O toque de magia da Livraria Lello

O vento frio e a garoa insistente não desanimam as centenas de pessoas de guarda-chuva em punho em frente ao número 144 da Rua das Carmelitas, no centro do Porto, em Portugal. Mudam os dias e as estações do ano, mas chova ou faça sol, diariamente uma enorme fila serpenteia diante da mítica Livraria Lello & Irmão com turistas ávidos em visitar uma das mais mágicas livrarias do mundo.

Tão mágica que teria inspirado J.K. Rowling ao escrever a saga de Harry Potter.

Uma lenda nascida num passe de mágica, como se Harry apontasse a varinha para a elegante fachada neogótica e pronunciasse alohomora!, o feitiço dos livros que abre todas as portas. No caso da Lello, também com o condão de mudar de uma hora para outra a realidade de uma livraria com mais de 100 anos de vida, mas nem sempre imune a períodos de cobertor curto.

Cobre-se aqui, descobre-se ali e o centenário prédio onde a livraria encontra-se, observado de perto pela altivez imponente da torre da Igreja dos Clérigos, conheceu também dias menos mágicos, de reformas adiadas que chegaram a pôr em risco a integridade de um dos seus mais instagramáveis ícones, o deslumbrante vitral de oito metros no teto da livraria.
Bem diferente da atual bonança.

Mais do que uma livraria, a Lello é hoje um dos principais pontos turísticos do Porto, para onde rumam mais de um milhão de pessoas por ano. Amantes dos livros e da magia dispostos a enfrentar o tempo de espera e as agruras do clima para pagar os 8 euros (cerca de R$ 43) do ticket-voucher de entrada, que pode ser integralmente convertido na compra de um livro.

De carona na Nimbus 2000 do jovem bruxo, a Lello varreu definitivamente os dias difíceis e passou a ser um dos motores culturais do Porto. Em 2020, adquiriu por cerca de R$ 19 milhões o igualmente belíssimo Teatro Sá Bandeira, erguido em 1858 e contemporâneo da Livraria Internacional, fundada pelo francês Ernesto Chardron em 1869, após este ganhar na loteria.

Foi justamente com o espólio da livraria do sortudo Chardron que, em 1894, os irmãos José Pinto de Sousa Lello e António Lello deram salto no pequeno negócio livreiro aberto 13 anos antes. Começava ali o percurso da Livraria Lello, que, em 1906, mudou-se para o atual prédio de fachada colorida, desde então guardado pelas musas da arte e da ciência.

Em 2022, a Lello deu outro sinal de vitalidade, ao arrematar por R$ 2,7 milhões num leilão, 42 cartas manuscritas pelo Nobel de Literatura em 2016, Bob Dylan, levando para a Cidade Invicta as 150 páginas de From Dylan with Love do cultuado cantor e escritor norte-americano, um Harry Potter da música mundial, autor da celebrada Like a Rolling Stone.

Uma canção que narra as desventuras de uma milionária levada pela repentina pobreza a vagar pelo mundo, sem destino, como uma pedra a rolar.

Curiosamente, a letra é o inverso da sina vivida por J.K. Rowling que, nos inícios dos anos 1990, deixou a triste Manchester dos anos igualmente tristes do thatcherismo para viver do modesto salário de professora de um curso de inglês num Porto ainda provinciano, poucos anos antes de a escritora angariar uma fortuna maior do que a da família real.

A curta temporada like a rolling stone da escritora no Porto, de 1991 a 1993, definitivamente foi o principal ingrediente no caldeirão da lenda responsável pela metamorfose da Lello, embora, à época, a jovem Joanne Rowling (o “K” seria adicionado posteriormente como nom de plume) fizesse mágica mesmo para pagar as contas de uma vida modesta.

Joane vivia com uma amiga britânica no pequeno apartamento sobre a Farmácia da Prelada, ainda hoje de portas abertas, ao contrário do Meia Cave, o pub na beira do Rio Douro, onde a então professora de inglês conheceu o jornalista Jorge Arantes, com quem se casou e viveu uma relação tumultuada, digna das rixas entre as casas Grifinória e a Sonserina de Hogwarts.

Naquele tempo, Jo, como era conhecida entre os portuenses, já andava às voltas com o manuscrito de Harry Potter e a Pedra Filosofal, que comçara a escrever durante viagem de trem entre Londres e Manchester. Vem justamente daí a suspeita dos fãs de que o Porto serviu de inspiração para elementos que seriam utilizados no livro. E entre elas, a Livraria Lello.

E não é difícil perceber o porquê. Para além da decoração vintage da livraria, do já citado vitral no teto, das colunas e prateleiras de madeira escura que invocam a sisudez da escola de mágicos do livro, destaca-se no meio do prédio a fantástica escadaria de degraus vermelhos que se ramificam em vários caminhos, sinuosas e traiçoeiras como as escadas de Hogwarts.

Embora J.K. Rowling tenha tentado quebrar o encanto em 2020 ao afirmar nunca ter ido à livraria quando viveu no Porto – o que, convenhamos, é difícil de imaginar vindo de uma aspirante à escritora em relação a mais bela livraria local – a lenda mantém-se viva no coração e nas selfies dos milhões de fãs de Harry.

Mesmo para quem nunca leu um dos livros da série, a Lello é um programa obrigatório ao se visitar a cidade. Um passeio que pode se estender a outros pontos que remetem às aventuras do bruxo, como os turísticos Jardins do Palácio de Cristal e o Café Majestic, uma joia da atmosfera belle époque dos anos 1920, esse sim, um dos pontos onde a professora de inglês Joane disse passar as tardes, entre uma aula e outra, a rascunhar os originais do primeiro livro.

Em órbita da mágica Lello estão ainda a tradicional Escovaria de Belomonte e suas vassouras penduradas na vitrine como as lojas do Beco Diagonal e os alunos da Universidade do Porto, desfilando pelas ruas da cidade com suas capas negras a ondular com o vento, como as vestimentas dos estudantes da escola de magia.

Outra inspiração portuguesa, felizmente, não anda pelas ruas, a de Antonio Salazar, principal nome da ditadura mais longa da Europa, entre 1932 e 68. Rowling confirmou ter se inspirado nele em Salazar Slytherin, um dos fundadores de Hogwarts, um feiticeiro com achaques de extrema-direita, contrário ao acesso à escola de estudantes de “sangue-misto”.

Apesar de ainda bastante presente - em 2019 a Lello foi novamente a um leilão para comprar por cerca de R$ 380 mil um exemplar original de 1997 de Harry Potter and the Philosofical Stone - aos poucos a livraria tem sido referência para outras obras. Em 2018, foi cenário do filme Don’t read this on a plane (Não leia isto no avião, em tradução livre), sobre uma escritora em crise em tour pela Europa.

Em 2020, foi a vez da Netflix cair de amores. Os produtores de Gunpowder Milkshake usaram o interior da livraria, incluindo a escadaria vermelha, como inspiração para a biblioteca, cenário para a história. Curiosamente, a livraria queridinha das telas ainda espera ser inspiração nas páginas de um livro.

Serviço:

Como chegar: 
Rua das Carmelitas, 144

Para quem chega ao Porto de trem, a belíssima São Bento, com seus murais de azulejo, é a estação mais próxima e fica a uma curta caminhada de 10 minutos até a livraria. 

Em São Bento também há uma linha de metrô, da competente rede do Porto que liga praticamente toda a cidade e também a localidades vizinhas, como Vila Nova de Gaia e Matosinhos. 

Funcionamento: das 9h às 19h30, de segunda a segunda, exceto 25 de dezembro, 1º de janeiro, Domingo de Páscoa, 1º de maio e 24 de junho. 

Para se evitar a tradicional fila e frustrar a visita, é possível agendá-la pela internet, em
www.livrarialello.pt/pt/loja/ticket-voucher

O valor do ticket-voucher é de 8 euros e pode ser convertido na compra de um livro (cujo custo médio em Portugal é de 17 euros), não sendo descontável em outros produtos.

Os horários com menor afluência são durante o almoço e no fim da tarde. 

Pelas regras da casa, não é permitida a entrada com malas, mochilas de viagem, carrinhos de bebê e de animais. Ainda é esperado que o visitante respeite o ambiente de leitura e mantenha o celular no modo sem som.