Amina, corpóreo elemento.
Anima no corpo se engata.
Animal, esse ajuntamento.
Lâmina desajunta e mata.
“Anagramas” – Luiz Coutinho
Em um poema transbordante de ternura, Mário Quintana (1906-1994) ensina que “Amar é mudar a alma de casa”. Caso perguntassem ao poeta como se dá essa mudança, é provável que ele dissesse: do coração de quem ama para o coração da pessoa amada. Poetas têm “cardiofilia”, o coração é, de longe, a parte do corpo mais citada por eles, e isso acontece por ter ganhado a fama de morada da alma.
Todavia, ao abarrotarem seus poemas com corações, poetas de todo mundo e todos os tempos propagam a mais disseminada das fake news; afinal, se a alma existe, ela certamente mora dentro da cabeça. Por que não atribuem ao encéfalo o papel que lhe cabe?! A resposta para essa pergunta toma partida na concepção da ideia de alma, e essa ideia é, a princípio, pura lucubração filosófica. Ela surge da tentativa de entender o que é a vida.
Quando se diz “enquanto há vida, há esperança”, usa-se a versão abreviada de uma passagem das Cartas a Ático, de Cícero (106 a.C. – 43 a.C.), que se consagrou no provérbio “aegroto dum anima est, spes est”, cuja tradução mais fiel é: “o doente, enquanto respira, tem esperança”. A palavra latina anima tem como acepção primária ar, sopro, respiração; e, já que a característica mais notória de um animal vivo é a respiração, passou a denotar aquilo que nos mantém vivos, ou seja, o princípio vital, e, enfim, a própria vida. No português, anima transformou-se em “alma” por um processo de dissimilação em que o “n” é trocado pelo “l”, para garantir mais contraste na pronúncia, pois estava junto do “m”, outra consoante anasalada (possivelmente, primeiro adveio a palavra “alima”, e depois o “i” desapareceu). Eis o porquê de aprendermos em nossos primeiros livros de Ciências aquele conceito apregoado por Aristóteles (384 a.C. – 322 d.C.) que divide os seres em animados e inanimados, isto é, que têm e não têm vida, ou, em outras palavras, que têm e não têm alma. Nos seus escritos, o Estagirita usava a palavra grega psyche (ψυχή), que, assim como o latim anima, de início, significava apenas respiração, sopro, mas, depois, transmudou-se semanticamente, adquirindo o significado atual de alma, expresso nos vocábulos “psicologia”, “psiquiatria” e, em outros, de largo uso. Ainda com esses mesmos significados, recebemos a palavra “espírito” do latim e, do grego, trouxemos o “pneuma” mencionado por Augusto dos Anjos (1884-1914) em seu “Último Credo”:
“É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!”
Quem não teme ser enterrado vivo? Ser dado como morto, sem que o “princípio vital” tenha-se desligado do corpo? Diagnosticar a morte nem sempre é fácil, Mefistófeles que o diga:
“Defunto ou não? Até isso me põe tonto;
Quanta vez não espiei a massa rija e fria;
Era ilusão, vibrava inda, algo se movia”.
Tal qual o personagem de Goethe (1749-1832), averiguamos se uma pessoa está morta procurando movimentos nela. Às vezes, o suposto defunto ganha umas sacudidas para ver se reage; caso permaneça imóvel, a possibilidade de estar morto aumenta, mas é a ausência de movimentos respiratórios que corrobora a hipótese de morte. Não surpreende, pois, que conjecturas pré-científicas tenham fundamentado a ideia de que o “princípio vital” nos chega pela respiração e que, ao desprender-se do corpo, resulta em morte. Com isso em mente, Homero (c. séc. VIII a.C.) descreveu a morte de Heitor: “Logo que ele terminou de falar, a morte o cobriu com seu manto; a alma voou de seus membros e desceu ao Hades, lamentando seu destino porque deixava um corpo vigoroso e jovem.”
Observe-se que, nesses versos da Ilíada, a filosofia se desdobra em mito. A extinção do corpo é inevitável; cedo ou tarde, servirá de banquete aos vermes. Diáfana e vaporosa, a alma é imperceptível; já que ninguém a vê, dá-se a ela o destino que se quiser dar, e é reconfortante ganhar imortalidade pondo-a no habitat dos deuses, mesmo que fique confinada no Hades. Além disso, se a alma é imortal, por que não pode reencarnar, instalando-se em outros corpos, ou retomar seu antigo corpo, ressuscitado por ação divina? Se existem deuses, tudo é possível...
Tal alegoria do sopro vivificante foi largamente difundida na antiguidade, mas era preciso esclarecer de onde a alma vinha. Uma explicação altissonante foi oferecida no Gênesis: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida e o homem se tornou um ser vivente.”
A alma infundida no homem concedia-lhe bem mais do que motilidade e sensibilidade,.Nela brotavam emoções, nela eram urdidos pensamentos complexos... E, pondo-se a pensar, o homem quis saber em que parte do corpo a alma era acolhida para cumprir sua missão. Disso se ocupou o imperador Adriano, na imaginação de Marguerite Yourcenar:
“Voltei ao estudo da anatomia iniciado superficialmente em minha juventude, já agora sem a finalidade de examinar seriamente a estrutura do corpo. Dominava-me a curiosidade sobre as regiões intermediárias onde a alma e a carne se fundem, onde o sonho corresponde à realidade e, por vezes, a ultrapassa, onde a vida e a morte permutam seus atributos e suas máscaras.”
Nessa busca, entreviram-se muitas moradas para a alma.
Na Mesopotâmia, acreditavam que esse papel cabia ao fígado, provavelmente por ser a maior víscera do corpo e repleto de sangue. Ali, o interesse pelo órgão foi tanto que ensejou a prática de prever o futuro com base na inspeção do fígado de animais sacrificados. Isso foi documentado pelo profeta Ezequiel: ‘‘Porque o rei de Babilônia se detém na encruzilhada, na entrada dos dois caminhos, para consultar a sorte: sacode as flechas, interroga os ídolos domésticos, examina o fígado.”
Já os antigos hebreus, embora não desmerecessem o coração, davam os rins como sede das emoções e julgavam-nos envolvidos no discernimento moral, reflexão, entendimento e inspiração; por isso está escrito no Livro dos Provérbios: “Meus rins estremecerão de alegria quando teus lábios proferirem palavras retas.”
Na Grécia pré-socrática, Empédocles (495 a.C. – 430 d.C.) verteu a alma no sangue: “...nutrido em mares de sangue que fluem para lá e para cá, aquilo que os homens chamam de pensamento é principalmente encontrado; pois o sangue ao redor do coração humano é pensamento.”
Velho conhecido das aulas de biologia do Ensino Médio, Joannes Baptista van Helmont (1580-1644), foi o médico e alquimista do século XVII que turbinou a teoria da geração espontânea com sua receita para gerar ratos a partir de grãos de trigo e trapos sujos. Seu pensamento a respeito da alma foi igualmente esdrúxulo: ele a hospedou no estômago e disse ser ali onde ela “espera no futuro ser principalmente nutrida, cuidada, cultivada, e crescer....”
Encéfalo, fígado, rim, sangue, estômago... muitos locais do corpo foram apontados como sedes da alma, mas quem teve máximo destaque foi o coração; e já era assim na época dos faraós. Em novembro de 1922, Howard Carter (1874-1939) e lorde Carnarvon (1866-1923), anunciaram uma das mais fabulosas descobertas de todos os tempos: o túmulo de Tutancâmon. Constatou-se então que o coração permanecia no corpo da múmia; pulmões, fígado, estômago e intestinos foram preservados na tumba em vasos de alabastro.
Mas o encéfalo, por ser considerado um despojo sem utilidade na vida de além-túmulo, foi extraído do crânio e desprezado. Para os antigos egípcios, o coração estava intimamente associado à alma, sendo fonte tanto da vida quanto do bem e do mal no homem. O destino do falecido era decidido por Osíris, em um julgamento onde o deus Anúbis depositava em um dos pratos de uma balança o coração do morto e, no outro, uma pena, a pena de Maat, deusa da Verdade e da Justiça. Quem se dava bem ganhava vida eterna e felicidade; os condenados, por terem o coração muito pesado, eram entregues a Ammit, a Devoradora de Mortos, e deixavam de existir.
Aristóteles também concedia primazia ao coração, tendo-o como lugar onde reside o princípio vital e considerando-o como centro da sensibilidade, emoções e movimentos; no livro Partes dos animais, ele propõe que o caráter tem a ver com a consistência e tamanho do órgão:
“As diferenças respeitantes à dimensão, grande ou pequena, do coração ou à sua maior dureza ou maleabilidade, interferem de certa forma no caráter. Assim os animais com pouca sensibilidade têm o coração duro e espesso; os outros têm-no mais maleável. Os que o têm grande são covardes, os que o têm pequeno ou médio são mais ousados.”
Serve-se desses ensinamentos quem acusa alguém de ter o “coração duro” ... Nenhum filósofo da antiguidade influenciou tanto a civilização ocidental quanto Aristóteles. Ainda nos dias de hoje, graças a Aristoteles, os casais apaixonados expressam seus sentimentos desenhando coraçõezinhos. Coragem, misericórdia, cordialidade, acordar, concordar, discordar, recordar, decorar (no sentido de memorizar) e outras palavras que usamos no dia a dia denotam o dogma aristotélico; elas provêm do latim cor/cordis, que significa coração. O coração age com estardalhaço. Em situações de alta carga emotiva, ele põe-se a trabalhar de forma mais vigorosa, e isso é facilmente detectado, pois os batimentos são percebidos pelo ouvido e pela palpação; portanto, é compreensível que tenha sido eleito como centro das paixões e emoções.
O encéfalo trabalha silenciosamente, sua discrição propiciou ao coração usurpar-lhe o trono. Todavia, antes de Aristóteles perder-se em tão retumbante erro, outros sábios gregos já tinham concedido ao encéfalo o honorável papel que lhe cabe, tanto assim que Hipócrates, no século V a.C., declarou que por meio dele “...nós pensamos e compreendemos, vemos e ouvimos, discriminamos entre o feio e o belo, entre o que agrada e o que desagrada, entre o bem e o mal.”
Levou tempo para a supremacia do encéfalo ser definitivamente acatada. Dois mil anos depois de Hipócrates, Shakespeare mostra isso no Mercador de Veneza:
“Onde nasce a fantasia?
No coração, na cabeça?
Como se gera e se nutre?
Responde, responde”.
Literalmente, encéfalo quer dizer “o que está dentro da cabeça” e, nos tratados anatômicos atuais, ele é dividido em quatro componentes: cérebro, diencéfalo, cerebelo e tronco. Depois que assentaram a alma no interior da cabeça, os homens de ciência levantaram uma nova questão: em que local do encéfalo ela está alojada? Spurzheim (1776-1832), o devotado discípulo do criador da frenologia, deu-nos uma lista dos proponentes e possíveis alojamentos no sistema nervoso:
“Herophilus, nas grandes cavidades do encéfalo; Serveto, no aqueduto de Sylvius; Arantius, no quarto ventrículo; Descartes, na glândula pineal; Whaton e Schellhammer, no início da medula espinal; Drelincourt, no cerebelo; Bontekoe, Lancisi, e La Peyronnie, no corpo caloso; Willis, no corpo estriado; Vieussens, no centro oval da substância medular; e assim por diante.”
Só a proposta de René Descartes (1596-1650) teve grande notoriedade. Durante muito tempo, uma aura mistificadora pairou sobre a pineal, amparada no conceito defendido por ele. Descartes viveu na Holanda entre os anos de 1628 e 1649; nessa época, interessou-se pelo estudo da Anatomia, tendo presenciado demonstrações públicas de dissecções humanas e tendo, ele próprio, dissecado animais. Quanto ao motivo que teria levado o célebre filósofo a pôr a alma na glândula pineal, deixemos que ele mesmo explique:
“A razão que me persuade de que a alma não pode ter, em todo corpo, nenhum outro lugar, exceto essa glândula, onde exerce imediatamente suas funções é que considero que as outras partes do nosso cérebro são todas duplas, assim como temos dois olhos, duas mãos, duas orelhas, e enfim todos os órgãos de nossos sentidos externos são duplos; e que, dado que não temos senão um único e simples pensamento de uma mesma coisa ao mesmo tempo, cumpre necessariamente que haja algum lugar onde as duas imagens que nos vêm pelos dois olhos, onde as duas outras impressões que recebemos de um só objeto pelos duplos órgãos dos outros sentidos, se possam reunir em uma antes que cheguem à alma, a fim de que não lhe representem dois objetos em vez de um só. E pode-se conceber facilmente que tais imagens ou outras impressões se reúnem nessa glândula por intermédio dos espíritos que preenchem as cavidades do cérebro, mas não há qualquer outro local no corpo onde possam assim unir-se, senão depois de reunidas nessa glândula.”
Descartes justifica-se com uma argumentação incrivelmente rasa. Para começo de conversa, há outros componentes do encéfalo que não existem em duplicidade, como é o caso do corpo caloso e das comissuras anterior e posterior. A inconsistência de tal teoria foi apontada pelo filósofo Baruch de Espinosa (1632-1677), em trecho famoso apenso à sua Ética:
“Por certo, eu não posso admirar-me suficientemente que um filósofo, que tinha determinado firmemente nada deduzir senão de princípios evidentes e de nada afirmar senão aquilo que percebesse clara e distintamente, e que tantas vezes censurara os escolásticos por eles terem querido explicar as coisas obscuras por qualidades ocultas, não posso admirar-me suficientemente que ele admita uma hipótese mais oculta que todas as qualidades ocultas.”
Finalmente, chegamos na era das tomografias e ressonâncias, temos exames que possibilitam enxergar dentro do corpo e analisar o funcionamento dos órgãos. O encéfalo firmou-se definitivamente como sede do “princípio vital” na medida em que o diagnóstico de morte passou a não depender da ausência de movimentos respiratórios ou batimentos cardíacos, o que define morte é a extinção da atividade encefálica. Por outro lado, movimentos, sensações, emoções, paixões, pensamentos são inquestionavelmente engendrados no encéfalo, frutos da interação de suas diversas partes e oriundos de processos físico-químicos. Assim sendo, é de se supor que já não há cabimento para o dualismo corpo-alma, pois a “alma” é um mero produto do corpo. Parece que chegamos ao termo, mas não é assim. Falta esclarecer de onde vem tudo isso e para onde vai, questões que equivalem a perguntar se Deus existe e se morrer é desabar no nada. Muito tempo passou, mas essas perguntas continuam atormentando sábios e cientistas. Penam em vão! Para aqueles que ainda não sossegaram, fica a dica:
“Tolo alquimista, por que não te aquietas?
Falta-te a chave do supremo arcano.
A Natureza ri dos exegetas
que tentam lê-la num labor insano.
No leito de morte, falou o glorioso
Laplace que “ciência é pura
frivolidade”. Tem fim amargoso
quem das coisas singelas se descura”.
Consumir-se em prol da ciência é bobagem,
buscam-se em vão verdades absolutas.
Resfolga e faz igual ao personagem
de Kierkegaard: “Goza, não discutas.”