Fazia sete graus negativos em Moscou naquela quarta-feira, 30 de dezembro de 1925. Ao perceber uma movimentação próxima à Estação de Trem Leningradskaya, um mendigo que acabara de sair de seu albergue aproximou-se com curiosidade. “Quem é que estão levando aí?”, perguntou. O poeta Vadim Sershenevitch, que registraria este episódio em suas memórias, escreveu que o homem estava todo maltrapilho, sujo e com a barba desgrenhada. “Iessiênin”, lhe responderam. “Aquele que escrevia poemas?”, quis confirmar. “Sim.” Ao ouvir aquilo, o homem maltrapilho atirou-se no chão coberto de neve, chorando como uma criança. Foram poucos os que chorariam com tanta veemência no velório que aconteceria a pouco mais de 8 quilômetros dali, no prédio da Dom pechati (“Casa da Imprensa”), na Rua Nikitski Bulvar, número 8. Aquele homem, que à primeira vista parecia um estranho, perambulou pelos mais diversos antros da noite com um dos mais importantes poetas da Era de Prata da Rússia, quando este se afundou numa sequência de destruição causada pelo álcool.
A decisão de fazer o enterro em Moscou partiu de Sofia Tolstaia, sua terceira esposa, neta do escritor Liev Tolstói. O corpo de Sierguéi Iessiênin foi encontrado no quarto 5 do Hotel Angleterre, em Leningrado, como era então chamada a cidade de São Petersburgo. Apenas três anos antes, Iessiênin havia se hospedado naquele mesmo quarto com a bailarina norte-americana Isadora Duncan, com quem estava casado na ocasião. Devido aos seus problemas com o vício da bebida, que o consumia de modo vertiginoso, Iessiênin foi internado na clínica psiquiátrica nº 1 da Universidade de Moscou. O tratamento deveria transcorrer por dois meses, mas, em 21 de dezembro, o poeta simplesmente decidiu ir embora. Escreveu um bilhete à sua mulher, dizendo que não gastasse dinheiro à toa com o registro dele no apartamento em que viviam. Iessiênin não voltaria mais para lá.
O que pesou na decisão de se transferir para o Hotel Angleterre foi o fato de que por lá moravam amigos de longa data, o jornalista Gueórgui Ustínov e sua esposa, Elizaveta. Sua primeira opção, entretanto, foi passar uns dias na casa de outra pessoa que lhe era muito próxima, o poeta e tradutor Wolf Erlich, a quem telegrafou de Moscou pedindo que lhe encontrasse moradia. Foi a ele, nas vésperas de morrer, que Iessiênin colocou no bolso o poema “Até a próxima, meu amigo, até”. Ao perguntar se poderia lê-lo no instante em que o recebeu, diante do casal Ustínov, o poeta disse que não. Todos se encontravam no fatídico quarto número 5. “Leia-o quando estiver sozinho.”
Aquela foi a última obra escrita por Sierguéi Iessiênin. Sem conseguir dormir, postou-se diante da janela, de onde era possível ver a Catedral de Santo Isaac. Tão logo o sol nasceu, o poeta correu para escrever um poema. Não havia tinta em seu cômodo. Com medo de perdê-lo, cortou um pulso. Com o próprio sangue escreveu a primeira estrofe. Foi preciso sangrar o outro braço para concluir a última estrofe. Uma de suas últimas linhas mencionava uma “separação predestinada”. Não era a primeira vez que Sierguéi Iessiênin falava da própria morte em seus poemas.
Vejamos estas quadras escritas quando o poeta contava apenas 19 anos:
Escuta-me agora, oh coração imundo,
Coração de cachorro, esse que é meu,
Contra ti, como se fosse com um ladrão,
Nas minhas mãos eu vim escondendo uma faca
Mais cedo ou mais tarde enfiarei eu a
Fria lâmina do aço cravando-a nos ossos
A essa eterna distância apodrecida já
De maneira nenhuma, aspirá-la eu não posso.
(...)
A espiral de agonia na qual Iessiênin andava, em círculos contínuos de bebedeiras, brigas de rua e total instabilidade emocional, fez com que a visão da morte se tornasse cada vez mais presente em seus últimos momentos, como se pode ver nesta estrofe escrita um ano antes de seu enforcamento:
A si mesmo defunto
Num caixão me vejo
Embaixo de aleluias,
Um sacristão que geme
A morte já encobre
As pálpebras e eu desço
Colocando nelas
Dois dobrões de cobre.
(...)
Mas nenhuma criação foi mais eloquente do estado de angústia em que Iessiênin se encontrava do que sua obra-prima, o poema longo “Pessoa de preto”, que consumiu dois anos de trabalho e foi concluído um mês antes de sua morte. No Angleterre, onde recebeu amigos, inclusive seu mestre Nikolai Kliuev, o poeta fazia questão de lê-lo. Compartilho aqui a tradução que fiz das primeiras estrofes.
Pessoa de Preto
Amigo meu, amigo meu,
Eu estou muito, muito doente
Eu não sei de onde é que esta dor me vem.
Talvez do assovio do vento
Por sobre um campo que não tem ninguém
Ou será que, como setembro limpa o bosque,
O álcool vai limpar o meu cérebro também?
Minha cabeça acena com as orelhas
Como a asa que a ave movimenta.
No meu pescoço estão as minhas pernas,
Que não suportam ficar desta maneira.
Pessoa de preto,
Pessoa de preto,
Pessoa de preto
Do meu lado na cama é quem se senta,
Pessoa de preto
Não me deixa dormir a noite inteira.
Pessoa de preto
Desliza o dedo sobre um asqueroso livro
E sobre mim, com a voz anasalada,
Fala sobre defunto com um abade
Lê para mim a biografia
De algum patife, um vagabundo horrível.
A minha alma, com angústia e medo, invade.
Pessoa de preto,
Pessoa de preto (...)
Os contemporâneos do poeta não tiveram dúvidas a respeito do suicídio — nem os parentes, nem os amigos próximos. Os questionamentos surgiram posteriormente, a partir dos anos 1970, devido às imprecisões do laudo cadavérico, bem como à descrição do perito criminal que deixou escapar detalhes. A mais eloquente das questões é o ferimento na testa do cadáver, que deu margem à interpretação de que houve luta corporal, além da ausência de registro de seu nome no hotel. Ainda assim, especialistas asseguram que o trauma não seria capaz de ter causado o óbito. O principal elemento contra a versão de assassinato é que o corpo foi encontrado em um quarto fechado por dentro. Quem defende que o poeta foi morto, por outro lado, não é capaz de nomear alguém diretamente interessado nessa tragédia, culpando genericamente o poder soviético. Mas, à época, o Kremlin passava por uma feroz luta intestina entre os aliados de Trótski e de Stálin.
Foi anunciado que, em breve, alguns documentos relacionados com a morte do poeta serão abertos à consulta. Enquanto o mistério permanece, a poesia de Iessiênin, escrita com sangue, merece cada vez mais um lugar mais alentado em nossa literatura.