Uma geografia clariciana

A partir da leitura do conto “Felicidade clandestina”, a descoberta de um mundo maravilhoso: a geografia de Clarice Lispector

Não me recordo quantos anos tinha ou em que série estava, mas tenho uma clara lembrança de uma manhã dentro de sala de aula. Naquele dia, minha professora de português já havia pedido silêncio algumas vezes e entregara a mim e meus colegas uma ficha com um conto para ser lido em voz alta. Sempre que uma atividade assim transcorria, abaixava a cabeça, fazendo o possível para ficar completamente invisível e não ser uma das escolhidas. Esse método (por vezes, falho) me acompanhou durante todos os anos de escola e não me recordo de nenhuma das histórias que ouvi durante essas atividades, com exceção do conto daquele dia. Era “Felicidade clandestina”, de Clarice.

A primeira coisa que me chamou atenção estava logo no começo: a história se passava no Recife. Eu, nascida e criada na cidade, ávida leitora, jamais tinha lido um livro, crônica ou conto em que as personagens compartilhassem essa característica comigo. Antes do texto de Lispector, todas as aventuras em que havia mergulhado estavam indubitavelmente afastadas de mim. Naquele conto, lido pelas vozes gasguitas dos meus amigos de sala, ela estava ali, diante do toque. A narradora daquele texto curtinho poderia ser moradora do Bairro do Hipódromo, onde minha avó paterna morava em uma casa com jardim e eu passava os domingos. Na ocasião, era a única rua de casas que eu, criança de apartamento, conhecia.

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