Manuel Bandeira e Gilberto Freyre: imagem e poesia

De volta da Europa, o sociólogo Gilberto Freyre foi um dos incentivadores do “poeta grande” Manuel Bandeira. A um convite dele, deve-se a escrita de “Evocação do Recife”

Gilberto Freyre chegara da Europa e eu quis aproximá-lo da nova poesia brasileira. Não houve, porém contato que satisfizesse o jovem que chegava cheio de tantas prevenções contra a nossa pobre literatura. Ele mesmo dissera, sobre Gonçalves Dias, que nós não havíamos tido um grande poeta, mas pedaços de grandes poetas em Castro Alves, Álvaro [Sic] de Azevedo, Gonçalves Dias. Isto foi em 1923. [...] Um ano depois2, Gilberto Freyre encontrara um grande poeta no Brasil. Em 1925, aparecia um longo artigo de Gilberto no Diario de Pernambuco [...], falando de um Manuel Bandeira que eu ainda não conhecia banhado de um entusiasmo de quem houvesse descoberto uma terra nova: o grande poeta já não era um esperado ou um pedaço de grande poeta.

Os seus comentários diziam respeito ao volume Poesias, editado em 1924, e que reunia três livros prévios de Bandeira: A cinza das horas, Carnaval e Ritmo dissoluto:

Versos cheios da dolorosa coragem de ser doentes. [...] Sente-se nos versos do poeta pernambucano, um homem em que a emoção da doença aproximou da alma. Daí talvez a sua voz baixa [...] por ser a de um homem perto da alma. [...] De “sua fina e doce ferida” lhe escorre o fio da emoção por alguns versos nada mórbidos ou doentios. Ninguém lhe vê a ferida [...] sua emoção [...] Conhece o pudor [...] é a emoção íntima da doença criando no poeta um estado de alumbramento:

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Mas nesses aparentes olhos de meninos em dia de Primeira Comunhão [...] ardem volúpias em torno de coisas da terra [...] ardem também lúbricas pontas de dedos em busca de formas de mulher [...] E, entretanto, são versos que por vezes terminam no desencanto da volúpia erótica:

A volúpia é bruma que esconde
Abismos de melancolia.”3

Nunca se falou em voz tão baixa na poesia brasileira. Nunca, entre nós, poeta nenhum cantou o amor por mulher nessa voz misticamente grave...

Firmou-se a amizade entre os dois que iniciaram uma animada correspondência. Em 1925, Bandeira assinala, em carta ao seu amigo Ribeiro Couto, a escritura de um poema que certamente marcou a memória de todo pernambucano afeito à literatura:

Mando-lhe os versos que fiz a pedido do Gilberto Freyre, pernambucano inteligentíssimo do Recife, para o álbum comemorativo do centenário do Diario de Pernambuco (o jornal mais antigo da América do Sul. Mas há um jornal do Chile que disputa o título) ...

Os “versos” eram “Evocação do Recife” – poema que consagrou, por assim dizer, a “pernambucanidade” de Manuel Bandeira – publicado pela primeira vez a 7 de novembro de 1925, no álbum comemorativo mencionado, que ganhou o título de Livro do Nordeste.

O poeta tinha 39 anos, vinte e nove dos quais fora do Recife, onde nunca mais moraria4. Portanto, seria injustificada a minha surpresa em princípios de minha adolescência ao ouvir na voz do poeta uma gravação do “Evocação do Recife”, recitada com o mais genuíno sotaque carioca.

O poeta é muito agradecido pelo retorno ao Recife que atribui ao convite de Gilberto Freyre5 cuja sensibilidade tão pernambucana muito concorreu para me reconduzir ao amor da província e a quem devo ter podido escrever naquele mesmo ano a minha ‘Evocação do Recife’.

Desta época em diante, na elaboração da sua poesia, Bandeira dedicou-se, sobretudo às eliminações sistemáticas dos excessos, procedendo por aproximações sucessivas à forma final do poema. Nele é notável a predominância do poema breve, aparentemente singelo, de caráter muitas vezes prosaico, cuja força sintética tem o poder de singularizar a inspiração poética. No lugar da expressão imediata da subjetividade, própria da lírica, tem-se a notação epigramática da realidade objetiva, a descrição de um objeto, de uma cena, em linhas despojadas, visando dar substrato a um sentimento, uma ideia6.

O valor das palavras, seu encanto, pode chegar ao leitor por caminhos diversos que eventualmente se harmonizam: a musicalidade, um mistério evocado, o apelo ao sentimento ou qualquer outro atributo que surpreenda a sua inteligência sensível: A poesia comunicaria antes de ser compreendida é o que nos diz T.S. Eliot. Ou, na expressão mais desabusada de Cesare Pavese: Ninguém escreveria versos se o problema da poesia consistisse em fazer-se compreensível7.

Se por vezes o poema navega entre a incompreensibilidade e o fascínio, o poeta, por sua vez, busca a recepção e o acolhimento. No seu ofício, ele transforma a apreensão de uma imagem ou de uma situação concreta em síntese verbal que atrai a cumplicidade do outro. Este é o próprio da criação literária. E o exame das diversas maneiras de como este circuito de cumplicidade se estabelece – mais ou menos intenso ou prazeroso – é geralmente a função da crítica8.

A referência ao passado não é simples notação sentimental ou registro autocomplacente: trata-se de construção bem pensada em que o traço confessional minimiza-se, procurando se anular; e, de tal maneira que o enumerar de nomes próprios de pessoas desconhecidas aos leitores, “puros significantes”, adquire valor de representação de sentimentos e de significados.

E assim, Totonho Rodrigues que pensava que o fogo sempre era em São José, o atrás de casa, o cais da Rua da Aurora que ficava do lado de cá, deixavam de serem imagens na sua singularidade e adquirem poder encantatório para os que são atentos.

Parece-me assim natural que Bandeira tenha percebido uma “afinidade eletiva” entre a sua poesia e o imagismo, movimento poético modernista do início do século XX na Inglaterra e EUA, liderado por Ezra Pound. O encontro foi proporcionado por Gilberto Freyre que alardeava os méritos do imagismo entre os amigos. Em um artigo sobre Amy Lowell9 assegurava:

[...] posso falar, não de conversões literárias ou artísticas ao “imagismo” anglo-americano ou ao “expressionismo” germânico ou ao “folclorismo” irlandês ou a qualquer outra seita “modernista” que se tivesse realizado por meu intermédio, mas de contatos que tornei possíveis entre brasileiros e ismos então de todo ou quase de todo ignorados no Brasil: mesmo os “modernistas” mais sofisticados do Rio e de São Paulo.

[...] Um daqueles brasileiros – digo-o um tanto ancho de vaidade ao recordar que em livros dados a mim por Amy Lowell, Constance Linsay Skinner e A. Joseph Armstrong, iniciaram-se vários brasileiros na new poetry – que, por meu intermédio, se aproximaram da new poetry em língua inglesa foi Manuel Bandeira. Outro foi Ronald de Carvalho.

O primeiro contato de Manuel Bandeira com o imagismo se deu através da The new poetry: an anthology of Twentieth-Century Verse in English, editada por Harriet Monroe e Alice Corbin Henderson10, provavelmente emprestada por Gilberto Freyre em 1927, quando da passagem do poeta pelo Recife. Todos os poemas citados por Bandeira na correspondência do período tanto para Ribeiro Couto como para Freyre referem-se àqueles daquela Antologia. Em uma carta de 12 de julho de 1927, endereçada a Couto, ele expressa seu entusiasmo por um dos poemas, no qual se vê o esforço de concentração e o senso de economia na linguagem que estiveram de mais a mais presentes na sua poesia:

Image
Like a gondola of green scented
fruits
Drifting
along in the dank
canals at Venice
You, o esquisite one,
Have entered into my desolate city11.

Robert Aldington12.
Não é maravilhosa esta quadra libertina?
Abraços do
Manuel

Ao que parece, Manuel Bandeira experimentou uma identificação imediata entre o que propunha aquele grupo de poetas e a poesia que vinha escrevendo naquele momento. Veja-se assim, por exemplo, o poema Pensão familiar, escrito em 192513:

Pensão familiar
Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebeias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

A enumeração de imagens descritas vem acompanhada com uns poucos adjetivos e adereços: um diminutivo, o estado de uma flor, uma cor que recebe uma exclamação, a palavra familiar, no título, acolhendo um jardim em uma tarde preguiçosa e pequeno burguesa. O termo plebeu atribuído a uma dália reforça o aspecto humilde, sem modos do ambiente aconchegante. Por ironia, apenas um gatinho comporta-se com esmerada elegância, inatingível inclusive por nós, fisgado pela melancólica e tão palpável construção de um quadro urbano de quase cem anos atrás.


1. Rego, José Lins do. “Manuel Bandeira mestre da vida” In: Homenagem a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Officinas Typographicas do Jornal do Commercio, 1936, p. 106. Apud: Vicente, Silvana Morelli. Cartas Provincianas: correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira. Tese de doutorado submetida ao Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007, p. 36.

2. José Lins do Rego enganara-se sobre a data. O artigo de Gilberto Freyre, “A propósito de Manuel Bandeira” foi publicado realmente no Diário de Pernambuco, porém em 21 de junho de 1925. O texto de Zé Lins foi escrito mais de dez anos depois, em 1936 por ocasião do cinquentenário de Manuel Bandeira.

3. Versos do poema “Pierrot místico”, do livro Carnaval.

4. Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Manuel Bandeira nasceu no Recife, em 19 de abril de 1886, na Rua da Ventura, atualmente Rua Joaquim Nabuco. Em 1890, a família do poeta deixa o Recife e vai residir no Rio de Janeiro, depois em Santos, e novamente no Rio.  Em 1892, volta com a família para Pernambuco, em 1896; a família muda-se novamente do Recife para o Rio, onde se estabelece em Laranjeiras. Manuel Bandeira fixa-se. definitivamente. no Rio de Janeiro, até a sua morte, em 13 de outubro de 1968. Há um registro de uma breve (e primeira) visita a sua cidade natal, em 1927, aos 41 anos.

5. Cf. No seu “Itinerário de Pasárgada”. In Manuel Bandeira. Seleta de prosa, op. cit. p. 326.

6. Arrigucci Jr., Davi. O cacto e as ruínas. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000, p. 37.

7. Friedrich, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978, pp.15-16.

8. Alencar, José Almino de. “O beija-flor e as proparoxítonas”. In: Gordos, magros e guenzos, CEPE editora, Recife, 2017, p. 50.

9. Vicente, Silvana Morelli. Cartas Provincianas: correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira. Tese de doutorado submetida ao Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007, pp. 384 e 385.

10. New York, The Macmillan Company 1917. Há uma segunda edição revisada de 1922 que poderia corresponder ao exemplar pertencente a Gilberto Freyre.

11. Imagem

Como a gôndola que tem a aroma

de frutos verdes

deslizando

ao longo dos úmidos

canais de Veneza

Você, ó delicada

Entrou na minha cidade deserta.

12. Na verdade, Richard. Bandeira transcreveu errado o nome próprio: Aldington, Richard (Portsmouth, 8.7.1892 – Sury-en-Vaux, Cher, 1962). Poeta e romancista inglês, depois de 1935 viveu parte de sua vida nos Estados Unidos. O poema citado por Bandeira aparece no livro Images: 1910-1915 (London: Poetry Bookshop, 1915), o primeiro volume de poesia de Aldington. Note-se que, na transcrição do poema na sua carta, Bandeira introduz a tradução para o português de alguns termos.

13. Publicado em Libertinagem (1930).

CONTEÚDO NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO IMPRESSA

Venda avulsa na Livraria da Cepe