Termino uma palestra na Universidade de Cascadura. O tema era a solidão do poeta. Minha exposição foi um fracasso, só repeti clichês. Agora trago o coração oco. O auditório se esvazia. Noto que, ao fundo, restou o vulto torto e opaco de um rapaz. Com passos imprecisos de réptil, quase rastejando, ele se aproxima. Eu o espero. Não é uma serpente, não me atacará. Parece mais uma larva, que luta para nascer.
É cabeludo e veste uma camiseta berrante com uma frase em inglês, que não consigo traduzir. Traz percings incompreensíveis nas orelhas. Mesmo protegido pela fantasia do jovem rebelde, mal consegue respirar. “Vamos, garoto, o que você quer”? Com o corpo oscilando, como se estivesse preso a um pêndulo, ele diz: “Tenho uma pergunta. Não é bem sobre literatura. Posso fazer?”
Desço do tablado e nos sentamos na primeira fila. “Vamos, como posso ajudá-lo?”. Encara-me com o olhar desesperado dos pedintes. Esmola minhas palavras. Sei que não posso falhar, mas, é claro, falharei. “Eu escrevo poemas”, enfim me diz. Logo se corrige: “Escrevia, mas agora parei”. Pergunto por que parou. “Foi a maldita frase”, gagueja, e não consegue avançar mais. Espero que me revele a frase terrível que o calou. Não consegue. Por fim, me passa um papel em que está escrito: “Somente mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros”.
É um verso célebre do poeta Paul Celan, que o garoto encontrou em uma antologia. Depois de lê-o, e sublinhá-lo em vermelho, e mastigá-lo como um veneno, passou a suspeitar das próprias mãos. Serão suas mãos verdadeiras, ou falsas? Será que, em vez de escrever poemas, ele só os simula? Usa a poesia para revelar a verdade, ou para escondê-la? “O que você fez a respeito?” – eu pergunto. Primeiro, procurou um médico. O doutor o examinou e disse: “Suas mãos são normais. Talvez as unhas precisem de um trato. Procure uma manicure”. Ainda sugeriu que ele pratique esportes e que, sobretudo, pense menos.
Desanimado, procurou um sacerdote, que o ouviu com paciência, o benzeu e depois o alertou: “Não deixe que o diabo se apodere de você. Nos rapazes, ele sempre começa pelas mãos”. Desistiu do padre e marcou com um psicólogo que, depois de ouvi-lo, declarou: “Não são as mãos que você precisa limpar, mas o coração”. Lembrou-se da peça de Sartre, As mãos sujas, apressou-se a lê-la, refletiu sobre a traição e o assassinato, mas a nada chegou. Passou a usar álcool gel e, sempre que sai, veste um par de luvas. Hoje usa luvas negras. Ainda foi a uma quiromante, porque talvez a resposta estivesse registrada na palma das mãos. Depois de examiná-las, a leitora de mãos lhe disse: “Sua linha da vida é tensa e incomum”. Previu um destino trágico. O rapaz fugiu.
Poemas latejam em sua mente, mas ele já não ousa escrevê-los. Até que, trazido por um amigo, veio a minha palestra. Ao me ouvir, teve a impressão de que posso ajudá-lo. E aqui está, com as mãos espalmadas e a mente em fogo, à minha frente. O que dizer a esse menino? Ocorre-me que, em um poema, Paul Celan anuncia que a verdade surge de um ribombar. Nenhuma elaboração, nenhum trabalho intelectual, só uma explosão que, ele afirma, se passa “em meio ao turbilhão de metáforas”. As metáforas vão para o lixo, o estrondo permanece.
A verdade surge de um golpe. “Tire as luvas”, eu digo sem ter planejado dizer. Surpreso, ele me obedece. Passo-lhe uma folha e uma caneta. “Vamos, agora escreva um poema”. Olhos cheios de água, muito pálido, ele me obedece. Com suas mãos falsas, que lhe provocam asco e horror, o garoto escreve um dos poemas mais lindos que já li. Faz uma reverência, como se eu fosse o papa, e se vai. Ainda hoje, não sei o que fiz. Mas fiz, e isso me basta.