O ano de 2025 assistiu à publicação de três livros que, tomados em conjunto, representam uma inflexão decisiva na maneira de compreender a política externa brasileira – não apenas enquanto prática estatal, mas enquanto problema intelectual. São eles: De Bonifácio a Amorim, de Dawisson Belém Lopes, Formação do pensamento internacional brasileiro, de Elizeu Santiago, e Sobre Hemisférios, de Luiz Feldman. O que une essas obras não é um método comum nem uma escola compartilhada, mas o fato de operarem, cada uma a seu modo, uma crítica sistemática à literatura diplomática oficial consolidada e às interpretações estabilizadas do lugar do Brasil no mundo. Mais do que revisões pontuais, esses livros produzem uma verdadeira refundação do campo, permitindo falar, com justiça, no surgimento de um pensamento internacional brasileiro, distinto tanto do pensamento político brasileiro clássico quanto da historiografia diplomática tradicional.
Dois aspectos gerais merecem destaque. O primeiro diz respeito à redefinição do objeto; o segundo, à mudança de horizonte histórico e normativo que informa essa redefinição.
Em sentido forte, as três obras representam uma inflexão estrutural no campo do pensamento político brasileiro aplicado às relações internacionais. Essa inflexão opera uma dupla ruptura. De um lado, no plano do conteúdo, rompe-se com uma longa monomania interpretativa que marcou o pensamento político brasileiro: a centralidade quase exclusiva da questão da identidade nacional – verdadeira, necessária ou frustrada – em detrimento das representações do Brasil no sistema internacional. O Brasil foi pensado obsessivamente como problema interno, como formação social incompleta ou Estado inacabado, enquanto sua inserção no mundo aparecia como derivação quase automática dessas carências. De outro lado, esses livros também ultrapassam os limites do que, mais recentemente, passou a ser chamado de pensamento diplomático brasileiro. Essa literatura, embora meritória ao deslocar o foco da dimensão interna para o plano externo, acabou por se fixar quase exclusivamente nos discursos e formulações produzidos por diplomatas profissionais, tomando o Itamaraty como locus praticamente exclusivo da reflexão internacional. A noção de pensamento internacional brasileiro, tal como emerge nesses três trabalhos, vai além. Ela incorpora não apenas diplomatas, mas também políticos, intelectuais públicos, juristas, sociólogos e teóricos sociais que, em diferentes momentos, contribuíram de maneira decisiva para a elaboração das imagens do Brasil no mundo – frequentemente com impacto igual ou superior ao dos próprios operadores diplomáticos. Trata-se, portanto, de uma ampliação simultânea do objeto, dos atores e dos registros intelectuais considerados legítimos.
O segundo aspecto comum às três obras diz respeito ao horizonte histórico que as informa. Elas são representativas do esgotamento da era liberal da globalização como chave interpretativa da política externa brasileira. A partir desse esgotamento, torna-se possível – e necessário – reler o passado internacional do Brasil sem os filtros normativos que naturalizavam certas continuidades, supostas tradições e consensos imaginários. Subvertem-se, assim, vários clichês duradouros: a historiografia diplomática excessivamente centrada no Prata, no Barão do Rio Branco ou na República; a ideia de uma política externa consensual, tecnocrática e imune ao conflito ideológico; e uma narrativa frequentemente inofensiva, anedótica ou autorreferente, produzida por diplomatas sobretudo para consumo interno. A consequência mais profunda dessa virada é a recuperação da distinção intelectual entre partidos e correntes ideológicas na formulação da política externa. Questiona-se o Rio Branco como fiat lux – foi ele um começo ou um fechamento? – e recupera-se o século XIX como terreno de disputas intelectuais reais. Ao mesmo tempo, rompe-se o monopólio diplomático sobre o tema, recolocando a política externa no campo mais amplo das políticas públicas e do pensamento social. Nada disso é feito por curiosidade erudita. A preocupação dos autores é eminentemente prática: trata-se de mostrar como interpretações consolidadas do passado continuam a informar, muitas vezes de maneira acrítica, as concepções contemporâneas de política externa. A mesa está posta não para uma história anedótica, mas para uma reflexão sociológica, histórica e teoricamente informada sobre os cânones vigentes.
Professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, Dawisson Belém Lopes reúne em De Bonifácio a Amorim um conjunto de trabalhos que opera uma crítica consistente à visão insulada, burocrática e estatista da formação da política externa brasileira. Seu ponto de partida é a recusa da ideia de que a política externa possa ser compreendida como produto quase exclusivo de uma racionalidade técnica ou de uma tradição corporativa do Itamaraty. O autor trabalha com uma perspectiva de sociologia histórica, interessada em mostrar como a política externa refletiu – e, em certa medida, continua refletindo – representações de interesses oligárquicos ou elitistas da sociedade brasileira, projetadas ao longo do tempo para além do plano estritamente interno. Um de seus méritos centrais é recolocar o papel das ideias no centro da análise da política externa brasileira. Dawisson identifica sucessivas formas de bovarismo internacional – o europeísmo, o americanismo e, mais recentemente, o bricsanismo – marcadas pela disparidade recorrente entre aquilo que o Brasil aspira a ser e aquilo que efetivamente pode ser no sistema internacional. A política externa aparece, assim, como espaço privilegiado de manifestação dessa tensão estrutural entre aspiração e realidade, frequentemente resolvida por meio de projeções simbólicas que excedem as capacidades materiais do país. Ao fazê-lo, o autor abre o campo da política externa à análise das ideologias, das autoimagens e das crenças coletivas, afastando-se tanto do institucionalismo estrito quanto de leituras economicistas ou sociologizantes que tendem a reduzir o político a mero epifenômeno.
Professor do Cefet e atual presidente do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Elizeu Santiago apresenta, em Formação do pensamento internacional brasileiro, um trabalho de natureza eminentemente histórica, baseado em extensa e minuciosa pesquisa de arquivo. Seu alvo principal é o lugar-comum segundo o qual a política externa do Império teria se baseado na conciliação partidária, no consenso entre elites ou na neutralização ideológica – interpretação associada a autores como Amado Cervo e José Honório Rodrigues, e frequentemente mobilizada para justificar a ideia de que apenas a política externa republicana, a partir do Barão do Rio Branco, mereceria exame substantivo. Contra essa leitura, Santiago demonstra que o século XIX brasileiro foi marcado por um campo intelectual intensamente disputado, no qual partidos e correntes divergentes formularam projetos internacionais distintos e, por vezes, incompatíveis. A política externa não foi simples consequência automática de vícios sociais ou de pressões estrangeiras — tanto que figuras como o Visconde do Uruguai desejavam que assim fosse, precisamente porque não era. Ao longo do tempo, ela se liberaliza, se ideologiza e se pluraliza, acompanhando as transformações do próprio Estado imperial. O autor identifica dois grandes paradigmas de política internacional no século XIX, antecipando em quase um século a linguagem normalmente reservada ao período republicano. De um lado, o paradigma saquarema, centrado na unidade nacional, na centralidade política do Estado e no intervencionismo circunstancial; de outro, o paradigma luzia, associado ao americanismo, ao federalismo, ao normativismo jurídico, ao pacifismo doutrinário e à primazia de soluções comerciais e jurídicas. Com isso, Santiago desmonta a ideia de monolitismo e devolve densidade histórica ao Império, recolocando-o como momento decisivo da formação do pensamento internacional brasileiro.
Deixo de aqui me aprofundar na análise dos dois trabalhos. O livro de Dawisson Belém Lopes já foi objeto de exame extensivo em resenha publicada recentemente em revista especializada, o que dispensa retomá-lo neste espaço. Quanto ao livro de Elizeu Santiago, tive ocasião de discutir seus argumentos centrais no prefácio que escrevi para a obra, ao qual remeto o leitor interessado.
Enquanto o livro de Dawisson tem inclinação mais sociológica, e o de Elizeu, histórica, Sobre Hemisférios, de Luiz Feldman, embora também recorra à História, apresenta de forma mais nítida uma dimensão própria da teoria política. No interior desse registro, adota uma visão objetiva e realista da política no campo das relações internacionais, mais ajustada à aspereza do mundo atual do que os moralismos dominantes da já defunta época da última globalização. Esse realismo, ademais, aplica-se a uma concepção das relações internacionais pensadas espacialmente – daí o subtítulo do livro: Capítulos de geopolítica brasileira.
Ao contrário, porém, do que possa parecer à primeira vista, essa geopolítica nada tem a ver com o pensamento geopolítico brasileiro do século XX associado à Escola Superior de Guerra, de Eduardo Backheuser ao general Meira Mattos. Não se trata de produzir um pensamento geopolítico brasileiro como doutrina a ser seguida, mas de torná-lo visível por meio do recurso à história do pensamento internacional produzido em ato pela política externa brasileira ao longo dos últimos 180 anos. Também não estamos diante de uma história geral e desinteressada desse pensamento. O propósito do autor é desmontar a interpretação hegemônica segundo a qual o Brasil possuiria uma identidade internacional fixa e duradoura, erigida por seus cultores ao patamar de “tradição diplomática”, supostamente seguida de forma estável e coerente por ícones da nossa política externa, como o Barão do Rio Branco, Oswaldo Aranha, Santiago Dantas e Araújo Castro. Essa leitura tende a frisar a escassez de excedente de poder do Brasil e a necessidade invariável de recorrer à brandura como princípio orientador da política externa.
Pois bem. Luiz Feldman pretende desmentir essa interpretação por meio do recurso rigoroso à historiografia contextualista da chamada Escola de Cambridge, com o objetivo de evidenciar, ao contrário, o caráter equivocado e ideológico de semelhante construção. Para tanto, reconstrói, com grande erudição, os debates travados no âmbito político e diplomático desde o reinado de Dom Pedro II até o governo Castelo Branco, mostrando que jamais houve constância na forma pela qual a política externa brasileira respondeu ao desafio de pensar o Brasil no mundo, articulando, de um lado, o interesse nacional e, de outro, os constrangimentos da ordem internacional – e demonstrando que essa suposta identidade brasileira, na verdade, sempre esteve em disputa. Para se desincumbir dessa tarefa, ao longo dos quatro capítulos do livro, o autor subverte deliberadamente o referido cânone “oficial” dos estadistas e formuladores da política externa: em lugar do Barão do Rio Branco, o Visconde do Uruguai; em vez de Oswaldo Aranha, Joaquim Nabuco; no lugar de Santiago Dantas, Gilberto Freyre; em substituição a Araújo Castro, Afonso Arinos de Mello Franco.
Não se trata de reduzir a importância daqueles personagens, mas de evidenciar a existência de outros, até hoje mantidos na sombra, que se revelam tão relevantes para a formulação de nossa política externa quanto os primeiros – que, aliás, também comparecem na obra, embora em posição secundária e igualmente submetidos à reinterpretação. Cada um dos autores examinados em cada capítulo teria avançado, ao longo do tempo, em diferentes momentos da história, bem como do desenvolvimento brasileiro, na formulação de um tipo específico de paradigma da política externa brasileira: Uruguai, como aquele que fixou a América do Sul como espaço privilegiado de atuação do Brasil para a preservação de sua grandeza; Nabuco, como aquele que definiu a América, ou o hemisfério (latitude), em aliança com os Estados Unidos; Freyre, como aquele que estabeleceu o espaço tropical, lusófono, em articulação com o império português ou com seu sucessor; por fim, Afonso Arinos, como o responsável pela fixação do Sul, ou hemisfério sul (longitude), entendido como Terceiro Mundo ou, no jargão atual, o Sul Global.
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