Alexandre Luna Freire vem publicando uma série de artigos em que coloca em evidência o diálogo dos tempos. Quando o presente e o passado iluminam-se, mutuamente. Um exemplo: alguns dos seus textos chamam a atenção para os pioneirismos e antecipações de Coelho Neto (1864-1934) em torno do meio ambiente.
Quantos saberão hoje em dia quem foi Coelho Neto? Muito poucos, sem dúvida. Talvez a maioria se surpreenda, ao informar-se de que era tão forte o seu nome, nos tempos da Primeira República no Brasil, que os modernistas o elegeram como alvo preferido de ataques e rechaços. Naquela época, os modernistas tachavam de passadistas todos os que não se incluíssem no seu bando. Coisa natural da velha e pouco inteligente guerra – como todas as guerras, aliás – de jovens contra velhos, e vice-versa.
Pode-se ampliar a lista dos pioneirismos de Henrique Maximiano Coelho Neto. Como a de que foi autor ou coautor de um dos primeiros romances policiais no Brasil. Tendo nascido no Maranhão – filho de um português e uma indígena – estudou no Rio, em São Paulo e no Recife. Foi abolicionista e republicano. Sua conversão ao Espiritismo – exceto na sua particularidade insólita – lembra um pouco a do historiador Armando Souto Maior (1926-2006). Por quê? Porque ambos nos remetem ao ‘Saulo’ perseguidor dos cristãos. Convertendo-se (em) Paulo, passou a ser um ardente defensor das veredas e verdades do Cristianismo. Após o impacto sofrido a caminho de Damasco.
Os artigos de Luna Freire que chamam atenção para Coelho Neto podem servir para pensar outros autores postos em ostracismo. Como Humberto de Campos, por exemplo. A lista é enorme. Além do restrito âmbito intelectual, também são úteis para uma reflexão sobre o preconceito intelectual. Sobretudo em tempos de cancelamentos e maniqueísmos. De ideologismos adoecidos. Tão fixados estamos na má-consciência de outros preconceitos dominantes que nos esquecemos – amiúde, intencionalmente – de que o ódio e o preconceito intelectuais também existem. Daí a indiferença ou o desprezo por tanta coisa do antes que seria benéfica ao agora.
Não precisamos chegar ao nível do “unpast” de William Faulkner nem ao “tempo tríbio” de Gilberto Freyre para sublinharmos a importância do passado no presente. Visões extremas dos tempos terminam por alcançar não a Verdade – talvez sempre inalcançável pelos humanos –, mas as verdades sob a forma de miragens. Uma passagem no livro The life of reason or the phases of human progress, de George Santayana, nos serve para situar melhor o problema:
“O progresso, longe de consistir em mudança, depende da retenção. Quando a mudança é absoluta, não resta o ser a ser aprimorado e nenhuma direção é definida para o possível aprimoramento; e quando a experiência não é retida, como entre os selvagens, a infância é perpétua. Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo.”

A última frase citada costuma ser parafraseada de diversos modos, mas, em geral, excluindo-se o contexto. Este é um dos problemas do nosso tempo, tão afeito a “ídolos” (no sentido empregado por Bacon). Ficcionalizando-se tudo, mas de modo pobre, podem ser construídas mil e uma formas de representação em frenesi, mas falta o gosto pela precisão.
Com os ídolos da tribo deixamos visíveis nossas limitações de pensamento, distorcendo inclusive a realidade. Com os da caverna, erramos, porque nos levam ao erro os nossos hábitos, nossa educação e até a psicologia. Com os ídolos do foro, aumentamos, pela linguagem e comunicação deficientes, as falsas noções. Com os do teatro, aceitamos como verdades absolutas as falsidades ou verdades incompletas que provêm da cultura, ciência e filosofia, porque não pensamos criticamente.
Quem se lembrou de que, há poucos dias (precisamente no dia 9 de abril), completaram-se quatro séculos da morte de Francis Bacon? O gosto do país da “ordem” e do “progresso” pelas efemérides não revela um particular interesse pela memória, mas um despiste. Se não houvesse tanta ignorância da História, as sendas percorridas, ou melhor, as decisões tomadas no presente, seriam mais ponderadas e obteriam melhores consequências.
Há tantos preconceitos estéticos quanto sociais, políticos, morais, religiosos etc. Apenas não gostamos de discuti-los. São cada vez mais raros o senso crítico e a honestidade (de todos os tipos). O Brasil costuma ser afeito não só ao “não li, e não gostei”, mas também ao “não li, e gostei”.
O ódio intelectual está ligado a diversas outras formas de preconceitos e discriminações em que a cultura é determinante. Pensar e sentir formam – ou devem formar – uma unidade. Além disso, cabe levar em conta o que afirma Gordon W. Allport: “Derrotado no plano intelectual, o preconceito persiste no emocional”.
Certa vez, num longo estudo sobre Xavier Marques (em que chega a compará-lo a Coelho Neto), Adalmir da Cunha Miranda denuncia “a absurda teoria do ‘não li e não gostei’, que em relação a um autor como Xavier Marques nos impedia de determinar o teor da sua contribuição estética para o desenvolvimento da ficção brasileira”.
Os preconceitos e os conceitos resultam em males da razão, como nos ensina Francis Bacon. Na prática isso pode ser ainda pior do que na teoria. Mesquinhos e tacanhos muitas vezes em nossas escolhas, consideramos que há uns preconceitos legítimos, e outros, não. Nossa curiosidade e abertura de espírito são muito limitadas. Quem conhece um pouco da biografia de Coelho Neto sabe de sua generosidade com certos autores modernistas que tinham sido os mais implacáveis contra ele.
Seja como for, com ou sem memória, as vaidades – todas elas – sucumbem. Ao fim e ao cabo, deveríamos ter consciência daquelas duas verdades básicas, uma imbricada na outra: ‘memento mori’ e ‘Sic transit gloria mundi’