, e um dos novos grupos criados se chamou Traços Freudianos e Veredas Lacanianas. Rosa imprimiu marcas em todos os membros da confraria com a sua linguagem e, mesmo quando foi abandonado para se estudar o Finnegans Wake, de James Joyce, continuaram trilhando veredas roseanas, embriagados de lirismo e metafísica.
Nunca compreendi direito o que se buscava na aproximação entre a literatura e a psicanálise, embora comparecesse a todas as reuniões. Os métodos e a prática da terapia psicanalítica foram sistematizados e aprofundados por Freud, mas ficcionistas anteriores a ele já faziam estudo analítico dos seus personagens, como o russo Dostoiévski. Os membros dos vários grupos eram pessoas cultas, pesquisadores de literatura e psicanálise, ouviam boa música, viam bons filmes e produziam textos, que quase sempre não se definiam como literatura, ciência ou clínica. Em alguns, havia marcações técnicas e científicas, noutros se buscava reforço nas teorias dos psicanalistas que respeitavam.
Nesses estudos de psicanálise clínica e literatura aprendi o essencial para mim, que se trata de atividades incompatíveis com um exercício literário minimamente bom. Precisei fazer um escolha e afastei-me da psicanálise. Nunca pretendi clinicar nessa especialidade. Escolhi o caminho que trilhava desde as mais remotas lembranças dos livros.