Ziraldo, ou a generosidade

Anos 1990. Eu iniciava uma carreira como editor quando, certa tarde, fui chamado à Universidade Federal de Pernambuco. Os professores tinham a ideia de um livro e nem a mínima ideia de como fazê-lo.
Enquanto dava opinião sobre o texto, sugeri um projeto gráfico leve.
“Leve, leve como?”, perguntou um dos engenheiros-autores.
“Leve. Posso pensar numa charge”, falei.
A ideia recebeu bocas tronchas como pontes. Mas o organizador precisava me dar alguma liberdade. Porque não era fácil, também, encontrar quem lidasse com a parte técnica. E ele preferiu alucinar comigo.
“Ziraldo”, eu disse.
Os engenheiros pareciam agora donzelas encantadas.
Só havia um problema, e disso só eu sabia. O primeiro era não ter o endereço de Ziraldo. O segundo era não ter grana para pagar. E o terceiro, talvez o maior, era não conhecer Ziraldo, nem ele a mim.
Porém, quando eu disse a frase seguinte, o abismo se abriu, e gosto disso:
“Ziraldo é meu amigo.”
Eu já estava ferrado. Custava nada aumentar um pouco o problema.
Era o tempo do trema. Não havia rede social. Havia já o email e consegui, através do Eudora, um programa de email institucional, obter um endereço do Uol ou Terra, que era como uma garrafa ao mar. Havia a pouquíssima chance de Ziraldo receber a mensagem.
Então praticamente me confessei ali. Mas mostrava algum brio. “Não sei como lhe pague.”
Enfim, terminei o projeto inteiro. O miolo estava pronto. Hora de ir à gráfica.
E Ziraldo nada.
Ah, a ingratidão, essa pantera.
Até que, numa daquelas tardes do terrível governo FHC, chegou a encomenda pelos Correios, à sala da coordenação. Era um desenho enrolado em um canudo. Tinha meu nome no pacote.
O remetente? Não preciso dizer.
Ficaram todos impactados. E eu estava tocado com Ziraldo. Ele sequer cobrara pelo trabalho.
Os doutores me olhavam como para um Hércules. Um semideus.
Eu estava a ponto de chorar naqueles dias, o tempo todo.
“Ziraldo, velho companheiro...” escrevi um email, de gratidão. Escrevi outro e mais outro. Sem respostas.
E nisso age o Cão, que em tudo se mete, sobretudo na edição. Um dos caras formados na França resolveu encrencar.
Ziraldo desenhara umas marcas na charge, uns logotipos, em cima de uns prédios, detonando os monopólios da indústria, e um dos doutores pediu para tirar:
“Não fica bem, vai dar confusão com parcerias da universidade.”
Etcétera.
Gente inimiga da beleza adora etcéteras.
Nisso, fui homem de verdade.
“Vocês acham que vou pedir ao meu grande amigo Ziraldo para alterar esta beleza?”
“Então não usamos a porra desse desenho", disseram.
E ficou assim.
A publicação tem uma capa insossa e triste, sem nenhum brilho, deve estar mofando na Biblioteca Central, um triste livro triste.
Mas, Ziraldo ficou sendo assim meu “amigo”, pra sempre. Nunca vi tanta generosidade.
Me despeço de você, Ziraldo, comovido, neste 6 de abril. Minha filha Annyela manda um abraço. Você não salvou somente nosso rango naqueles dias: nos deu a esperança de algum começo. A fé na imaginação como meio de vida.
Vai tranquilo, meu irmão.