O sertão de Euclides da Cunha

Mesmo não tendo nascido no Sertão, Euclides contribuiu para codificar o que lhe pareceu sertão, induzindo leitores e gerações futuras a buscarem o modelo estabelecido de semiárido habitado por bárbaros, num processo semelhante ao dos orientalistas em relação ao Oriente. Segundo Edward Said, o Oriente é corrigido e penalizado por estar fora dos limites da Europa e dos Estados Unidos. O sertão do Nordeste brasileiro sofre processo semelhante por se encontrar fora dos limites do Sul e Sudeste. É igualmente “sertanizado” por alguns acadêmicos ou cientistas, tornando-se propriedade de um conhecimento nem sempre verdadeiro.

A partir do genocídio praticado contra os conselheiristas de Canudos, retratado com parcialidade pelo geógrafo, engenheiro, militar e jornalista, evidenciam-se as incompatibilidades entre os vários sertões. As sociedades da época e, até hoje, possuem valores culturais, econômicos e religiosos desiguais.

Nos primeiros tempos de nossa história, tudo o que não fosse litoral era sertão, independentemente de condições climáticas, relevo da terra, cobertura vegetal, presença ou não de rios, tipo de solo. O estado de São Paulo para além da Capitania de São Vicente era sertão, e também Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e até Paraná e Rio Grande do Sul.

As migrações e entrelaçamentos dos sertanejos se fazia intensa, de sul a norte e de norte a sul, a ponto de um decreto real do século XVIII proibir que os do Norte buscassem as terras do sul, onde havia mais promessas de riqueza. Paulista não se referia apenas aos naturais do estado de São Paulo, sendo uma denominação genérica para sertanejos também de Goiás, Mato Grosso, Minas e outras regiões.

Interessa investigar quando e de que maneira o devaneio sobre o que é sertão o transforma em paisagem semiárida, desértica, hostil, com o sol inclemente, confundido com o que se estabeleceu ser Nordeste. Gilberto Freyre recusa a divisão geográfica, a imagem de desertão.

Há muitos erros em Euclides, a antropologia e a sociologia impregnadas de cientificismo, teorias de inspiração europeia e estadunidense, racistas, supremacistas, cientificistas, que defendem a eugenia e são contrárias ao hibridismo, atribuindo ao cruzamento das raças formadoras do Brasil todos os nossos males.

Na nota preliminar à primeira edição de Os sertões, Euclides já assume postura sobre o lugar e os personagens da sua epopeia: “Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil, e fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexo de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir nossa terra”.

Apesar das denúncias feitas, da comoção diante do massacre, de afirmar que o sertanejo é antes de tudo um forte, Euclides se mantém firme, como observa Leopoldo M. Bernucci: “o narrador toma partido na defesa dos conselheiristas, mas a escolha final, a que determina verdadeiramente a decisão inexorável de combater o fanatismo religioso, a ‘selvatiqueza épica’, em uma palavra, os nossos ‘bárbaros patrícios’, recai nas mãos de um juiz implacável. E nem mesmo o esforço para construir uma frase imparcial e justa, que defina o seu duplo ataque, aos sertanejos e aos ‘singularíssimos civilizados’ nas Notas à 2ª Edição, consegue no final retraí-lo da sua cega fidelidade ideológica ao republicanismo progressivo”.