Linha divisória

Na noite de 6 de janeiro, comemorei o Natal com meu genro sérvio. Os ortodoxos celebram a festa no Dia de Reis. Belgrado, de onde ele veio, estava coberta de neve e com temperatura de menos 4°. No Recife, suávamos nos 30° positivos. Mesmo assim, o jantar seguia a tradição sérvia para os dias frios: feijão, chucrutes, risoto, pita recheada com queijo e cogumelos, ajvar, rakia, vinho tinto e licor.

Foi servido um bolo de milho, que girávamos entre as mãos, depois do anfitrião molhá-lo com vinho tinto e rezar um Pai-Nosso em cirílico. Algumas fatias podiam guardar moedas colocadas na massa antes de assar, um augúrio de boa-sorte financeira no ano-novo, para quem as encontrasse.

Minhas netas Ana e Sara, metade sérvias pela genética, costumam viajar aos Balcãs. Influenciado por elas, estudo sobre os países da antiga Iugoslávia e seus vizinhos, culturalmente próximos a civilizações que aprecio, como a grega e a turca. O pai e a mãe das crianças são médicos, mas dão continuidade à educação que receberam, no gosto pela leitura, pela música e por bons filmes.

Num certo momento do jantar, as meninas se recolheram ao quarto. Fui vê-las e encontrei-as lendo. Ana, de 10 anos, falou que se sente discriminada na escola por ler muito. Nos intervalos e recreios, prefere ir à biblioteca. Eu reclamo porque carrega muitos livros na bolsa, acho um peso excessivo, mas ela se justifica dizendo gostar da companhia dos livros. Perguntei o que lia e eram muitos os títulos e autores. Os sete volumes de Harry Potter foram consumidos duas vezes e, no momento, ela faz uma leitura comparada do original inglês e a tradução. Lembrei a minha infância e as poucas bibliotecas do Crato. Mamãe não gostava que eu lesse, às vezes arrancava os livros de minhas mãos, temendo que eu ficasse doido. Mas não conseguiu impedir o meu contágio e danação pela literatura.

Sara tem o mesmo gosto por livros de humor e histórias em quadrinhos do meu neto Mateus. Com sete anos, ela manifestou interesse pelo piano – o pai frequentou o conservatório de Belgrado e, a mãe, o curso de música da UFPE –, e mostra desenvoltura no instrumento.

Ana está lendo três livros, um deles de Rick Riordan, autor que eu desconhecia, considerado “o contador de histórias dos deuses” e que já vendeu mais de 7 milhões de livros no Brasil. Quem produz ficção brasileira nem sonha com esses números estratosféricos. Procuro não influenciar o gosto das três netas e dois netos. Deixo que vasculhem minha biblioteca, uma única vez sugeri Monteiro Lobato, mas eles não gostaram. Há uma rede de livros que alcança as crianças e adolescentes dessa geração, bem diferente do que eu lia e que parece dialogar com o tempo atual. Depois de uma hora de conversa sobre leituras, senti-me excluído desse tempo. Fiquei pensativo e triste.

Ana estuda violino e criticou Sara porque ela não gosta de tocar clássicos. Diverte-me a conversa das irmãs sobre o que consideram clássico e popular. Muitas vezes me envergonho se pareço erudito, ou confesso o meu gosto por escritores fora de moda e pouco lidos, o que não significa que morro de amores por Proust, James Joyce ou Stendhal.

Soa pejorativo ser comparado aos clássicos. Luis Fernando Veríssimo revelou-me que só ouvia música barroca e Davi Arrigucci Jr. não lia contemporâneos. Não me sinto motivado a sair de casa para um show de Madonna ou Lady Gaga, não me interesso pelos autores em destaque nas prateleiras das livrarias e evito as narrativas identitárias. Assustado, vislumbro em minhas escolhas uma linha divisória me separando de muita coisa que chamam boa literatura.