O assombro da noite

Durante as festas de fim de ano, emergindo da escuridão do tempo, reapareceu diante de mim a figura desgostosa, mas amável, de meu tio Luiz. Desde que ele faleceu, de uma unha encravada, em meados de 1977, grandes vácuos se abrem, longos períodos de esquecimento, mas logo seu rosto ferido, quase sangrento, ressurge à minha frente. Eu sei que ele sempre volta. Não falhará.

Os primeiros lampejos de seu semblante surgiram durante a noite do réveillon. Meu tio odiava as grandes festas, e odiava mais ainda o réveillon. “Essa ideia de todos se unirem, na mesma hora e no mesmo lugar, para gritar e se abraçar é a falência do amor”, ele me disse. Achava que a festa da virada era exibicionista e ardilosa. Não passava, como dizia, de um baile de máscaras. “As pessoas se encontram para fingir. É a noite da mentira.” Um outro tipo de Carnaval, em que tudo vale, porque tudo é falso, e se tudo é falso, ninguém corre o risco de errar.

Vejo-me no pequeno quarto de meu tio, nos fundos do apartamento de minha avó, em Copacabana. Como sempre, ele está no escuro – só uma lâmpada amarela ao pé da cama. As sombras deixam meu tio, que já é misterioso, ainda mais misterioso. Eu apreciava esse mistério, que nos envolvia como uma grande manta de calor. “O mistério esquenta”, ele me disse um dia. “O silêncio e os segredos também.”

Embora não fumasse, ou talvez por isso, era um fervoroso adepto das metáforas do fogo. “Veja o sol. O sol é uma bola de fogo, ele queima e só porque queima está vivo”, me explicava. Eu tentava repetir o que aprendi na escola, que não, o sol não é uma bola de fogo, mas uma esfera de plasma. Um imenso reator nuclear. Mas, se, até hoje, nem eu mesmo entendo isso muito bem, naquela época tudo me escapava e eu emudecia. Mais tarde entendi que é de desconhecimento em desconhecimento, de mal-entendido em mal-entendido, que a ciência avança. Mas, na juventude, não tinha a menor ideia disso.

Volto ao quarto de meu tio, que era quase um armário, e não um quarto. Ainda a metáfora do sol: o quarto se assemelhava a uma nave espacial. Foi ali, sentindo o cheiro de seu suor e afogado nas incertezas da escuridão, que ouvi suas lições sobre a falsidade humana. O que ele tentava me dizer, no fundo, é que a cerimônia da virada era um grande teatro, era só uma ficção que todos encenávamos juntos. “Os fogos de artifício, no entanto, existem”, eu tentava argumentar. “Vá até a beira do mar e você os verá explodindo no céu.”

Mas, argumentava meu tio, as mentiras só funcionam quando arrastam consigo pedaços da verdade. “Sim, os fogos de artifício existem, mas só estão ali para encobrir a mentira. Para mascará-la”. Se toda a festa não passava de um baile de máscaras, o que, de fato, estávamos comemorando? “Eu, nada”, ele respondia. “Não preciso de máscaras para ser feliz.” Dizia-se que meu tio era um homem infeliz. Sofria das sequelas da paralisia infantil, arrastava as pernas imensas, não casou. No fim de tarde, tomava duas ou três cervejas no boteco da esquina, e era só isso. Isso, dizia-se, era sua pequena felicidade. Mas será?

“Você não fica assombrado com o que vê”? — meu tio me pergunta. O estrondo dos fogos sacode seu pequeno quarto. Clarões de luz penetram pelas frestas da porta e iluminam seu rosto. Ao fundo, muitos gritos, de júbilo e alegria. Mas não é disso que meu tio fala. “O assombro é estarmos vivos”, ele me diz. “O espanto é esse quarto, a luz fosca do abajur, nosso encontro nesse dia.” Meu tio se espantava de estar vivo. Não precisava de datas, ou de multidões, para se assombrar com a vida. A festa da virada era só um teatro. Um ritual. Não era ali que a vida latejava. “Está vendo essa mariposa no teto”? — me perguntou. “Ela, sim, carrega a vida. Ela é tudo.”