Na Livraria do Jardim, que sobreviveu ao fechamento das casas livreiras do Brasil, encontrei uma prateleira dedicada a Clarice Lispector. Na entrada, uma mesa oferecia a produção do português Walter Hugo Mãe, e no stand de escritores pernambucanos não havia os clássicos, apenas lançamentos mais recentes de autores pouco conhecidos. Chamou-me atenção um volume bem-editado com a pequena obra de Raduan Nassar e a infinidade de biografias. Vi pessoas comendo e tomando café e bem poucas olhando livros ou comprando. Talvez preferissem adquiri-los pela internet.
Em andanças por feiras, salões de livros e universidades, sempre me referiam Clarice Lispector ao falarem de literatura brasileira. Encontrei-a citada na Biblioteca Nacional da Espanha, em Madrid, numa cronologia do livro. Na Universidade da Califórnia, em Berkley, onde fui escritor residente, havia alunos do Departamento de Literatura hispano-portuguesa estudando sua obra, a de Machado e Guimarães Rosa. Lembrei uma afirmação de Antonio Candido em “Literatura e subdesenvolvimento”, ensaio de 1970: “Os melhores produtos da ficção brasileira foram sempre urbanos, as mais das vezes desprovidos de qualquer pitoresco, sendo que o seu maior representante, Machado de Assis, mostrava desde os anos de 1880 a fragilidade do descritivismo e da cor local, que baniu dos seus livros extraordinariamente requintados”. Tanto nos Estados Unidos como na Alemanha, há um enorme interesse por Guimarães Rosa, que não se enquadra nesse conceito.
O reencontro com Clarice Lispector na livraria da Manoel Borba, na Boa Vista, despertou meu interesse em voltar a lê-la. Com a mesa cheia de livros por terminar, decidi-me pelos contos, eles podem ser lidos em pequenos intervalos de tempo. Comecei por “A imitação da rosa”, narrativa que me provoca arrepio. Durante 40 anos trabalhei no hospital Otávio de Freitas, criado como um dispensário para tratamento de tuberculosos e, depois, de pacientes psiquiátricos, em 300 leitos. Médico de formação clínica, fazia interconsultas, o que me deixava fora das prescrições psiquiátricas e das indicações de terapias mais radicais. Felizmente, a reforma fechou esses nosocômios que mais adoeciam do que curavam.
No conto “A imitação da rosa”, a narradora introduz sutilmente o leitor na história de Laura, em suas referências ao esposo Armando, à ex-colega de ginásio e amiga Carlota, casada com um certo João. A história se tece com informações poucas e precisas, como os pontos de uma bordadeira no tecido, terminando numa obra irretocável. O leitor mais informado sobre doenças mentais acaba descobrindo que Laura sofre um transtorno obsessivo compulsivo, que se transmutou em psicose, levando-a a internação e ao tratamento radical de choque insulínico, usado em passado recente com outras terapias biológicas. Mas essas informações plantadas como notas musicais numa partitura de adágio, podem nos escapar. O leitor exulta com a perfeição narrativa, que o coloca no lugar de investigador e quase adivinho.
A leitura levou-me a outro conto sobre o processo de enlouquecimento: “Horla”, de Guy de Maupassant, que viveu os últimos anos demenciado, por conta da sífilis. Maupassant negou o Realismo e o Naturalismo em sua literatura, mas apela à ciência e à psicopatologia ao descrever as alucinações e a loucura final de seu personagem em “Horla”. Se existe modernidade em Maupassant, ela está no deslocamento das palavras para fora da representação a que se destinam na narrativa. Em Clarice Lispector, as palavras funcionam como um instrumento de desvendamento da alma e da essência humana, muitas vezes desafiando a lógica.