Elisa Lispector, entre êxodo e exílio

Escritora assume sua identidade étnico-religiosa, sem as peias do discurso antissemita que se insinua na memória, num exercício catártico que a faz reterritorializar-se pela palavra

O êxodo, o exílio, a ausência de um lugar fixo fizeram com que o povo judeu encontrasse suas raízes na palavra. A própria palavra é, no caso específico do Judaísmo, o que o sustenta: o que, além da palavra, pode ligar um povo sem-terra, um povo em constante êxodo e exílio? Ver, por exemplo, Memória e exílio, de Sybil Safdie Douek.

Como atualizar memórias que afloram, exigindo uma forma de materialização, um sopro, capazes de estabelecer um diálogo que convoque medo, sofrimento, perdas, legando aos outros a saga de desventuras vividas por um contingente humano expulso, humilhado, escorraçado, sem porvir, largado como folhas ao vento? Responderia a poetisa brasileira Cecília Meireles, no seu Romanceiro da Inconfidência:

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

(...)

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta: (...)”

Esta foi a oportuna escolha da escritora ucraniana Leah Pinkhasovna Lispector, nascida em 24 de julho de 1911 em Savran, atualmente Ucrânia.

Pinkhasovna, emigrou para o Brasil ainda menina, com a família, tentando escapar da guerra que assolou a Europa e perseguiu em especial o seu povo. De família judaica, Leah e mais uma infinidade de pessoas fugiram das perseguições e dos terríveis pogroms, chegando, afinal, ao Brasil, aportando em Maceió e no Recife, e partindo para o Rio de Janeiro, em 1937.

Professora, jornalista, servidora pública, estreou na Literatura em 1945, com o livro Além da fronteira. A seguir, foi distinguida com os Prêmios José Lins do Rego e Coelho Neto, com o livro O muro de pedras, publicado pela José Olympio, em 1963.

Naturalizada brasileira, Leah adotou o nome Elisa Lispector. Publicou romances e contos. Escreveu 12 livros e ainda arrebatou o Prêmio Luísa Cláudio de Souza, do PEN Clube do Brasil, pelo seu livro O tigre de Bengala, em 1986. Elegemos, para esta leitura, o romance autobiográfico No exílio (1948) e o premiado O muro de pedras.

No exílio veio à luz em 1948, apresentando a saga da família de Pinkhas e Marim Lispector e suas três filhas. Estes personagens remetem à família Lispector e suas filhas. O caráter autobiográfico da narrativa justifica tais correspondências entre o vivido e o narrado. Trabalho da memória em aliança com a história. Nele, a narradora relata o doloroso périplo de um grupo de judeus fugindo da Rússia, vítimas de perseguições e da guerra mundial que assolava a Europa.

Dentre os emigrantes, a narrativa focaliza a família de Pinkhas e Marim, como já dito anteriormente, genitores de Lizza, narradora e não por coincidência, pais da escritora. O recurso à memória conduz o leitor a engajar-se na dolorosa aventura de fugir como emigrantes, apresentando-lhe a crueldade dos pogroms, o horror da guerra superlativizado pela perseguição aos judeus.

O texto está pleno de registro das notícias circulantes nos meios de comunicação, enfatizando o caráter verossímil da narrativa. Jornais, rádios, panfletos, cartas, boletins e até boatos, tudo alimentava a difícil travessia para um lugar onde estivessem a salvo da caçada ao povo de Israel.

A personagem de Lizza destaca-se como mulher decidida, descobrindo na fragilidade a força motriz da luta em busca de uma Canaã que não encontra, desenraizada que é, sem, entretanto, destruir o sonho de aportar a um lugar que se torne seu.

Entre tantos caminhos, chegam ao Brasil por Maceió. Ali foi sol de pouca dura e o Recife apresentou- se como um novo porto. No Recife viveram os Pinkhas, Marim, Lizza, Eva e Clarice. Falecidos os pais, Lizza, sozinha, contraiu uma doença que a levou ao sanatório. Mais um cais de chegada, inamistoso, porém, provisório.

O desenraizamento da família de Pinkhas e Marim leva-os a lugares nunca sonhados. De porto em porto, empurrados pelas dissensões que culminarão com a Segunda Guerra Mundial em um planeta ainda devastado pela primeira, decretando a urgência da fuga imediata. Além dos horrores da guerra, os malditos pogroms.

A narradora registra acontecimentos religiosos, enfatizando a importância da tradição judaica para aqueles seres que viveram o flagelo da expulsão e da intolerância. Os rituais religiosos, a observância das datas sagradas, as orações e os cânticos alimentavam a fé e uniam os judeus em diáspora. A autora assume sua identidade étnico-religiosa, sem as peias do discurso antissemita que se insinua na memória. Exercício catártico que a faz reterritorializar-se pela palavra. A libertação do discurso, a possibilidade de plasmar em palavras o universo sufocado, oferece-lhe a liberdade tão sonhada. A coragem e a liberdade de ser.

Exercendo o papel do griot, a quem cabia, nas sociedades tradicionais a transmissão da história, a voz narrativa de No exílio ordena os acontecimentos e, com o recurso da memória e do testemunho, entrega ao leitor toda as dificuldades vividas por aquele grupo de judeus vítimas de um ato cruel de banimento.

Como o próprio título indica, No exílio registra nascimentos, mortes, deslocamentos, cerimônias religiosas e, principalmente, acontecimentos políticos relatados em jornais ou nos aparelhos de rádio, com ênfase nos fatos envolvendo os judeus.

A conclusão de No exílio traz a Carta do Atlântico, publicada em 14 de agosto de 1941, assinada pelo primeiro-ministro britânico Winston Churchill e pelo presidente dos EUA Franklin Roosevelt. Dentre os oito pontos de destaque, a Carta do Atlântico prometia: liberdade, tranquilidade, respeito à autonomia, entre outras medidas saneadoras das grandes questões que atormentavam o povo judeu, como insegurança e perseguição.

Com uma dose extra de esperança, a narradora encerra assim o romance:

A Carta do Atlântico. As promissoras Quatro Liberdades...

Demasiado longo fora o caminho a percorrer até essas conquistas. A humanidade não haveria agora de impedir que essas promessas se transubstanciassem em verdade, em grandes e compensadoras messes de direito e de justiça.
(No exílio, 1948; 2001)

O muro de pedras: A textura de uma alma solitária

A narração de O muro de pedras é feita em terceira pessoa, por Marta, mulher solitária que deseja ardentemente atingir a liberdade. No cemitério, por ocasião do enterro do pai, encontrou uma pedra que a seduziu, pois tratava-se de um anjo em posição de voo. Com ele, teve um pressentimento e aprendeu a lição de doçura e fortaleza. O romance, concluído em 1960, só foi publicado em 1963, em razão de estar inscrito em concursos literários, tendo arrebatado dois prêmios, o José Lins do Rego, em 1962, e o Coelho Neto, em 1964.

Marta, a narradora, retomando os fios de uma teia onde se emaranham acontecimentos familiares e aprofundam a solidão da moça, que não obstante os quatro parceiros ao longo da vida, era irremediavelmente só, logrou engravidar com Bruno, seu último companheiro. Já havia tido um aborto anteriormente e se divorciado de Heitor, cuja ausência não demorou muito a substituir.

No internato experimentou o comedimento afetivo. Longe dos entes queridos, tentava suportar com ar mais frio aquela casa de todos ou de ninguém. Passava o tempo observando e tentando imitar uma ou outra menina, mas sempre voltando a cair em si mesma. Sempre tivera dificuldade em relacionamentos, inclusive com a mãe, Eunice, que tinha sempre uma palavra de desaprovação para ela.

Com a morte do pai e a partida da mãe, Marta decidiu assumir o sítio que lhe ficou de herança, mudando para a cidade menor. Ali convivia com amigos e encontrou um homem de quem engravidou.

Marta, tendo deixado a vida na cidade, onde praticava a contemplação de figuras como uma mulher fantasiada de prostituta, uma frequentadora do café e outras pessoas de quem imaginava usufruírem plenamente de uma liberdade com a qual ela sonhava, como, por exemplo, ter um amante, ou, ironicamente, viver sem um amor.

O grande anseio por liberdade acabou sufocando Marta, que não tinha um plano para usufruir da mesma que, ao contrário do esperado, a angustiava. Em seu quarto relacionamento, com um homem rústico, funcionário do sítio, diferente em tudo de seus parceiros anteriores, conseguiu realizar seu outro desejo, que era um filho.

Reaproximou-se do companheiro, mas, em pouco tempo, julgou poder refugiar-se só no filho. De repente, ela descobre, para seu desgosto, que o filho podia prescindir dela. O menino tinha ocupações e interesses que não lhe incluíam. Não havia um amor perceptível na forma como gerou e comportava-se com o filho. Carlos herdou dela a dureza e introspecção que tornava a comunicação muito complicada. Sofrida, ela conclui que procurava refugiar-se contra si mesma.

Legando a Bruno a administração total do sítio, julgava encontrar mais um sentimento de liberdade. Marta se sente “livre”, inclusive para viver sem amor, liberta das críticas, dos elos até com os setores práticos da vida. Quantas liberdades Marta queria possuir? Afinal, o que seria a liberdade para ela? Pensava em Deus e lia a Bíblia, mas buscando debalde as suas respostas. Segundo ela, havia:

A clemente bondade de Deus, que nos toma pela mão e tão afanosamente nos conduz. E tão relutantemente O seguimos.”

(O muro de pedras, p. 205)

Compreendendo afinal que poderia viver sob uma nova perspectiva uma vida prazenteira, de luz, de vozes, de pessoas, diferentemente de seus tormentos e sonegação do afeto pleno, Marta se abre para o outro escrevendo uma história onde escamoteia a solidão visceral.

CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA

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