“Sobre a independência da Ucrânia”: o poema maldito de Joseph Brodsky

Poeta escreveu uma composição cifrada a qualquer estrangeiro, mas completamente reconhecível para um falante de língua russa minimamente letrado

Depois de ouvir o aplauso da plateia, após a leitura de um dos seus poemas, Joseph Brodsky, então com 52 anos, mexeu em algumas folhas de ofício, coçou a cabeça com a mão direita e disse: “Eu vou ler para vocês uma coisa meio arriscada, mas de qualquer forma, eu vou ler”. Havia apenas 10 meses que a União Soviética entrara em colapso e, na sequência daquele acontecimento, um referendo dos ucranianos ratificava a decisão de se separar. Brodsky abriu uma garrafa de água mineral e serviu-se antes de recitar o seu “Sobre a independência da Ucrânia”. Era uma sexta-feira. Dia 20 de outubro de 1992. Palo Alto, Califórnia. Aproximadamente mil pessoas estão na plateia de um centro comunitário judaico para assistir àquele recital.

Por alguma razão, o poema lido, em algumas ocasiões a amigos íntimos e em apresentações públicas, nunca chegou a ser incluído em nenhum dos quatro livros que foram lançados por Joseph Brodsky até 1996, ano da morte do escritor. Tampouco figurou nas suas obras completas, lançadas em 2001, numa edição de sete volumes. O que suscitou rumores, do lado dos russos de pensamento político mais liberal, de que o texto fosse inautêntico, dada a agressividade do tom, algo pouco usual o estilo de Brodsky, que considerava a única coisa comum entre política e poesia o fato de iniciarem com a mesma letra: “p”. As dúvidas só foram dirimidas por completo quando, em 2015, foi postado um vídeo no Facebook com a apresentação.

“Sobre a independência da Ucrânia” foi escrito com uma série de referências históricas, expressões idiomáticas, além de trechos escritos na língua ucraniana, resultando em uma composição cifrada a qualquer estrangeiro, mas completamente reconhecível para um falante de língua russa minimamente letrado. Era como se Brodsky quisesse conversar apenas com os seus.

No ofício desta tradução, vali-me do auxílio do poeta e editor da seção de prosa da revista Moskva, Iliá Ogandjanov. Já na primeira estrofe do poema, Brodsky dá a entender que o conflito entre ucranianos e russos vem de muito longe e apresenta um episódio ocorrido durante a Grande Guerra do Norte, ocorrida no século XVIII, na qual as tropas do jovem rei Carlos XII, da Suécia, se bateram contra as do tzar Pedro, o Grande. Espécie de governador da região autônoma da margem esquerda da Ucrânia, leal à coroa russa, o líder do exército dos cossacos, o hétman Ivan Mazepa mudou de lado e aliou-se aos suecos. Símbolo de traição na Rússia, Mazepa foi proclamado herói na Ucrânia. Seu rosto figura nas cédulas de 10 grívnias, moeda nacional ucraniana e, em 2022, o presidente Volodymyr Zelensky deu a uma corveta classe A da da marinha o nome de Ivan Mazepa.

Meu querido Carlos XII , a Batalha de Poltava,
graças a Deus, foi perdida. Como o velho calvo já falava
o tempo vai mostrar o que é bom pra tosse”: a ruína tamanha,
os ossos da alegria póstuma vão ter gosto de Ucrânia.

Aqui, Brodsky junta dois personagens históricos que chefiaram a URSS: Vladimir Lênin (no original kartavy: que significa “o da língua presa”, era uma alcunha dada a Lênin) e Nikita Khrushchov, sucessor de Stalin, de origem ucraniana. Em russo, há uma expressão popular rural: “a mãe de Kuzmá”, que se configura numa espécie de ameaça. Em alguns dialetos, Kuzmá é um espírito maligno cuja mãe é um ser ainda mais assustador. Essa frase, citada no original de Brodsky, foi proferida por Nikita Khrushchov (“eu vou mostrar pra vocês a mãe de Kuzmá”), por ocasião da primeira visita de um líder soviético aos Estados Unidos, em 1959. Optei por uma expressão equivalente (“bom pra tosse”) e fundi os dois líderes a partir de uma característica física comum (“o calvo”).

Não há mais o verde-vermelho, radioativo, com isótopo,
é o azul-amarelo que tremula lá em Konotop,
em um pano cortado de uma tela: guardada pelo Canadá —
por acaso não tem cruz lá , pois isso, para estes cocós, não dá.

Comecemos pelo final. O termo khokhlý é extremamente ofensivo e se refere aos ucranianos. Tem origem no penteado em um rabo de cavalo sobre a cabeça careca usado pelos cossacos. Significa “arenque”, um tipo de peixe que se come em conserva, cujos fiapos lembram o formato do penteado. Optou-se na tradução por “cocó”, por ser uma variação de coque e que também significa excremento.

Konotop é uma cidade da Ucrânia, situada no Oblast de Sumy, a 80 quilômetros da fronteira com a Rússia. Aqui Brodsky faz alusão à mudança da bandeira da Ucrânia. A Ucrânia soviética só diferia do estandarte da URSS pelo acréscimo de uma faixa azul clara na parte de baixo. No poema, faz-se menção a verde, talvez aqui a mudança de tom se deva pela radiação, evocado no “isótopo”, numa alusão ao acidente da usina nuclear de Chernobyl.

No poema, a nova flâmula foi costurada sob o esquadro e com um tecido guardado no Canadá, numa alusão ao fato de que para lá que imigrou, após o fim da Segunda Guerra Mundial, a maioria dos apoiadores do ultranacionalista e colaborador nazista Stepan Bandera, entre os quais: Yaroslav Hunka. Hoje, com 100 anos, ele combateu na Divisão Galícia da SS, pertencente à ala militar do Partido Nazista. Em 2023, Hunka recebeu uma homenagem do presidente da Câmara dos Comuns, Anthony Rota, e foi aplaudido de pé pelos membros da Câmara e pelo primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, bem como pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em visita ao país. Após repercussão negativa no mundo inteiro e dos protestos da comunidade judaica, Rota renunciou ao cargo, a homenagem a Hunka foi desfeita e a Câmara dos Comuns emitiu uma nota contra o nazismo.

Eis a saudação deles, pão que em grana se enrola, sementes à mão se vê!
Não cabe a nós, os açougueiros, denunciar por traição todos vocês
Nós mesmos, perante ícones, passamos setenta anos em Riazã,
nós vivemos enchendo a lata como nos tempos de Tarzã.

Aqui, Brodsky aludiu ao rushnik, uma toalhinha bordada que representa hospitalidade e ao karbovanets, unidade monetária ucraniana antiga. Riazã é a cidade russa, em cuja região nasceu o poeta Iessiênin, para Brodsky uma espécie de representação do coração profundo do país. Nos versos finais da estrofe, o poeta condena seus compatriotas, pois, mesmo sendo cristãos ortodoxos de origem, os russos aceitaram por 70 anos o estado ateu soviético. No original, Brodsky alude a um termo pejorativo usado por ucranianos e poloneses em relação aos russos katsaps, palavra de origem árabe, que significa “açougueiro”.

Vamos dizer para eles, vá pra pausa que o pariu, assim, bem seco:
a serventia da casa para vocês, seus cocós, peguem o beco.
Saiam de perto de nós, de traje típico, isso porque da farda nem relato,
mando vocês tomar no monossílabo a se estatelar nos quatro
cantos. Que suas casas de taipa agora levantem os Fritzes
e a polacada: vão abaixar os cotovelos e joelhos de vocês, patifes.
Se a corda está no pescoço, aí quebramos juntos o galho que se trouxe
mas o frango do borscht vocês roem sem nós, pois é mais doce.

Traduzi por “traje típico” onde no original está zhupan, uma vestimenta nacional ucraniana. No original há mazanka, habitações feitas de pau a pique e barro, próprias da Ucrânia. Traduzi como “Fritz” o que no texto de Brodsky é “Ganz”, sobrenome que no imaginário russo é mais comum na Alemanha. “Borscht” é uma tradicional sopa à base de beterraba e batata da culinária ucraniana, muito popular na Rússia.

Na estrofe abaixo, a referência ao rio Dniepre que nasce na Rússia e corre para a Ucrânia.

Vão embora, seus cocós! Vivemos muito tempo juntos, basta.
Se cuspir no Rio Dniepre, talvez ele corra ao contrário numa vasta
expressão de desdém contra nós como um trem que do orgulho se gera
com seus cantos revirados carregando um rancor mútuo de eras.

A estrofe seguinte nos parece não precisar de maiores esclarecimentos. O “rasgar as vestes” é um intertexto bíblico, associado à aflição, presente no texto original.

Não se lembrem de nós com rancor! Do vosso céu e pão
não precisaremos: as telhas e os farelos nos engasgarão.
Não vale a pena gastar sangue, rasgar as vestes nos pós.
Acabou-se o amor, se é que ele algum dia houve entre nós.

No quarteto seguinte, a “raiz do verbo” tem a ver com a origem comum do idioma das duas nações, o russo e o ucraniano. Optei por “cocos ocos” ao traduzir a palavra kavun, que significa “melancia” em ucraniano e que, por analogia ao vazio da cabeça, é mais uma maneira depreciativa de se referir a eles.

A raiz do verbo vai ser em vão ficar fuçando: é chão que não se ara.
Foi a terra quem lhes deu à luz: o solo, esta terra negra e rara.
Cheios de direito, plantando contra nós, isso não dá mais.
Essa terra, seus cocos ocos, nunca vai deixar vocês em paz.

Não me parece que haja necessidade de explicações na estrofe a seguir.

Vão-se: as pradarias-estepes, os melanciais, as belezuras,
[o sabor e cheiro.
Mais do que isso, perdemos: muito mais em gente que em dinheiro.
Em algum momento vamos superar. E quanto ao choro dos olhos
não há decreto nos fólios que prorrogue-o, que isole-o.

Por fim, no último quarteto, Joseph Brodsky faz menção a Aleksandr Púchkin (1799-1837), poeta nacional russo, e a Taras Shevchenko (1814-1861), considerado o fundador da moderna literatura ucraniana.

Vão com Deus, suas águias, cossacos, hétmans, carcereiros!
Porém quando chegar, seus brutamontes, o momento derradeiro
o que vocês irão arfar, arranhando o colchão, para frente e para trás,
serão os versos de Aleksandr e não as besteiras de Tarás.

Como era de se esperar, o poema de Brodsky se ressignificou à medida que as relações entre Rússia e Ucrânia chegaram a um ponto sem retorno. A testificação de sua autenticidade teve um efeito devastador, no espectro ideológico de viés mais ocidentalizado, furor equivalente à publicação, em 1975, na revista Slavic Review do poema “Ode a Stalin”, de Óssip Mandelstam, coincidentemente, uma das maiores influências de Brodsky. Por ironia do destino, seu poema, nos círculos literários liberais russos, passou a ser chamado de “antiode”.

O crítico literário e biógrafo de Mandelstam, Oleg Lekmanov, escreveu que transformaram o poema, que ele achava exibicionista e grosseiro, em algo monstruoso. Entre os apoiadores do governo, o poema foi celebrado. Uma das principais estrelas do jornalismo estatal, Margarita Simonyan, postou, em 2023, um vídeo em suas redes sociais recitando de cor o poema.

Apesar de todas as discussões que suscitam até hoje e, mesmo passadas três décadas de sua escrita, “Sobre independência da Ucrânia” continua inédito e não figura em nenhum livro publicado por Joseph Brodsky.